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Monday, May 12, 2014

Liane de Pougy: it girl e pecadora arrependida.


A vida de Liane de Pougy, uma das mais célebres demi-mondaines da Paris da Belle Époque, podia resumir-se da seguinte maneira: do convento-para-o-cabaret-para- o -palácio-e-para-o-convento-outra-vez.

  Ao contrário de tantas "grandes horizontales" (como Cora Pearl, La Paiva ou Marie Duplessis, a Dama das Camélias) Liane - nome de baptismo,  Anne Marie Chassaigne - não teve uma infância difícil no campo, ou em qualquer bairro desfavorecido. Nasceu numa família de classe média e teve uma boa educação num mosteiro, de onde só saiu (ou antes, fugiu) aos dezasseis anos para casar com um Oficial da Marinha.


A história podia ter ficado por aqui, numa grande respeitabilidade burguesa, se o  marido, Armand, não saísse um brutal que lhe batia. Desnorteada com a responsabilidade doméstica (mais tarde, recordaria que via o filho que lhe nascera como "um boneco" e que era uma péssima jovem mãe) e com a violência que lhe deixou cicatrizes para o resto da vida, Anne - que não devia, apesar disso, ter grande medo do marido - vingou-se tomando um amante, o Marquês Charles de MacMahon. 

Armand apanhou-os em flagrante delito na sua casa em Marselha e reagiu como seria de esperar de um homem do seu género: disparou sobre o casal de adúlteros e feriu a mulher num pulso. Receosa pela sua vida, Anne vendeu o único bem que possuía - um lindo piano de pau rosa-  e em menos de uma hora estava num comboio para Paris, deixando o atribulado matrimónio e o filho bebé para trás.

 Aí, lançou-se no teatro (sem grande talento, assinale-se: a grande Sara Bernhardt, que lhe deu aulas de interpretação, aconselhou-a a "manter a linda boquinha calada sempre que possível") e na vida galante, com o nom de guerre mais romântico de Liane; o apelido foi-lhe "emprestado" por um dos seus patronos, Conde do mesmo nome. 

Para uma cocotte, a presença no palco era só um meio para a celebridade, a atenção da imprensa...e pretendentes poderosos, que não tardariam a cobri-la de jóias magníficas, palacetes e carruagens. Para lá chegar, Liane contou com os ensinamentos de uma cortesã bem sucedida: a  famosa "Condessa" Valtesse de La Bigne, uma das mulheres que inspiraram a personagem Nana, de Zola.

Valtesse de La Bigne
Bonita, jovem, elegante, excessiva, sem pruridos em envolver-se tanto com homens como com mulheres, em breve Liane formava,  juntamente com a  Bela Otero e a famosa Émilienne d´Alençon, a "Grande Trois", as "Três Graças" das cortesãs de topo - mulheres famosas pelo seu desempenho nas Folies Bergères e na vida dos homens no poder. 

 Pelo meio, Liane fez sucesso como escritora, publicando contos e romances mais ou menos autobiográficos que eram recebidos pelo público com grande curiosidade.



 Mas em 1910, a beldade deixou definitivamente o "demi-monde" para casar com o Príncipe romeno Georges Ghika. 

O relacionamento entre os dois terá começado quando o jovem titular  cavalheirescamente  a defendeu, ao vê-la ser alvo de troça por usar um chapéu demasiado grande e extravagante; travou-se de razões e acabou por ir parar a tribunal por causa da brincadeira. 



Embora a família dele desaprovasse uma união tão escandalosa - outra coisa não seria de esperar - e lhe cortasse os fundos, o casal foi feliz durante vários anos, vivendo no campo.
  Porém, uma crise no casamento e a morte do filho do primeiro marido, Marc, na I Guerra Mundial, fizeram Liane (que agora utilizava o nome de Anne Marie, Princesa Ghika) voltar-se gradualmente para o único Homem que nunca a desiludira: Cristo. 



 Após enviuvar arrependeu-se da sua juventude de estúrdia, escreveu as suas Memórias e ingressou na Ordem Dominicana, como Irmã Ana Maria da Penitência. Passou o resto da vida a cuidar de crianças com necessidades especiais num asilo e morreu pacificamente na Suiça, aos 81 anos de idade.

 Há quem diga que todas as mulheres encerram em si os arquétipos de Santa, Mãe e Amante...mas poucas o terão feito tão literalmente como Liane de Pougy!








Saturday, December 15, 2012

A Bela - e fatal - Otero

                              
"As mulheres têm uma missão na vida: ser belas"

Ela tinha olhos negros de derreter uma pedra, uma figura escultural e um sex appeal que levava os homens a matar ou morrer por ela. Agustina - mais tarde Carmen, ou Carolina - Otero dizia-se filha de um fidalgo espanhol e de uma cigana andaluza. Verdade ou mentira, os seus admiradores compravam a lenda, e estavam dispostos a pagar a peso de ouro cada olhar da perturbante beldade. Nasceu num lar empobrecido; trabalhou como criada; na infância foi vítima de um ataque brutal que a deixou estéril - e talvez por isso, decidiu nunca se deixar dominar por homem algum. Aos treze anos, fugiu de casa com o seu namorado e parceiro de dança, Paco, para iniciar uma carreira como bailarina nos salões de Lisboa. Aos catorze, terá casado com um conde italiano que a perdeu num jogo de cartas. Mas foi em Paris, nas Follies Bèrgere, que criou o seu próprio mito: em poucos anos, era uma das mulheres mais desejadas da Europa. Os homens mais poderosos do planeta lançavam-se, literalmente, aos seus pés.
Os Reis da Sérvia, de Espanha, de Inglaterra, os Grão Duques Pedro e Nicolas da Rússia e o Duque de Westminster foram alguns dos seus amantes ilustres, dispostos a abrir mão de tudo por ela. Cobriam-na de jóias, de casas luxuosas, de carruagens, de banquetes de caviar e ostras com as respectivas pérolas...por volta de 1894 era tão rica que recusou 10 mil francos a um milionário americano para lhe dar o prazer da sua companhia. O infeliz suicidou-se...um de vários a preferir uma bala à humilhação da sua recusa - ou do seu abandono. Detinha sobre os homens que a amavam um poder hipnótico, intoxicante. Diziam que uma vez tendo reparado nela, era impossível desfitá-la. Por volta dos cinquenta anos, A Rainha das Cortesãs ainda continuava a destroçar corações. Morreu aos 97 - levava então uma existência relativamente  modesta e solitária, embora sem cair na miséria como a maioria das suas colegas. Ficou o ícone - que podemos ver a executar uma das suas famosas danças numa das primeiras produções cinematográficas da história.



Saturday, October 27, 2012

O triunfo da Beleza

                             
                                           Jean-Léon Gérôme, Frinéia revelada perante o Areópago (1861)
File:Cnidus Aphrodite Altemps Inv8619 n3.jpg
Cópia da Afrodite de Knidos.
Frinéia terá sido a  modelo.
Por vezes, tende-se a perpetuar o mito de que o mundo pagão era um misto de inocência e licenciosidade, palco de todas as libertinagens. Aponta-se o dedo à moral cristã por "mergulhar a civilização nas trevas" instituindo a ideia de pecado e consequentemente, de moderação. Não será bem assim - os conflitos de opinião são tão velhos como o tempo, e algumas das imagens românticas  ou chocantes que chegaram até nós sobreviveram durante séculos...simplesmente porque espantaram o suficiente os seus contemporâneos para os levar a deixá-las por escrito. Leis da decência, leis sumptuárias, da moral e dos bons costumes sempre existiram aqui e ali, razoáveis ou não, aplicadas com mais ou menos justiça. O caso da deslumbrante hetaera Frinéia, musa (e amante) do grande escultor Praxíteles é bem ilustrativo disso. Frinéia era uma das mais famosas cortesãs de Atenas; tão linda que os homens se lançavam aos seus pés, extasiados. Acumulou por isso, muito nova ainda,  uma imensa fortuna. A graciosidade e ausência de pudor eram outros atributos que contribuíam para a sua celebridade: nos festivais de Eleusis e de Poseidon costumava tirar as roupas e mergulhar no oceano perante o olhar siderado dos convivas, hábito que inspirou ao pintor Apeles uma das suas obras mais famosas, a Afrodite  Anadyomene, nascida do mar. (Uma das versões, pelo menos, já que noutra o pintor usou Pancaspe, amante de Alexandre Magno, como modelo). Ora, a riqueza e poder da jovem, uma simples mulher e cortesã demais a mais, há muito que irritava os figurões da cidade. Ela tivera mesmo a audácia de se oferecer para pagar do seu bolso a reconstrução das muralhas de Tebas, com a condição de que nelas ficasse escrito " destruídas por Alexandre o Grande, reerguidas por Frinéia, a cortesã". 
                                       
As autoridades recusaram. Contentou-se então em oferecer a Téspies, sua cidade natal, também arrasada pelo grande conquistador, uma magnífica estátua de Eros - assinada por Praxíteles, claro. Tanta ousadia não podia ser tolerada. Reuniram-se, conspiraram e arranjaram um pretexto para a acusar de corromper os bons costumes. Alegadamente, a beldade teria profanado os sagrados festivais dos Mistérios de Eleusis. A acusação era falsa, mas se fosse considerada culpada, seria condenada à morte. O orador Hipérides, um dos seus fervorosos apaixonados, veio em seu auxílio. Após um discurso inflamado que não comoveu os juízes, o advogado de defesa - que bem conhecia os encantos de Frinéia - arrancou-lhe a túnica e apresentou-a, em todo o seu esplendor, perante o tribunal. Foi absolvida de imediato: tão espantosa beleza só podia ser um sinal de divindade, e nenhum juiz se atrevia a afrontar os Deuses que tão maravilhosamente tinham dotado aquela linda mortal..."beleza é dote e virtude" - para os Antigos Gregos, pelo menos.


Wednesday, August 15, 2012

La Paiva: uma it girl do piorio


Vou ser sincera convosco: hesitei bastante em escrever este post e em classificar Esther Lachmann - que passaria à história como Marquesa de Paiva, ou "A Grande Horizontal" (alcunha simpática!) - como it girl


Porque não me revejo na máxima as meninas más vão para todo o lado, porque não desejo enaltecer os maus exemplos, porque a sua história é tão obscura e tem tantas versões que quase ganha a dimensão de lenda, tornando-se difícil relatá-la com veracidade. Por fim, estive quase a desistir porque entre as cocottes - essas extraordinárias criaturas que arruinavam amantes, atiravam diamantes para a lareira e quase sempre terminavam os seus dias na mais sórdida miséria - houve muitas que empurradas para a vida galante por uma infância de pobreza e abuso conseguiram ter êxito e ser elevadas ao estatuto de celebridade da mais velha forma do mundo, mantendo apesar disso alguma pureza de espírito. É o caso da graciosa Marie Duplessis, a.k.a A Dama das Camélias imortalizada por Alexandre Dumas Filho, e de outras mais. 


Mas não o de "La Paiva", a mais bem sucedida das cortesãs parisienses do século dezanove - que na minha modesta opinião, era um verdadeiro diabo de saias:  excessiva, egoísta, despudorada e sem escrúpulos, de uma ambição voraz, febril mesmo. Era esperta, sensual, bonitinha - de uma forma fria e exótica - e tocava muito bem piano. Mas as suas virtudes quedam-se por aí. Porém, a sua história é tão extraordinária que bem merece ser contada, embora a protagonista seja, no mínimo, uma anti heroína.



A pequena Esther nasceu pobre, em 1819, no guetto judaico de Moscovo. Filha de um humilde casal de refugiados polacos, o pai, tecelão, poucos ou nenhuns luxos lhe poderia proporcionar. Aos dezassete anos, casou com um homem de profissão semelhante à do progenitor, e teve um filho pouco depois. Mas a união seria breve: a ganância de dinheiro e fama levaram-na a abandonar o infeliz marido e o filho pequeno para se instalar nas espeluncas de Paris, perto da Igreja de Saint Paul - Saint Louis. Trocou o nome verdadeiro, tipicamente judaico, por um mais fashionable Pauline Thérèse (pela vida fora usaria vários nomes diferentes, ao sabor das conveniências...) e mergulhou numa vida de deboche. 

  Enquanto se sustentava, com grandes dificuldades, à custa dos seus encantos, abriu-se-lhe uma janela de oportunidade: arranjou modo de ser apresentada ao pianista Henri Herz, iniciando quase de imediato uma liaison que começou bem...mas acabou em chacota. Juntos tiveram uma filha, ele apresentou-a à sociedade como uma senhora honesta e viviam como marido e mulher. Mas a verdadeira natureza desta relação, que provocara inveja e curiosidade, foi descoberta. Ao chegar a um evento, foi -lhe dito "perdão, madame, enganou-se na porta" - uma forma subtil de a pôr no olho da rua. 


A esta vergonha acresciam os gastos descontrolados de Thérèse, que depauperavam a fortuna do pobre Herz a uma velocidade alucinante. Aproveitando uma ausência do pianista (que fora à América tentar pôr ordem nos seus negócios) a família dele, cansada, exasperada já, expulsou-a categoricamente de casa. Foi então que uma amiga a aconselhou a munir-se do esplêndido arsenal de couture que conseguira reunir e a tentar a sorte em Londres. 

Armada com pouco mais do que um monte de roupas fabulosas e uma vontade de ferro, instalou-se em casa de uma senhora que hospedava mulheres da sua condição, mas a sorte tardava em chegar. Doente, frustrada, desesperada, vendo o dinheiro derreter-se entre os dedos, mostrou intenções de se matar. A senhoria, que se afeiçoara a ela, veio em seu socorro. "A menina é jovem, bonita e ainda dispõe de vestidos lindíssimos. Eu tenho um camarote na ópera. Ponha aquela toilette branca que lhe fica a matar e mostre-se em público. Se correr mal, pode sempre suicidar-se amanhã". Therese aceitou o conselho e na manhã seguinte "tinha dez fortunas a seus pés". 

Lord Stanley, Conde de Derby, foi um dos alegres voluntários. Nessa altura ela jurou que havia de ter, nem mais nem menos, o mais magnífico palácio de Paris. As tropelias de Thérèse eram lendárias: conta-se que exigiu a um certo banqueiro vinte notas de mil francos para dormir com ele. O D.Juan da alta finança fez as contas e achou que valia bem a despesa: entregou-lhas. E ela devolveu a gentileza...entretendo-se a queimá-las alegremente, uma por uma, em pleno acto amoroso. Outra versão relata que o banqueiro devia 
queimá-las, para que ela lhe fizesse a vontade: mas o homenzinho era tão forreta que as substituiu por falsas; ainda assim, a mera visão de queimar dinheiro refreou-lhe a paixão, livrando a bela de cumprir o acordo...


Uma soireé em casa de La Paiva, por Monticelli
    Rica, regressou a Paris triunfante e comprou uma casa luxuosa, onde estabeleceu um salão frequentado pelas celebridades da época, como Richard Wagner. Entretanto, o pobre diabo com quem casara na Rússia fez-lhe o favor de morrer de tuberculose, deixando-a livre para caçar um nome respeitável. E a próxima vítima não tardaria: num spa em Baden, conheceu um jovem fidalgo português, de sangue apaixonadiço, estouvado e de cabeça leve - Albino Francisco de Paiva-Araújo, luzindo o algo discutido título de Marquês de Paiva, que andava pela Europa derretendo a herança paterna numa vida de estúrdia. O dândi fez-lhe a corte, ela resistiu fingindo um pudor que nunca tivera - e rapidamente o enredou. O jovem titular não tardaria a arrepender-se de oferecer a sua mão a tal aventureira. 

Após a noite de núpcias, ela dirigiu-lhe palavras pouco próprias de uma recém casada: "queria dormir comigo, e conseguiu-o fazendo-me sua mulher; deu-me o seu nome, eu absolvi-me a noite passada; portei-me como uma mulher honesta - queria uma posição e consegui-a, mas tudo o que tem é uma prostituta por esposa. Não me pode levar a lado nenhum; não pode apresentar-me a ninguém. Por isso, devemos separar-nos: regresse a Portugal que eu fico aqui, usando o seu nome e continuando a ser uma meretriz"

E assim fez, embora contasse já com outra fortuna, com um título e o nome honrado (menos, depois de ela o usar...) com que passaria à história: Marquesa de Paiva, conhecida em Paris por La Paiva.  Humilhado e traído, o bon vivant matou-se com um tiro. Célebre, milionária, festejada, a endiabrada mulher continuou a despedaçar amantes, a organizar orgias - dizia-se à boca pequena que por vezes mandava as convidadas embora, para gozar sozinha a companhia dos cavalheiros presentes - a receber magnificamente, a gastar melhor, a maltratar os criados e a cometer crueldades de enfiada. Certa vez, matou a tiro um cavalo só porque o animal teve o bom senso de a atirar por terra...
 A  última conquista da alegríssima viúva negra foi um magnata prussiano, o conde Guido Henckel von Donnersmarck, 11 anos mais novo. A paixão do conde, que tinha algo de perturbado e de excêntrico, foi fulminante: casaram.

Restaurant at La Paiva mansion

 Foi a seu lado que tornou a sua mansão nos Campos Elíseos, o Hôtel de La Paiva, uma das casas mais extraordinárias do seu tempo, um prodígio de luxo e de um gosto muito particular (as "casas de banho eróticas" com banheiras de ónix e prata e torneiras para leite ou champagne, eram particularmente célebres). Ele ofereceu-lhe um castelo e jóias de valor incalculável- algumas que tinham pertencido às senhoras da fina flor da nobreza, que anos antes lhe haviam fechado as portas na cara - como os famosos diamantes amarelos Donnersmarck. 

Com os seus pecados ocultos por uma fina camada do melhor verniz, retirou-se com o marido, loucamente apaixonado por ela, para o seu castelo de Neudeck, sob acusações de espionagem. Apesar disso, tinha finalmente tudo o que sempre desejara - quando a morte a surpreendeu. O seu destino final, diz-se, foi tão estranho como a sua vida. Quando anos mais tarde a segunda mulher de Henckel entrou inadvertidamente numa divisão oculta do castelo, deu com o corpo nu da sua antecessora, preservado em formol. A pobre senhora teve um colapso nervoso - e quando regressou a si, La Paiva foi posta fora uma derradeira vez, recambiada para o jazigo de família. No Hôtel de La Paiva, reabilitado e devolvido à sua antiga glória, funcionam actualmente o British Travellers Club e um restaurante muito procurado pelos turistas. O que aquelas paredes devem ter visto e ouvido...
                                    

                                          

Monday, August 13, 2012

Veronica Franco, it girl do século XVI


File:VeronicaFranco.jpg
Retrato de Veronica Franco, atribuído a Tintoretto
"Quando nós (mulheres) somos dotadas de treino e armas, podemos convencer os homens de que temos mãos, pés e um coração como o deles; e embora sejamos delicadas e frágeis, alguns homens delicados também são fortes; e outros, bruscos e grosseiros, são cobardes.  As mulheres ainda não se aperceberam disto (...) E para o provar, eu própria começarei por dar o exemplo".

                                                                              Veronica Franco
Veronica
A Veneza do século XVI era uma cidade opulenta, cosmopolita e fervilhante de actividade, famosa pela beleza e estilo das suas mulheres. Como cidade chave para o comércio entre a Europa e o Oriente, a República de Veneza não só era bafejada pela fortuna como tinha acesso às novidades, influências e luxos de outras paragens. Abundavam os perfumes, as especiarias, os tecidos ricos, os cosméticos, as jóias e uma grande alegria de viver. A "jóia sobre as águas" era um paraíso de hedonismo, e nos seus palácios celebravam-se as artes, a cultura...e festas esplêndidas. Criadas como pérolas raras entre todos esses esplendores, as venezianas representavam o cúmulo do chic decadente: foram elas que criaram a moda de "lavar a cabeça" (leia-se, pintar o cabelo) ao sol, criando as famosas nuances acobreadas do louro veneziano. A sua elegância elaborada fez escola e vem desses tempos a célebre frase " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". Entre elas, destacavam-se as suas reputadas cortegiane, mulheres deslumbrantes, de fina educação, que partilhavam o destino dos venezianos poderosos...e dos forasteiros privilegiados que pudessem pagar a sua companhia. As mulheres que se dedicavam à vida galante dividiam-se em duas classes: a  cortigiana oneste ("cortesã honesta" ou "honrada") e a cortigiana di lume, a prostituta comum. 
Entre as primeiras, versões renascentistas das hetairas  - Veronica Franco é talvez a mais famosa. 
Catherine Mc Cormack interpretou Veronica no filme "Dangerous Beauty"
 Nasceu em 1546, filha de uma cortesã reformada, Paola Fracassa. Mulher culta, Paola insistiu para que a filha recebesse educação igual à dos seus três irmãos. A pequena Veronica estudou assim com professores particulares, um privilégio vedado à maioria das meninas de boas famílias, educadas apenas para o casamento. No entanto, esse era o destino que inicialmente a esperava: na adolescência casou com um médico abastado, mas a união foi um fracasso e Veronica pediu o divórcio. A lei, no entanto, determinava que a mulher que tomasse tal iniciativa perdia o direito ao dote que trouxera. Sem recursos e com um filho para sustentar, a beldade decidiu seguir as passadas da progenitora, empregando a educação que recebera numa carreira de cortigiana onesta. Aos 20 anos, figurava no catálogo di tutte le principale e più honorate cortigiane di Venezia, um documento que apresentava os retratos, descrição e honorários das mais afamadas cortesãs de luxo. O seu êxito foi tão grande que pouco depois sustentava uma casa enorme incluindo vários sobrinhos, os filhos que foram surgindo (teve seis, mas apenas três sobreviveram) muitos criados e professores para as crianças. A sua graça e espírito renderam-lhe amantes - e protectores - poderosos. Um deles foi Henrique III de França  (irmão e amante da perturbante Rainha Margot e amado da Rainha Virgem, Elizabeth I). Aos 25 anos, no auge do sucesso, juntou-se ao salão literário do seu patrono Domenico Venier, poeta e magnata, tornando-se assim membro dos literati venezianos: participava em discussões e antologias - como poetisa e editora -  e em 1575 publicou Terze Rime, uma colecção que incluía 17 poemas da sua autoria...e os restantes, versos a ela dedicados. Muitos dos seus textos celebravam abertamente a sua condição de cortesã e tinham um conteúdo atrevido; outros defendiam os direitos da sua classe e das mulheres de modo geral, ou respondiam a tentativas de provocação a ela dirigidas. Era ainda uma intérprete talentosa: sabia música, tocando admiravelmente alaúde e spinetta (uma versão anterior do cravo). Uma mistura de sprezzatura, ousadia, inteligência e discrição, Veronica revelava-se - não obstante o seu estilo de vida - defensora de uma certa moral e modéstia femininas. Nas suas cartas, publicadas em 1580, admoesta uma mãe que pensa fazer da filha uma cortesã, e lamenta que certas modas demasiado provocantes sejam usadas pelas jovens. O seu triunfo, porém, seria toldado por várias desgraças. 
photo of 16th c. chopine held at the Brooklyn Museum (New York)
"Chopines"  usados pelas cortesãs e  fidalgas venezianas
Retrato de Veronica na capa do seu 1º volume de poesia, Terze Rime














Durante  um surto de peste foi obrigada a deixar a cidade por dois anos. Quando regressou, viu os seus bens saqueados. Mais tarde, um pretendente despeitado denunciou-a à Inquisição com falsos testemunhos de bruxaria- um problema comum para as cortesãs venezianas, frequentemente acusadas de corromper os bons costumes. Eloquente, defendeu-se com graça e habilidade, ganhando a causa. Na contenda, não lhe faltou o apoio dos seus amigos poderosos. Mas a sua fortuna e reputação nunca recuperariam deste revés e por morte dos seus patronos, os seus meios diminuíram substancialmente. Até à morte levou uma existência relativamente obscura, pouco facilitada pelos seus conterrâneos: viu recusado o seu projecto de criar um lar para mulheres desvalidas, cortesãs retiradas e seus filhos. Para a história, ficaram os seus belíssimos poemas e os retratos que inspirou:


(Um desafio colocado a um amante)


Non piú parole: ai fatti, in campo, a l' armi. 

ch' io voglio, risoluta di morire, 
da si grave molestia liberarmi. 
Non so se' l mio « cartel » si debba dire, 
in quanto do risposta provocata: 
ma perché in rissa de' nomi venire? 


Mais conversa não! À liça, ao campo de batalha, às armas!
Pois resolvida a morrer, de grave mal me libertarei.
Não sei se lhe chame desafio, pois respondo a uma provocação
Mas porquê duelar  por causa de palavras?


 












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