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Tuesday, January 23, 2018

Pobres piquenos!!! - 6 crueldades a que os pais de hoje submetem as criancinhas





Há muito quem diga (e com alguma razão) que certas coisas só se aprendem depois de ter filhos... e que uma pessoa, em sendo mãe, muda de ideias em relação a tantas outras. Porém (como tantas mulheres da minha geração que começam uma família e que andam a planear o futuro lá com os seus botões), ando atenta ao maravilhoso mundo dos bebés.

 Conclusão? Tenho para mim que, se Deus me der descendência, há maluqueiras em que só cairei se tiver ensandecido de vez (o diabo seja cego, surdo e mudo e não saiba ler os pensamentos!).

 E nem sequer estou a falar de modernices mais fracturantes e polémicas como os movimentos pró-amamentação à vista de todo o mundo e/ou desmamar a criança quando ela já está farta de ter dentes (cada uma sabe de si, mas Deus me defenda), ou como sujeitar os inocentes à falta de vacinação e/ou uma dieta experimental qualquer. 




Nem sequer me refiro a modinhas mais subtis (mas que  francamente me irritam) como o "co sleeping e bed sharing" ou  a "parentalidade positiva" (que em teoria não é completamente má, embora demasiado zen, politicamente correcta, mãe-do-Ruca e pequeno burguesa para mim; mas na prática, ao que tenho lido, se traduz não tanto na ausência de gritaria, lamparinas ou castigos e sim na mais completa permissividade, indisciplina e sujeição aos caprichos do ditador mirim).

Ná, nem é preciso ir para tais "formas de estar alternativas". O que não falta hoje em dia são maneiras de sujeitar a criançada a judiarias que não lembram ao diabo mais velho. Vejamos algumas:


1- Pôr laçarotes e fitas em bebés...carecas


super Cola 3, cola tudo em segundos...


Isto é uma mera questão de gosto pessoal, mas que querem? Primeiro, é suposto fitas e ganchos servirem para segurar madeixas de cabelo e se não há cabelo...percebem a ideia. Segundo, que diabos fazem para segurar certos laçarotes? Aquilo tem cola ou quê? Terceiro, enfeites de cabelo nem sempre são confortáveis (até em nós, adultas); que se dirá usados tão perto da raiz, e na cachimónia de um pequeno ser que não pode
 explicar-se para exigir "mãe, fora com esta porcaria está que está a incomodar-me!".

E quarto, mas não menos importante: acho que uma criança com cabeça de ovo ganha um ar pateta com acessórios no alto da pinha, ainda que seja linda como os amores sem cabelo e tudo. 

Depois, já se sabe: há muitas bebés que até vêm a tornar-se umas bonequinhas quando crescem um pouco mais (e algumas que se fazem umas grandes beldades depois de adultas) mas que nos primeiros meses não têm grande piada, ou até deitam uns certos ares arrapazados, só bochechechas e pouco mais. Nesses casos, pôr-lhes penduricalhos como quem diz "atenção que esta é uma menina!" só chama ainda mais a atenção, como que a pôr as pessoas a pensar, sem se atreverem a dizer em voz alta "se não fosse o laçarote juraria que era um rapaz!".


Uma amiga minha teve recentemente uma bebé encantadora e com tanto cabelo louro dourado (mas mesmo dourado!) como nunca vi. Nesse caso até faz sentido, desde que se tenha o cuidado de evitar coisas desconfortáveis como bandelettes (arrepio-me toda quando vejo isso porque quase todas as bandelettes me provocam uma enxaqueca medonha). Em todos os outros, mais vale enfarpelar o pobre anjinho em quantos folhos, rendinhas, vestidinhos rosa-bebé (mas nunca rosa-serigaita nem rosa choque, pelas almas!), enfim, ataviá-la com todas as peças ameninadas que vierem à mão, mas 
deixar-lhe a cabeça à vontade.
Infinitamente mais giro.

 Ou melhor ainda, comprar-lhe uns carapucinhos (para os dias frios) e umas touquinhas de algodão à moda antiga (para os dias quentes). É mil vezes mais amoroso, tem outro ar e qualquer bebé fica um amor de touquinha, mesmo que pareça meio amassado de ter acabado de vir ao mundo por parto natural ou esteja naquela fase work in progress em que não se parece ainda com ninguém. Muito mais apresentável e sempre protege do vento e do sol: é que já tenho visto pais que dos laçarotes não se esquecem, mas são capazes de deixar a a criança apanhar soalheiras na moleirinha e depois queixam-se "não sei a quem saiu tão desmiolada". Team Touquinha, desculpem lá.

2-Publicar retratos do recém nascido no Facebook...com a cara tapada por um emoji.

E o que é pior: tantas cautelas ao início, apenas para dali a uns meses não resistirem ao apelo dos likes passarem a exibi-lo nas redes sociais completamente à vontade quando o pequeno já é reconhecível e até já dá as suas voltinhas pelo próprio pé, estando portanto em maior risco. Não vou agora elaborar se acho ou não boa ideia expor as crianças em blogues ou social media (creio que tudo se quer com conta, peso e medida) mas haja coerência!
 Para começo de conversa, se a ideia de tapar a carinha do crianço com um smiley (ou pior, um macaco ou focinho de cachorro do Snapchat) é proteger o inocente contra eventuais raptores, desculpem mas isso falha completamente. Afinal, um bebé acabado de nascer não vai sozinho a parte alguma, por isso ser ou não reconhecido na rua é perfeitamente indiferente. A única forma de evitar qualquer atenção de gente tarada (lagarto, lagarto) seria não revelar de todo, nos facebooks e instagrams da vida, que se tem um bebé em casa. 

Depois, esta é simplesmente uma modinha foleira e ridícula, de nível Fatality social (voz do Mortal Kombat). Não sei ao certo o que vai na cabeça dos pais que fazem tal coisa; porém o que sugere é uma vontade danada de mostrar a novidade ao mundo, mas frisando "olhem que somos super conscientes, moderninhos e informados, ok?". Curiosamente, estes costumam ser os mesmos pais parolinhos que também fazem as três maldades de que falaremos já a seguir. Ou seja, ou os pobres pequenos saem super rebeldes ou ficarão condenados à pinderiquice eterna. Ai destino, ai destino, fado malvado.


3- Dedicatórias que começam por "Não sei quantos meses de ti"( ou de João/Maria/Carlota Andreia)



Como vimos aqui, este chavão medonho propagou-se pelas redes sociais como uma praga. Do nada, primeiro os saloios de serviço e depois pais tidos, até então, como pessoas sérias e normais, deixaram de falar como sempre falaram para adoptarem este palavreado postiço, atrozmente lamechas, ao referirem os meses de gestação ou idade do bebé, achando que é poético.  Poético tipo letra do Toni Carreira. Não sei de onde a modinha veio- suponho que tenha sido inventada num qualquer nails corner e contagiado o povo através de certos blogs- mas que carimba os pais e por conseguinte, o bebé, com um certo ar labrego e baratuxo, isso carimba. Stop already.


4- Tratá-los por Baby M., B., X ou Y (diante dos amigos ou nos social media).




Também tratámos desse modismo aqui e entre os dois, venha o diabo e escolha. Não sei se a ideia é dar um ar de mistério (a ver se chamam a atenção e alguém lhes faz perguntas, como se houvesse pachorra) se é preservar a  privacidade da criança (fail) ou impedir que outras pessoas desatem a pôr o mesmo nome aos filhos (podem sempre fazer como a Beyoncé e registar um nome esquisitíssimo como trade mark; é uma pinderiquice e vai complicar a vida do inocente até ele ter idade para mudar legalmente essa desgraça, mas a originalidade está garantida). 

Ou talvez seja uma tentativa possidónia de arranjar um petit nom chique a valer (erro crasso). No entanto, tenho para mim que as pessoas o fazem sem saber muito bem porquê, só por ver os outros fazer, achando que dá um certo estilo, que fica delicado e cosmopolita (erro de proporções bíblicas). A mania pretensiosa terá começado com algumas bloggers e foi por aí abaixo, popularizando-se nos salões da esquina, reuniões de tupperware e festas da Bimby até acabar por contagiar gente com obrigação para se comportar de outra maneira. De qualquer modo, além de ser uma carneirada do piorio dá à criança, que não tem culpa nenhuma, uma certa aura de rapper mafioso, de projecto de robótica ou clonagem (Baby A. versão 2.0, que tal?) ou pior, de concorrente do Big Brother. A sério, se a ideia é o bebé andar incógnito, ao menos arranjem-lhe uma alcunha com piada ou um petit nom amoroso. De preferência com duas sílabas.

5- Contar a idade dos filhos por meses (até chegarem à escola primária).



Em boa verdade este hábito de alguns pais algo...bom, exagerados, nem afecta tanto os pequenos (que ainda nem sabem a quantas andam). 

Só irrita quem está à volta: se uma alma desprevenida cai na asneira de perguntar educadamente a uma mãe/pai desses que idade tem o Zezinho ou a Mariazinha, zás: leva prontamente a resposta maluca "tem 39 meses e meio" ou coisa que o valha. E para ali fica uma pessoa a fazer contas de cabeça, em modo mas qual será a idade da criança, eu sei lá, sei lá
Este é um fenómeno muito comum entre aquelas "mulheres que deixam de ser mulheres e passam a ser só mães" e que desistem completamente de ter outros assuntos/interesses, deixando os amigos em parafuso e os maridos à beira de fazer as malas. Mas não é um exclusivo dessas, infelizmente!

 Há pais que não se convencem de que, embora ter filhos seja a coisa mais maravilhosa e especial do mundo, ser mãe/pai não os torna únicos e sobre-humanos. 

E como tal, compensam o desapontamento de serem "apenas" adultos capazes de se reproduzirem e porem no mundo um entezinho querido, bochechudo e saudável  falando como se pertencessem a alguma seita secreta, com uma linguagem em código só acessível aos eleitos- e por eleitos entenda-se "pais super extremosos e fanáticos de todas as novidades e exageros". Afinal, os pais normais e escorreitos das ideias são assim uma espécie de hereges que não recebem convites para os baby showers a imitar as Kardashian nem para as festinhas com tupperware cheias de biscoitos de linhaça recomendados pela baby blogger mais pequeno-burguesa do momento. 




Para alguns, esta é uma forma de má criação passiva, de pôr de parte quem ainda não tem filhos (ou quem até tem uma data de bebés mas não alinha nessa cassete de maternidade ao estilo doutrinação comunista). Assim como quem diz "oh! esta não sabe? Pois, não tem filhos, coitada! ..." ou "olha....esta tem uma data de filhos e não sabe de cor a tabuada das idades por meses? Que péssima mãe!"  

Porém, nem todos os pais que têm este hábito o farão por serem pretensiosos: muitos haverá que dizem assim por ver os outros dizer, e outros ainda porque estão tão assoberbados com os cuidados que uma criança exige que se esquecem de que não estão a falar com o pediatra ou outro profissional de saúde infantil- únicas pessoas a quem interessa, de facto, saber com precisão matemática a idade da criança depois do primeiro ano!

Aliás, segundo a revista "Pais e Filhos", a partir dos dois anos (24 meses, ora tomem!) o petiz já não é um bebé e sim uma criança, logo não é desejável continuar a tratá-lo como um anjinho de colo. Nem a contar-lhe a idade por meses. De qualquer modo, eu que não tenho a mínima pachorra e gosto sempre de fazer troça de tutti quanti, perante tal palavreado custa-me horrores não perguntar, de rajada, com o ar mais inocente deste mundo: 37 meses? Que amoroso! E isso em linguagem de gente crescida, quanto é?


6- Trazê-los no carrinho até chegarem à escola primária



OK, eu percebo que nem todas as crianças se desenvolvam ao mesmo ritmo, tenham a mesma resistência ou caminhem à mesma velocidade. Também compreendo que algumas precisem de dormir a sesta e que usar o buggy seja uma "bengala" fácil quando se precisa de fazer compras à pressa, por exemplo. No entanto, se a cria tem mais de quatro anos e/ou PARECE ter mais de quatro anos, se é capaz de andar/saltitar/correr perfeitamente e enfim, se já tem idade para não gostar que a confundam com um bebé...se calhar é melhor pensar duas vezes. Sempre que vejo um par de pernas compridas a espreitar para fora de um carrinho de bebé, encolho-me entre a vergonha alheia e o receio de que a pobre criança tenha um problema de saúde qualquer. 

 Aliás, esta mania desperta aversão a tanta gente que há tempos até foi criado um blog a satirizar o tema. De mais a mais, neste artigo em que várias mães "empurradeiras" foram entrevistadas sobre o assunto, a maioria das justificações era de morrer a rir: desde "ele chora e diz que quer ir a pé, mas como é muito irrequieto e não me deixa fazer as unhas em paz, afivelo-o no carrinho quando vou ao salão para ele não incomodar ninguém" (prioridades, minhas senhoras, há que ter prioridades -nails before babes!) a "ainda não estou preparada para que ele deixe de ser bebé" (esse rapazinho vai precisar de tanta terapia!) passando por "eu tentei que ele começasse a ir pelo seu pé, mas ele fazia sempre cenas...antes o carrinho que uma birra!!" (como alguém comentou: se ele chegar aos 10 anos e quiser beber tinto ao almoço, vai dar-lhe a garrafa porque mais vale o miúdo enfrascar-se do que fazer birra?).




 E acrescente-se que as entrevistadas eram assim para o rechonchudo: carregar os filhos ao colo por um bocado ou correr atrás deles não lhes faria senão bem. 

Adiante: segundo os especialistas na matéria, este hábito "preguiçoso" não é só  mau no sentido de infantilizar a criança ou de a expor a comentários menos abonatórios numa idade em que começa a ter noção do rídículo ( péssimo para complicações de auto estima). Pode mesmo retardar o desenvolvimento, além de contribuir para a obesidade infantil

Em última análise, revela muito do apego exagerado de certas mães (e se calhar, pais) e é a receita perfeita para criar filhos filhos mimalhos e xoninhas, candidatos a serem o bombo da festa, o bobo da corte, a bola anti stress, enfim, o saco de pancada da turma inteira
E depois vão queixar-se ao psicólogo que a criança é assim meio apoucada, e que na escola o enchem de bolachada e que o mundo é cruel. Nem tudo se pode evitar, o mundo não é mesmo justo e quem quer ser bully arranja sempre pretextos para desancar os outros meninos, mas eu diria que este hábito é mesmo desafiar o destino.
 Fizessem-me isto quando eu era catraia que haviam de ver o que era birra, espanejar no chão, berrar como uma possessa até ficar roxa, enfim, havia de ser o bom e o bonito que nem com um exorcista me acalmavam até pararem de me envergonhar com o malfadado carrinho. Deus dê a estas crianças grandes ataques de insurreição, ou estão desgraçadas nesta vida!

Em suma: como diria o poeta, mas as crianças, Senhor? Porque padecem assim?



Tuesday, May 10, 2016

Chris Hemsworth: é de homem! #2


Já se sabe que o Homem a sério, o Homem Alfa, o que toda a mulher pediu a Deus mesmo que não admita, é sempre desembaraçado seja em batalha, face a um carro avariado ou na cozinha (reflexo de caçador ou de soldado que sabe sobreviver na selva); vai atrás do que quer, não se acanha numa emergência, em caso de uma dita cuja a sua resposta é "eu trato disso" e tão depressa levanta halteres como é um querido com as crianças



E a actriz espanhola Elsa Pataky sabe disso porque nesse quesito lhe saiu a sorte grande: afinal, é muito bem casada com o arquétipo da masculinidade, o Thor, ou vá, Chris Hemsworth, Thor no cinema, que lhe deu três bebés amorosos e que em tudo prova ser um homem de família. Veja-se esta imagem mais linda:



Ora, há dias Elsa mostrou ao mundo via Instagram como está orgulhosa do marido que lhe coube, e por boas razões: a filha do casal, India Rose, fez anos e por qualquer motivo, a padaria recusou desencantar um bolo-dinossauro à última hora. Não tinham tempo nem para atender o Thor, que não está acima dos meros mortais quando o assunto é bolos. De modo que Thor arregaçou as mangas, trocou o martelo pela batedeira e deu uso aos músculos para literalmente pôr as mãos na massa. O resultado foi um dinossauro de chocolate bastante sofrível, que passe o trocadilho até envolveu pintarolas, fazendo a alegria da pequena aniversariante e derretendo a esposa felizarda:



Homem que é homem salva sempre o dia, ou pelo menos tenta. E faz a sua mulher dizer "meu herói" até nas mais ínfimas coisinhas...







Wednesday, April 27, 2016

Do Príncipe George de pijama, e das mães que vão jantar e deixam o bebé com a ama.




Conta a Activa que a mulher do cantor John Legend foi duramente criticada por, apenas uma semana após o parto, ter saído com o marido para um jantar romântico, deixando a bebé com a ama (é no que dá partilhar nas redes sociais o que se faz ou deixa de fazer, e ganhar fãs entre as ressabiadas ao publicar retratos com celulite ou estrias). As super mães de carteirinha reagiram logo, umas dizendo que uma boa mãe não tem de pôr um pé na rua tão cedo, outras que ela devia ter levado o bebé consigo.

Está bem que uma semana é pouco tempo e eu cá não percebo muito de crianças nem simpatizo particularmente com a senhora (por causa da sua opção de mostrar as imperfeições no Twitter);  mas depois de uma experiência stressante como o parto não me parece mal que uma mulher, se está bem de saúde o suficiente para sair e se PODE pagar a uma ama, saia com o marido para se distrair um pouco. São estas coisas que mantêm o romance vivo, que fazem com que uma mulher continue a ser uma mulher e não apenas "uma mãe". 

Não é que ela tenha ido para a pândega toda a noite, voltado perdida de bêbeda e deixado a pequena entregue aos irmãos mais novos como algumas que para aí andam. Quanto a levar recém nascidos para um restaurante, nem comento; só se de todo não se puder evitar. Essa mania de transportar os pobres bebés para todo o lado, sem cuidado com eles nem respeito por terceiros (mania muito popular entre os portugueses, aliás; remember Miguel Sousa Tavares a ser crucificado quando disse, e com certa razão, que nem todos os restaurantes deviam ser child friendly?) nunca deixa de me arrepiar. De bebés a levar com tinta às cores no nariz nas color runs da vida a bebés a serem submetidos a fumo e música altíssima em bares e concertos, já vi de tudo.





As crianças devem aprender a socializar desde cedo, certo - mas há limites. Aliás, vimos o Príncipe William a dar o exemplo de como isso se faz, ao fazer o Príncipe George vir cumprimentar o casal Obama de roupão e chinelos antes de marchar para a cama de acordo com a sua idade: assim mandam os compêndios de boas maneiras e educação.

O resto é inveja ou pouca noção do que ditam as regras de civilidade, creio eu...

Como nota adicional, reparem que o roupão do principezinho esgotou em horas. As pessoas que não têm noção de que é um simples robe-de-chambre igual a tantos outros, e que compram o robe só porque é o "do príncipe", são provavelmente as que levam a prole para TODA  a parte. Parolice much? É deixar qualquer pessoa sensata com um ataque de snobeira à moda antiga. Cruzes.

Sunday, March 20, 2016

O terror do Domingo de Ramos





Bom, para ser franca não foi um terror em Domingo de Ramos, mas lá vai dar: reza a tradição que o alecrim benzido em Domingo de Ramos é muito bom para afastar trovoadas e outros males- hoje já fui buscar o meu raminho, by the way.

A senhora minha avó era muito crente nisso, muito piedosa e sabia imensas orações para tudo. E também tinha um medo terrível das trovoadas, vá-se lá saber porquê, logo guardava religiosamente os alecrins abençoados para a eventualidade de raios e coriscos. Sempre que trovejava, zás: ia buscar uma telha, punha-lhe brasas, o dito alecrim e mais algumas ervas benéficas (arruda e mais alguma coisa, creio) e começava a lenga lenga em cadência:

S. Gregório se levantou/seu caminhinho andou/Nossa Senhora lhe perguntou/ "onde vais, S. Gregório?"/Vou arredar as trovoadas/arredá-las bem arredadas/para onde não haja eira nem beira/nem pé de figueira/nem pedra de sal/nem nada que faça mal.



Nessas operações eu era sempre recrutada para "assistente" da avó, já que delirava com rezas, padres, freiras, romarias, "santinhos" e de resto, tudo o que me soasse a mágico, religioso ou maravilhoso. Encantava-me o mistério de tudo aquilo, apesar de não ter grande medo dos trovões e dos relâmpagos - mesmo tendo na família alguém que foi atingido por um raio e ficou para as curvas, ou talvez por isso.

Mas houve uma certa tarde que de facto, parecia que Nosso Senhor estava a ralhar (que era a explicação que se dava às crianças para as tempestades). Fez-se escuro como breu, os raios andavam mesmo à volta da casa, a luz foi-se e eram trovões de tal ordem que pareciam mandar tudo abaixo. E para cúmulo, eu, o meu irmão e os meus primos estávamos todos lá em casa- uns cinco ou seis miúdos com idades entre os sete e os dois anos.

Vendo aquele toró do fim do mundo, a avó lá foi buscar a telha e o resto da parafernália. Eu segui-a nas calmas como de costume, mas os outros abriram um berreiro, especialmente os mais pequenitos. E a avó, assarapantada, a ver se os calava, não foi de modas: em vez de lhes dizer que não se passava nada ou coisa do género, tratou de dar um "santinho" a cada um. A um coube um crucifixo (que eu ainda tenho), a outro uma Nossa Senhora, a outra um Santo António e assim por diante. E conforme o fez, BUM! Caiu um raio mesmo em cheio no jardim.



Os pobres pequenos, vendo aquele cenário, a ladainha de S. Gregório e a necessidade de  santinhos para o que desse e viesse, é claro que ainda se afligiram mais, em modo " se são precisos santinhos o caso está mesmo complicado; ai que vamos todos bater as botas". Só me lembro do meu irmão muito pequenino, muito lindo, com os seus longos caracóis louros, a berrar como um desalmado agarrado a uma Nossa Senhora de Fátima que nem um anjinho lavado em lágrimas - e os outros todos em iguais preparos, cada um guinchando para seu lado ai que lá se vai tudo, como se estivessem prestes a dar a alma ao criador.

Asterix e a sua aldeia não teriam mais medo se o céu ameaçasse cair-lhes na cabeça...

Ainda hoje me rio da cena, mas na altura foi um banzé daqueles. e curiosamente, foi a última vez que me afligi alguma coisa com trovões - talvez porque eles caem quando Deus quer e tanto faz ter medo como não. Tenho o maior respeito e até sou capaz de chamar por S. Gregório e Santa Bárbara pelo sim, pelo não - quanto mais não seja pelo encanto do ritual - mas medinho, miufa, nunca mais foi coisa que me assaltasse...



Thursday, March 10, 2016

Pobres brinquedos: anos 80 x hoje

Não é a primeira vez que aqui se esmiuça indignadamente o estado de sítio que vai pelo maravilhoso mundo dos brinquedos. Particularmente nos brinquedos de meninas (sim, alguns destes ainda são "para menina" por mais que a McDonald´s se tenha curvado à doideira, como discutimos aqui e como João Miguel Tavares disse nesta crónica que é das coisas mais lúcidas que li nos últimos tempos). 

Porém, analisando-os todos juntos chega a ser assustador. De acordo com os fabricantes de brinquedos, as pequenas de hoje não podem aspirar a um corpo "perfeito", mas devem vestir como meretrizes; não podem ser femininas no sentido tradicional do termo, mas é desejável serem flausinas e aprenderem desde cedo o atrevimento. Ai não querem crer? Vejam pelos vossos olhos.


1 - My Little Pony

ANOS 80
Já aqui falámos em detalhe no desastre sinistro dos pequenos póneis humanizados e serigaitos, com direito a mini saias e pestanas postiças. Felizmente isso não passou de uma medonha edição especial, mas quer os desenhos quer os brinquedos têm agora um design muito mais infantilizado, diferente dos modelos elaborados que nos encantavam na infância

 
HOJE

Na linha da moda das ilustrações para livros infantis que supostamente as crianças de hoje apreciam, porque "são iguais aos desenhos que elas conseguem fazer". Olhem que divertido, que estimulante: rabiscos e garatujos...


2- Barbie...e o pobre Ken

ANOS 80
  Depois de anos a bater-se valentemente contra as vozes detractoras que a acusavam de estimular "padrões impossíveis" de beleza, a querida Barbie (que em meados do início do milénio já tinha aumentado a cintura e reduzido o peito, acabando por ficar mais Skipper do que Barbie) lá cedeu à ditadura da beleza real, à concorrência da trambolha invejosa da Lammily e à febre politicamente correcta da consumidoras.  Isto sem falar nas Barbies My Scene e outros lançamentos da pobre coitada a vestir como uma serigaita, para enfrentar a concorrência das Bratz com meias de rede e colagéneo nos lábios há uns anos atrás. 

HOJE

 Farta de remar contra a maré, de ser odiada pela sua perfeição, a nossa amiga ganhou agora vários tipos de corpo( não necessariamente muito realistas: veja-se que a versão "curvy" tem anca larga mas pouco peito... depois, arrisco dizer que em termos de marketing são um desastre; quem tiver várias bonecas vai ver-se aflita para comprar roupa para todas. Recordam-se de como era tentar enfiar na Barbie vestidos giros, mas feitos para outras marcas?). Além disso, a Mattel  publicitou amplamente os novos tipos de cabelo (o que não percebo como é novidade, já que a Barbie sempre teve amigas com todos os cabelos, etnias e cores...). Já o Ken, como vimos em triste pormenor, passou do seu charmoso tipo de college boy a ser bastante...lingrinhas e ameninado. Só não faz duck face para as selfies porque é um boneco, mas se calhar ainda arranjam forma de conseguir isso. E já há pressão para ele engordar também. God help us all


3- Pinypon
ANOS 80

Aqui entre nós, nunca tive muitos Pinypons: dava prioridade à Barbie, a livros, estojos de médico e lápis Caran D´Ache. Mas uma vez o menino Jesus trouxe-me um conjunto engraçadíssimo de Pinypons tendeiros, com uma carrocinha para vender frutas e flores, e lá fui comprando um por outro para alargar a colecção. Eram baixinhos, bojudinhos, infantis e super amorosos, com olhinhos pretos e inexpressivos, mas de uma maneira fofa. 

Pinypons e Pinyponas, todos vestiam umas jardineirazitas do mais inocente que há. E podíamos trocar-lhes as perucas de plástico, recordam-se? Se não estou em erro, fazendo isso dava para transformar um Pinypon em Pinypona: uma vez carecas, os pinypons não tinham sexo, como os anjos. Era tudo super progressivo e mente aberta mas não como hoje, que na altura ninguém punha maldade ou política em brinquedos nem se maçava com questões de "género".  
HOJE

Pois bem, olhem para os destravados dos Pinypons agora: para já, têm boca e alguns, cabelo à séria. Depois, fazem caretas, com o ar atrevido de criança chica-esperta a precisar de umas boas palmadas. E por fim, os penteados e as indumentárias: cristas, saltos altos, tops curtinhos de sair à noite e mini saias estilo kizomba. A sorte é que os Pinypons continuam rodinhas baixas (também, a marca perdia a  razão de ser...) e quase não têm pernas para mostrar, senão era a desgraça completa. Até há Pinypons namoradeiros. Bonito exemplo.


4- Barriguitas

ANOS 80
Confesso que não brincava com as Barriguitas, mas achava-lhes uma certa graça, principalmente às que cheiravam bem ou tinham cabelo colorido. Também elas eram inocentes, angelicais e bojudinhas. E escusado será dizer que também elas sofreram uma chocante transformação: de ingénuos bebés bochechudos, passaram a serigaitas e valdevinos magrinhos (só não têm um six-pack porque isso dava cabo da marca) maquilhados como travestis em palco e alguns, com um olhar alucinado que mete medo ao susto. 

HOJE


Aqui temos uma contradição: a Barbie engordou para não criar frustrações com um ideal de beleza "perfeita", as Barriguitas emagreceram para - digo eu - combater a obesidade infantil. Lá está, ninguém entende o politicamente correcto. 


5- Polly Pocket

ANOS 80
Foi brinquedo que nunca me encantou - uma espécie de circo de pulgas, mas com bonecas míiiiiinimas. O jingle era mesmo "tão pequena/num anel a poderás levar". Bem, os fabricantes adaptaram-se aos novos tempos fazendo o mesmo que todos os outros: enserigaitando as bonecas. Mas enquanto a Barbie engordou e reduziu o peito, o Pinypon ganhou carinhas e boquinhas e a Barriguita emagreceu, a Polly Pocket entrou naquela máquina do filme "Querida, aumentei o miúdo" e ficou enorme comparada com o que era.

                                      Comparação de tamanho entre a Polly Pocket original e a actual                             
Em altura e em silicone. Será uma Polly-Purse ou uma Polly- Bag e de certeza que é uma Polly Stripper, agora Polly Pocket, faz favor. Para terem uma ideia, até há quem se entretenha a fazer miniaturas da Miley Cyrus com Polly Pockets. Enough said.




No meio deste cenário dantesco, só o Nenuco continua igual a si próprio (se bem que vi umas edições todas anime e maquilhadíssimas há uns tempos, mas devem ter desistido da ideia). 

O mais estranho é que curiosamente - e sabem que "sexismos" não são comigo - os GI Joe, Action Man, Playmobil e outros brinquedos "para meninos" não foram ainda, graças aos céus, contagiados por esta febre. Com a loucura que para aí vai de efeminar os homens para evitar os "estereótipos de género" confesso que tive medo. Mas (por enquanto) os rapazes estão a salvo, por isso concentrem-se nas vossas filhas, que a coisa está preta. Muito preta (creio que ainda posso dizer "a coisa está preta", ou isso ofende alguém? Uma pessoa começa a pisar ovos nem que não queira...).

Saturday, February 27, 2016

E quando as mães acham que é fita, mas não é?




Ontem acabei por me  rir com uma notícia sem graça nenhuma, tudo por causa da forma cómica que algumas pessoas têm de contar desaires aos jornalistas.

 Dezenas de crianças numa escola de Carnaxide ficaram severamente intoxicadas com a comida da cantina- o pandemónio foi tal que além de acorrer o INEM em força, os funcionários se viram obrigados a reunir todos os afectados numa sala de aula para que não andassem para lá aos caídos, a desmaiar pelos cantos- o que também não foi grande ideia porque a divisão acabou transformada na versão moderna dos supostos vomitorium romanos (blhec!).

Claro que os pais acorreram, aflitos, e alguns falaram para as câmaras, barafustando. E uma mãe em particular teve muita graça, ao descrever como o seu filho andava farto de se queixar ai que a comida não presta, aquilo parecem restos, etc, mas ela não tinha feito caso porque achava que o rapaz tinha era fastio, pois sempre fora pisco e niquento à mesa.



Quem nunca refilou com os prodígios culinários de escolas, creches e colégios, que atire a primeira pedra. Eu gostava tão pouco de certas coisas que as boas Irmãs (que honra lhes seja feita, até cozinhavam muito bem) me alcunharam de pastelona

 O belo pudim de peixe, o arroz doce quentinho e a  sopa com couves "da horta da irmã L., tão tenrinhas que até são doces" até marchavam, mas clara de ovo estrelado, não e não mesmo; e quase morri quando me tentaram impingir arroz de cabidela (hoje gosto,mas na altura fui para casa a choramingar que me tinham dado "arroz com vinho"). 



Mas acredito que em muitos casos o cenário tenha piorado desde que passaram a rarear as mal encaradas mas bondosas cozinheiras residentes, gordinhas e de toucas na cabeça, que ralhavam connosco sem cerimónia - até no liceu- se deixássemos o pão ou não comêssemos a sopa toda, cruelmente substituídas por concessões a empresas de distribuição alimentar. Vá-se lá dar à criançada comida processada, requentada, sem sal, sem açúcar e com as calorias calculadas ao milímetro! Antes as mixórdias e as papas dos antigos colégios à inglesa...

Em todo o caso, há detalhes que não mudam: os meus pais nunca engoliram a minha queixa do arroz com vinho, tal como estes agora não quiseram crer que "a comida não presta!" era no sentido literal...criança sofre. Forma o carácter.

Wednesday, December 16, 2015

Assino por baixo (e as memórias dolorosas não me deixam mentir)


Eu não quero pensar no futuro das novas gerações, tanto adoçam a vida e os factos às crianças (menos quando as sobrecarregam de actividades extra curriculares daquelas fúteis, as chamam índigo e ridicularias dessas, as fazem levar uma vida de monge, mas em mau, em frente a ecrãs e não as deixam comer doces nem sal...aí tenho pena delas, que tortura!). Os pequenos da minha geração eram badass. Circulam pela web incontáveis textos nostálgicos sobre o assunto e eu própria já escrevi um aqui, por isso não vou elaborar. Arrumo apenas com meia dúzia de argumentos de peso: reguadas na escola, lamparinas correctivas quando necessário, óleo de fígado de bacalhau à colherada (continuo grande fã, nada ilumina tanto a pele e o cabelo; mas usem-no em cápsulas, que o sofrimento molda o carácter mas não exageremos) mercúrio nos termómetros, mercurocromo nas feridas para andar pintalgado dias a fio (em casa foram mais benevolentes: passaram a usar betadine para essas "feridas de guerra"), e...mertiolato.



O nome "mertiolato" ou "merthiolate" pode parecer estranho na era do politicamente correcto e do ai-Jesus-não-traumatizem-as-flores-de-estufa, mas era todo um ritual darwinista de iniciação, uma autêntica operação de eugenia, uma agogê de meter medo aos espartanos, no melhor modo só os fortes sobrevivem. Ao pé de um frasco daquela mixórdia, o pior bully (no meu tempo eram "rufias") da escola era pêra doce.

Digo-vos já que, tanto quanto sei, nunca ninguém morreu por ser *mal* tratado com esse líquido esverdeado ou rosado, whatever, com cheiro a hospital e que parecia esfolar uma pessoa viva; mas que dava vontade de bater as botas ou desmaiar para acabar com a dor, isso dava.

Que me lembre, só tomei contacto umas duas vezes com tal poção mágica, e uma delas ficou-me gravada a ferros na memória. Era o Dia da Unidade, ou outro evento militar solene, e eu teria uns três anos. Os Oficiais tinham por hábito levar os filhos a essas festas e eu adorava assistir às paradas e observar os cavalheiros nas suas fardas de gala, acompanhados por elegantes senhoras (quem nasce torto, nunca se endireita). Nem protestava perante os longos discursos e refeições que pareciam durar hooooras. Foi uma boa escola.


 Depois deixavam a pequenada andar à solta por ali entre tanques e canhões e eu, sempre traquinas, decidi começar às corridas numa via enorme com casernas, ou garagens, não estou certa, de ambos os lados. Mas ai- os meus sapatinhos de cerimónia não combinavam com o pavimento e escorreguei de cara no chão por ali fora. E o vestidinho de mangas curtas não me protegeu os braços, que foram a primeira coisa a assentar - ou antes, a ir de rojo - no betão ou lá o que era. Zás, fiquei com um braço em carne viva e desatei a choramingar...só um pouco, nunca fui muito piegas.

Levaram-me para a enfermaria e um jovem soldado simpático, julgando decerto que a recruta quanto mais cedo melhor (ou confundindo o frasco de mertiolato com o de água oxigenada, que teria mais lógica usar) aproximou da minha pele um algodão bem embebido naquela porcaria.


Aí é que berrei e chorei a sério. A dor foi tão forte que parecia que me tinham atingido com um taco de baseball na cabeça. Julguei que o coração me ia parar e que ia ter uma coisinha má...sem exagero, foi esse tipo de dor. Não morri. Volto a dizer, acho que ninguém morreu do mertiolato: só se tornou mais forte graças a ele.

Mas embora leis que controlem casos mais graves de bullying possam fazer falta, é inegável que as crianças de hoje são muito fraquinhas...não aguenta mertiolato, não está preparado para enfrentar a selva da vida. Ponto.

Tuesday, October 6, 2015

O comboio do inferno - ou pais mal educados.




Hoje até tinha um post todo bonito na minha cabeça, mas...como lamentavelmente ma encheram com outra coisa (o que resultou numa enxaqueca monumental) lá se foram as minhas encomendas.

Pior do que andar de comboio (ou na CP, vá, que ainda esta manhã me trocou o lugar cuidadosamente escolhido online por um virado ao contrário, e eu que sou uma enjoada...) só estar fechada numa lata de sardinhas com uma criança aos berros e a pontapear-nos a cadeira. Agora imaginem uma criança com uma voz invulgarmente grave aos berros durante duas horas, que mais me parecia estar numa quinta...

 O pequerrucho era um amor,dos seus dois anitos,  lourinho e de bochechas coradas. Parecia um anjo, sem tirar nem pôr. Estava ao colo dos pais, um casal brasileiro ainda novo (em boa verdade, só percebi que eram brasileiros passado um bom bocado, porque eram do tipo de não tugir nem mugir por mais que a criança, desculpem o verbo, balisse desalmadamente). Para ser franca, parecia que viajava um cordeirinho no banco atrás do meu! Não sei se era birra, sono, dores de ouvidos ou de dentes, não interessa; os pequenos, principalmente quando são mesmo pequenos, têm destas coisas que não se controlam e nem sempre é possível ou benéfico deixá-los em casa, entregues a terceiros.

 E claro, qualquer pessoa civilizada é compreensiva com isso.

O que já ultrapassa o razoável é, ao longo de duas horas, repito que não me canso, duas horas que ninguém me devolve, esperar que pessoas que pagaram bem pelo seu bilhete, que estão a tentar aproveitar o tempo da viagem - já que têm de lá estar-  para descansar ou adiantar trabalho, sejam sujeitas a tortura chinesa sem que os pais digam um "shhh" ,um "caladinho", sem que se levantem por um bocado para passear a cria e distrai-la (podem não a calar, mas ao menos enquanto vão de uma carruagem para a outra dividem o mal pelas aldeias) achem isso muito engraçadinho e cuti cuti. Não.

A senhora ao meu lado ainda tentou ser simpática e brincar com ele, "bebé, bebé"...e os pais, nem ai nem ui. Eu querendo mostrar desagrado sem ser malcriada, mexi-me na cadeira, a ver se entendiam. Nada. O senhor mais velho na fila adiante olhava-os descaradamente com ar de poucos amigos- zero! Uma rapariga japonesa  fixava-os com tão má cara como um kamikaze prestes a atacar, fazendo trejeitos com a boca pintada numa cor de ameixa que se via a metros. Rien de rien!

O raça do cachopo - que se chamava Pedro, o Pedrinho, vim a saber - rosnava, 
lamuriava-se, torcia-se, sempre naquela melopeia monocórdica e juro que quando suspirei "Minha Nossa Senhora!" ele interrompeu a gritaria (aí percebi que já falava, portanto entenderia um "fique caladinho!") para desatar a cantarolar "diabo, diabo, diabo". Palavra, não inventei...aí comecei a temer que a criancinha estivesse mesmo possuída. O Exorcista, parte 3: o comboio do Inferno.



Foi então que uma senhora  umas filas adiante pediu discretamente para mudar de lugar (algo que eu estivera até aí hesitante em fazer, até porque a minha vizinha me pedira para lhe guardar as coisas enquanto ia lá à frente carregar o telefone - mas acho que foi treta, só queria sossego). Coitada! Uma senhora com muito bom ar, se a cara dela não estivesse verde e pálida ao mesmo tempo, claramente atacada de enxaqueca. E o revisor, farto já daquilo, não foi de modas nem delicadezas - disse em voz bem alta: 

"Ah, por causa do barulho? Há lugares na outra carruagem, faça favor!".

Só então aqueles malcriados ganharam vergonha  e fizeram o que já deviam ter feito (o pai, porque ela ficou impávida e serena). Lá se levantou como quem pede desculpa a um pé para mexer o outro e foi passear um pouco o pequeno Belzebu ou Satanás ou lá quem era, inclusive para junto de outras crianças que lá estavam. Claro que aí o Pedrinho deixou de estar possesso para ser um garotinho perfeitamente normal.

Para mim, estes casos explicam muita queixa " ai que ter filhos engorda". Pudera! Se não se mexem para impedir sequer que incomodem os outros!

E devia ser gente mesmo incomodativa, do género passivo agressivo, porque quando o comboio abrandou e eu já estava de pé junto à porta para me despachar, trataram de me barrar o caminho com as malas como se eu não estivesse lá. 

Não estive com mais escrúpulos, arredei-lhas para o lado com o pé e passei como se nada fosse...também já era abuso!




Thursday, September 3, 2015

Às armas, ou melhor: ao chinelo!

Eu ainda sou do tempo - e não foi há muito-  em que a mania de ser todo yo!ma man, de fazer de mitra ou de guna ou coisa que o valha, ter muito swag e gingar por aí com os manos e as calças ao fundo dos rins era como o outro. A garotada fazia isso porque ouvia hip hop e queria parecer mazona e durona; uns porque andavam com os putos do bairro a fazer tropelias, outros a fingir que sim porque nem lá tinham nascido, até eram de umas famílias do mais compostinho que se pode, uns betinhos de primeira e não andavam em tais companhias; se apanhassem um dread à séria (não sei se é isso que lhes chamam agora) ficavam cheios de medo e lá lhes caíam as calças aos pés para fugir mais depressa, mas enfim.
Não eram os modos mais cavalheirescos, além de ser coisa de poseur, mas aturava-se. Entretanto (malhas que as redes sociais e as hashtags tecem) começam a chegar-me imagens de meninos que se portam - e tiram selfies - assim:

Uma mistura entre gestos à gangsta, modos "à bairro", todos durões, todos bué da maus, ´tás a ver...e uns modos amaneirados e ameninados. Bracinho estendido e torcido a fazer "V" e beicinho ou duckface. Estilo "sou gangster mas também sou fofinho", ou será mais uma moda estilo beijinho no ombro (blhec)? Uns todos musculados e invariavelmente sem t-shirt a fazer isso, outros magrinhos e meio corcovaditos, mas todos nesses preparos, que não sei se é a imitar o Justin Bieber nem o que significa.


 Já tinha reparado nisto quando escrevi este post sobre a falta de testosterona que para aí anda e o cavaleiro andante dos tampax (que também faz essas caretas) mas entretanto notei que era praga.

 No entanto, posso não conhecer as causas, mas o remédio sei eu: era chinelo e/ ou colégio militar, já.



 Aparecesse um rapaz da minha família nessa figura e não lhe faltaria que fazer: um veja-se-atina-menino ou abre-a-pestana-boy-que-isto-aqui-não-é-um-filme de deixar tudo em pratos limpos.



Era calçado para engraxar, pátios para varrer, louça para lavar, descascar batatas e se calhar cavar o jardim porque já se sabe, um jardim é uma canseira constante e um hobbie adequado a pessoas de bem, além de não haver melhor terapêutica para estas coisas do que, como diz o povo, uma enxada na mão de manhã à noite. Até podia convidar os manos, aproveitar o gingar do swag para dar impulso às pás e aos ancinhos ao som da música. Depois ia fazer caridade, começando por doar aquelas vestimentas horrorosas para serem vendidas para reciclagem a favor de alguma organização solidária e se isso não resolvesse, vai de boot camp, que nada forma um homem nem endireita as costas e cura gingados como a disciplina militar.

 Andam uns portugueses a combater o ISIS e outros armados em maus que fazem beicinho. Gangsta pé-de-salsa. Francamente.


Friday, August 28, 2015

Até tu, Ken?



Entrar numa loja de brinquedos é o mesmo que ir a uma livraria: cada vez se torna menos seguro.

 Ora, não é novidade para ninguém que as desavergonhadas das bonecas vão de mal a pior; até já existem "bonecas trambolho" para nivelar as expectativas por baixo. Mas enfim, o Ken, eterno namorado (ou "homem tofu") da Barbie sempre ia sendo uma instituição.

Mais coisa menos coisa podíamos contar com o rapaz espadaúdo, desempenado, todo betolas, estilo jogador de futebol americano/ universitário da Ivy League.

Era assim que era em tempos que já lá vão...

 Pois bem, eis que hoje me salta ao caminho este lingrinhas: sem ombros, ameninado, com uma roupa que Deus me livre (jeans com gravata? Camisa de manga curta?) de óculos à hipster e cabelinho espetado. Que quisessem inventar um melhor amigo gay para a Barbie, era um sinal do esprit du temps porque agora toda a gente tem de estar representada e ser super aberta em relação à sua vida particular, até personagens da Disney

Mas que efeminem o noivo à pobre Barbie, é mais um sinal daquilo que temos visto: a masculinidade está fora de moda. É suposto as meninas crescerem a admirar princesas agressivas e a sonhar com mocinhos imberbes, homens beta, que não representem a mínima ameaça à supremacia feminina. Algo mais masculino que o Justin Bieber já não está de acordo com os cânones politicamente correctos.

Era só o que me faltava: menina da minha família não vai brincar com este enjoado. Ainda cresci a acreditar que uma rapariga deve sempre parecer mais delicada do que o homem que tem a seu lado, e tudo o que fuja a isso é sinal de casa mal governada.

Tuesday, August 11, 2015

Pais que dizem "deve de ser" e não se portam como deve ser.


O texto é de 1982, mas quase podia ter sido escrito hoje. Talvez agora os casos de miséria sejam, felizmente (apesar da triste crise que por aí vai) mais atenuados. 

Talvez o "deve de ser" não seja, infelizmente, apontado entre aspas como era há 30 e poucos anos; se nessa altura usar o "deve de ser" classificava socialmente mal quem o dizia, hoje vê-se essa desagradável forma de falar (e escrever) até nos jornais.

Pior ainda,  o comportamento descrito no artigo como próprio de um rapazinho com carências de vária ordem... é hoje o prato do dia, muitas vezes entre pequenos cujos pais supostamente evoluíram em comparação com os seus antepassados - pelo menos economicamente. Perde-se a conta aos pequenos malcriados que dão pontapés nos bancos (até na Igreja) que incomodam porque sim, que têm a mania de cantar melopeias irritantes em crescendo, só pelo prazer de dar nas vistas e arreliar quem está, sem que os pais os disciplinem discretamente, ou agarrem neles em silêncio para os distrair por um bocado. Qual! Parecem antes deliciar-se com o seu papel de "educadores" e com a estridência da própria voz...

Provavelmente os pais mais rústicos  fazem-no de forma absolutamente genuína -  recorrem à asneira, gritaria e tapona em público para tentar mostrar que "dão educação", não sonhando que a educação é uma coisa invisível, que se dá entre quatro paredes precisamente para evitar a necessidade de correctivos públicos e humilhantes para eles, para a criança e para quem assiste...nunca percebi se reproduzem em público os mesmos teatros que fazem em casa ou se no seio do lar deixam os miúdos agir como selvagens e só quando há pessoas a ver é que lhes chegam os brios.

Depois há outros, que tentam por tudo disfarçar um background igualmente pouco educado (logo abstêm-se dos palavrões e das lamparinas, além de ralharem mais baixo) mas ainda conseguem ser piores. Puseram aos filhos um nome da moda, a imitar o antigo para encadernar a coisa (provavelmente com um segundo nome lá mais ao seu gosto); exigem ser tratados por doutores e se calhar olham de cima para os primos lá da terrinha, mas o procedimento é mais irritante se possível, porque também não sonham que a educação é uma coisa discreta que acontece em casa e não é palavra que precise de ser usada - ou provada - junto a estranhos.

 Perante a cantilena repetitiva que se vê mesmo que é para chamar a atenção, os guinchos exagerados que furam os tímpanos a quem está, os piparotes no banco do vizinho, são incapazes de levantar o dito cujo da cadeira, acalmar a criança e afastá-la por um bocado; também não se ficam, como pais discretos e embaraçados por uma birra inesperada, por um simples "shhh, caladinho...já vamos embora, etc". Qual! Elevam a voz a fazer um sotaque "culto" muito postiço, e vai de "Martim Daniel, estou-te a avisar; vais ficar de castigo!". Dali a bocado: "Constança Patrícia, vais ver o que te acontece!". Quando não é: " Caetana Susana, páre quieta...coma a sua natinha...já avisei..." e dali a minutos "Caetana Suzana, se não páras quieta e não te portas como «deve de» ser, levas uma carga de po***, m***" (juro que já vi isto). E tal pantomina quinze, vinte, trinta minutos, ou o tempo que uma pessoa aguentar sem zarpar dali para fora com uma enxaqueca...

 Realmente as crianças aprendem pela tríade da referência, do hábito e do exemplo: se os pais se portam como não «deve de ser», esperam que os filhos saibam estar como deve ser?





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