Recomenda-se:

Netscope

Showing posts with label curiosidades. Show all posts
Showing posts with label curiosidades. Show all posts

Saturday, December 19, 2015

O "Benza Deus" e o "Mash´Allah!"




Nunca por nunca ser ouvi a avó elogiar algo de alguém, principalmente uma criança, nem felicitar fosse quem fosse por uma boa notícia, que não se seguisse, acto contínuo, um "benza-o (a) Deus!". 

Se fulano tinha um bonito carro novo, já se sabia: foi uma boa compra, benza-o Deus. Se sicrana tivesse acabado de ser mãe, que lindo bebé, benza-o Deus!; se a filha de beltrano fosse uma rapariga assim guapa, "é muito linda, benza-a Deus!"....e por aí fora.

Não se tratava com isto de "invocar o nome do Senhor em vão", mas de uma forma de delicadeza, a que se misturava um certo medo supersticioso de demonstrar alguma inveja disfarçada (pois muita gente, quando inveja o alheio, trata de elogiar em modo "peçonha e mel") e pior: de deixar escapar, ainda que sem querer, algum tipo de quebranto ou mau olhado que lesasse a pessoa visada. 





Com um "benza Deus" estava feita uma declaração de boa vontade, como quem diz "estou contente por ti e só te desejo o melhor". Vestígios de um tempo em que as pessoas não diziam à vontadinha tudo o que lhes apetecia, sem consideração pelos sentimentos dos outros.

Ora, estando uma pessoa de família nos Emirados Árabes, achou muita graça ao ver que, mostrando aos amigos os retratos de casa, lhe disseram bem dos filhos, não sem adicionar logo um "benza Deus" à sua maneira. Que isto nós até podemos andar zangados com certos muçulmanos, achar que não podem fazer da Europa um califado e que na nossa casa mandamos nós e os convidados que se portem de acordo, mas dos árabes que conheci só tenho bem a dizer...gente generosa ao extremo, de quem -acho eu- os portugueses terão herdado a tradição da hospitalidade...



A crença no mau olhado (e nas várias orações não oficiais visando livrar as pessoas dele, assentes num certo "Catolicismo Popular" mas relativamente bem toleradas mesmo nos tempos da Inquisição por serem inofensivas, apesar de caírem na categoria de folk magic ou crendice supersticiosa) é mais antiga que do que o tempo na  Europa. Os romanos acreditavam nele, mas os judeus - e em particular, os mouros - terão tido forte influência no espalhar dessa ideia que criou raízes profundas na Península Ibérica, Itália e Grécia. Recentemente, ao ler sobre as tradições sicilianas que me são tão caras num blog dedicado ao assunto, achei muito curioso como a tradição cá e lá é praticamente igual. E alguém lembrou que ainda hoje os muçulmanos, além de se defenderem com a "Mão de Fátima" contra tal maleita, têm também o hábito de acrescentar "Mash´Allah!" ("foi a vontade de Deus") quando felicitam alguém. É essa a sua forma de "benza Deus!".



"Que lindo bebé - Mash´Allah!" é como quem diz "que a sua alegria se mantenha" ou "Deus, por Sua Divina vontade, concedeu-lhe esta bênção e o que Ele fez ninguém pode desfazer".  É uma garantia de boas intenções e de desejar que aquilo que é bom ou bonito, assim permaneça. 

Pena é que por cá a cortesia do "benza-te Deus" se vá perdendo, como de resto, se tem desvanecido tanta tradição e o significado espiritual de muitas coisas da nossa cultura...

Friday, January 30, 2015

Voar para o tecto, como "Santa" Cristina


Nunca vos apeteceu, face à maldade/parvalheira/doidice alheia, flutuar sobre tudo aquilo, isolar, voar dali para fora?

Pois na Idade Média existiu uma mulher que fazia isso mesmo: chamaram-lhe  Christina Mirabilis, também conhecida pelo curioso nome Cristina, a Espantosa ou (não oficialmente, já que não chegou de facto a ser beatificada ou canonizada) Santa Cristina, a Incrível.

Cristina nasceu na Bélgica por volta de 1150, era muito piedosa e toda a vida sofreu de ataques e convulsões. Por volta dos 20 anos de idade teve uma crise tão forte que toda a gente a achou clinicamente morta. Preparou-se o enterro e estava a vizinhança em peso no velório quando do nada Cristina, sã como se nada tivesse acontecido, salta tranquilamente do caixão.


 O povo assarapantou-se, e mais espantado ficou quando a jovem desatou a subir, a subir até ao tecto, dizendo que o fedor dos pecados daquela gente toda a incomodava horrivelmente, por isso não podia descer. Só voltou para o chão a instâncias do Padre, explicando então que enquanto estivera morta tinha visto o Inferno, o Purgatório e o Céu, e que lhe fora dado à escolha permanecer no Paraíso ou regressar à Terra para sofrer e fazer penitência pela conversão dos pecadores.


 O relato das suas visões impressionou vivamente a assistência, mas a partir daí Cristina começou a isolar-se de toda a gente, passando muito tempo escondida em buracos ou em cima das árvores, e a fazer sacrifícios ainda mais espantosos. Milagres segundo uns, verdadeiras habilidades de faquir (salvo seja) segundo outros, mas em todo o caso, proezas das quais saía incólume: atirava-se para dentro de fornos incandescentes, dava brados de arrepiar e saía de lá sem um cabelo chamuscado; mergulhava no rio gelado em pleno Inverno e deixava-se estar em oração horas, dias e semanas a fio, sem nunca adoecer; agarrava-se aos moinhos de água, lá ficava às voltas e apesar dos gritos de quem via: "a Cristina vai partir todos os ossos do corpo!" a verdade é que escapava sem uma beliscadura...



 Por qualquer motivo os cães não simpatizavam com ela; costumavam 
persegui-la e mordê-la, mas as feridas saravam instantaneamente.

Por causa de tudo isto, as opiniões dividiam-se; havia quem a  considerasse santa e quem achasse simplesmente que sofria de problemas do foro mental. Esteve internada duas vezes e acabou os seus dias num Mosteiro Dominicano onde, segundo a Prioresa, se portava com grande humildade e obediência apesar do seu comportamento invulgar.


Ainda hoje a vida de Christina Mirabilis é objecto de estudo para os especialistas em espiritualidade das mulheres medievais e vista como uma padroeira dos "lunáticos", sobretudo na sua terra natal.

Se os Santos costumam ser exemplos de nobreza, coragem, honra e abnegação - sejam os seus feitos espectaculares ou mais discretos - Cristina, a espantosa, continua pelo menos a intrigar. E a oferecer uma espectacular metáfora para os dias em que o Inferno são os outros.


Thursday, August 8, 2013

A carteira ideal...é "da Amante".

                                   
Já comentei convosco que tenho alguma reserva quanto a plataformas como o Lookbook. Se por um lado é giro partilhar ideias, por outro há uma pressão para a exposição que não me agrada, e...gabo a paciência de quem se fotografa diariamente, registando ao pormenor todas as suas toilettes. Seria interessante fazê-lo para me lembrar de cada combinação que invento - quando se têm muitas peças, é fácil esquecer aquele coordenado que resultou bem. Muito invejo quem o faz, chegando a criar cartazes para pôr no armário organizando assim, ao milímetro, toda a sua colecção. Mas há sempre aquele dia em que ou não temos tempo, ou a luz está má, ou não há paciência, e por aí fora. 
 Porém, quando se encontra a carteira perfeita, há que registar o momento. E uma das minhas decisões pós-organização-definitiva-do-closet foi a de dar uso às minhas carteiras, o que equivale mais ou menos a decifrar a caverna de Ali Babá e os 40 ladrões! No quartinho das carteiras tinha umas tantas de pele de cobra (antiguidades, comme il faut, pois como tenho dito sou um tanto exigente quanto à qualidade das marroquinarias e actualmente só as marcas de topo vão a certos níveis de detalhe) mas quase todas clutch, ou pouco mais. Andava há anos em busca da "todo o terreno" perfeita com padrão de cobra. Por isso, quando me deparei com esta preciosidade estruturada q.b, mas maleável, de pele macia, com uma cor linda e um  pormenor que as carteiras vintage têm muito mas que agora é tendência - a opção de alça a tiracolo ou "mala de mão" - não resisti. O formato é o da clássica Birkin, e por dentro tem uma excelente arrumação. Comprei-a nova mas pelos meus cálculos será uma relíquia dos anos 80 que ficou perdida na estante da loja. O mais curioso é que já não é o primeiro modelo desta marca portuguesa (com o curioso nome de "Malas Amante") que me chega às mãos, sempre com um requinte do tempo da outra senhora, pormenores sofisticados e materiais que...bem, já não se usam, pelo menos a preços não estratosféricos.  Tentei contactar o fabricante para saber mais, mas não tive sorte (se há coisa que me diverte, é saber a proveniência de certos achados...). 
 Para um passeio, achei que estava mesmo a pedir um visual ladylike (saia solta também vintage, sandálias da Wholesale e uma das mil camisas que literalmente, "andam cá por casa" - tenho-as de todas as marcas à face do planeta e em tudo quanto é cor, porque nunca se sabe o que se consegue inventar com a camisa certa). Mas um bag deste género cai igualmente bem com jeans, emprestando um ar polido à mais casual das fatiotas. 
 Alguém conhece esta très chic marca nacional? Fiquei curiosa, embora dizer por aí "esta é uma carteira Amante" me pareça um tanto ousado. E no entanto, tenho para mim que o nome, bem promovido estrategicamente, era capaz de pegar. Just thinking like a marketeer.


                      
                         

Friday, May 31, 2013

Palavra do dia: achincalhar



                


 a.chin.ca.lhar
  1. ridicularizar; escarnecer; rebaixar, humilhar.

Esta manhã explicaram na rádio a origem deste termo, que não podia vir mais a propósito. Sucede que achincalhar ("enxovalhar" é um sinónimo bastante expressivo) vem do jogo do chinquilho, passatempo das classes mais desfavorecidas. Quem se prestava a jogar ao chinquilho em público, no meio do "povão", rebaixava-se ou seja, achincalhava-se
 Claro que a forma mais comum é empregar-se o verbo para dizer que alguém achincalhou terceiros, mas a fórmula original é muito mais ilustrativa. São mais as pessoas que se achincalham a si próprias, rebaixando-se a comportamentos de vilão, do que aquelas que se atrevem a achincalhar os outros na cara. Ou antes, abundam aquelas que, tentando achincalhar outros, se achincalham a si mesmas. Assim de repente, ocorrem-me várias formas de alguém se achincalhar: a lisonja baixa, a graxa, a bisbilhotice, a sabujice, a adulação, a bajulação (que vai dar ao mesmo, mas sempre me pareceu uma palavra mais forte) o virar de casacas, o mexerico de comadre, a provocação histérica em público que só humilha quem começa, o desespero que não se consegue esconder...o que me leva a concluir que conheço muita gente fã de jogar ao chinquilho. Estou com o povo, e entregue ao povo...ou à bicharada, se quiserem.
 

Friday, May 24, 2013

Confissão fenomenal e inaudita...

                                        

....não contem a ninguém, mas tenho sérios problemas em viver sem post it. O Dr. Spencer Silver (curiosidade do dia, fui googlar de propósito) não sabe o bem que me fez quando inventou estas folhinhas autocolantes e coloridas que me marcam os livros, acrescentam espaço à agenda, me organizam o caderno de trabalho (e só eu sei a quantidade de informação que preciso de ter em ordem ao longo da semana) mantêm a lista de coisas - a -fazer actualizada e até servem para me lembrar dos posts que quero escrever aqui para o Imperatrix. Não é raro lembrar-me de algum tema perto da hora de ir dormir, escrevinhar uns tópicos, colar num dos espelhos do quarto e no dia seguinte, voilà! é só desenvolver a ideia. É isso, e escrever notas (normalmente siglas) nos pulsos. Não fica nenhuma beleza, volta e meia tenho pessoas cuscas a perguntar o que é que lá está anotado (não queriam mais nada, tenho códigos para tudo e mais alguma coisa) mas não falha. Que isto é assim: existem as pessoas que são 100% organizadas, as que são 50% e o resto é esforço (eu, eu, eu) e as outras. Não há que fiar na minha memória: é demasiado preciosa e convém guardar espaço no disco rígido para assuntos não perecíveis.

Sunday, May 5, 2013

"Trovejou, trovejou, mas não caiu uma gota de água"

                                  
Esta expressão chinesa aplica-se a situações que não atam nem desatam, embora pareçam prometer grandes emoções ou resultados; ou àquele tipo de pessoas que espantam mais do que matam, que ladram mais do que mordem (salvo seja) ou que enfim, não se percebe o que querem. São como os garotos que tocam às campainhas e fogem a correr. Uma outra tradução portuguesa seria " a montanha pariu um rato". A frase  também pode ser usada quando alguém barafusta com grande basófia *para não dizer outra coisa* que vai pôr tudo na ordem, que quem manda ali é ela, etc, mas depois se acobarda, deixando-se manipular pelos envolvidos. De resto, há que não esquecer que na cultura chinesa "fazer chuva e vento" ou "o jogo das luas e dos ventos" designa o acto amoroso - por isso, quando se diz isto em relação a uma pessoa, significa que ela saiu uma grande desilusão. Por exemplo, quando há uma química enorme mas depois...enfim, o rendez-vous falha redondamente as expectativas. Ou alguém promete mundos e fundos mas não é capaz de cumprir um décimo, quanto mais ser o melhor do mundo. Não sei quanto a vocês, mas eu tendo a tropeçar em pessoas que trovejam muito, em diferentes sectores. O que é uma maçada, porque eu sempre preferi trovejar pouco e apresentar os "raios" quando ninguém espera. Não sou uma grande fã da antecipação. Antecipar demasiado não causa senão stress e expectativas difíceis de igualar. E esperar seja pelo que for por demasiado tempo, ou prolongar uma guerra por um período longo demais, não traz benefícios a ninguém. Sabem a inquietação que se sente antes de uma tempestade, com toda a electricidade no ar? É exactamente isso.  

Monday, January 7, 2013

Pergunta do dia: viagens no Tempo

                                  
Digo muitas vezes que nasci na era errada. Apesar das aplicações desastrosas que uma descoberta desse cariz pudesse facilitar, eu adoraria que se inventasse uma forma de viajar no tempo. Podem crer que em vez de passar férias noutros países, ia tentar conhecer todas as épocas que me fascinam. Talvez até residisse, temporariamente pelo menos, em algumas delas (levando eventualmente comigo alguns confortos modernos; genial, genial mesmo, era uma máquina do tempo que incluísse uma suite portátil com internet e secadores de cabelo...). Grécia e Roma Antigas, Idade Média, Renascimento italiano, século XVII, época Vitoriana e Belle Époque são os cenários que me ocorrem de imediato, mas há outros e esta semana, quero partilhar convosco o roteiro detalhado: quando, onde, porquê, com quem e não menos importante, em que condições - porque eu não sou menina de viajar no espaço de mochila às costas, quanto mais no tempo. 
 Mas entretanto, quero saber: 

- Se abrisse uma agência de viagens deste género, os meninos e meninas seriam clientes?
- Quais as vossas épocas (e locais/cenários) de eleição?
- Com que figuras históricas gostariam de privar?

Friday, September 14, 2012

Reza brava

                           
O povo português - tal como o espanhol e o italiano - sempre foi muito agarrado à sua fé, a que se misturava, não raras vezes, uma certa dose de superstição, do maravilhoso popular e mesmo das velhas tradições pré-cristãs. Resquícios de crenças pagãs e de ensinamentos mágicos de raiz hebraica ou muçulmana fundiam-se com as práticas da religião oficial - para grande dor de cabeça do Tribunal do Santo Ofício, que procurava obrigar os fiéis, à custa de avisos, multas, ou castigos piores, a abandonar as "diabruras" e "rezas supersticiosas". Debalde: as crendices, magias e rezas misteriosas perduravam no campo, sobreviviam secretamente pelas ruas da cidade, eram sussurradas nos palácios. Os registos da Inquisição portuguesa são uma delícia de ler - e nem sempre os processos acabam assim muito mal, ao contrário do que se pensa. O próprio Rei D.João V teve o seu nome envolvido em processos do género, nas suas aventuras com freiras que por sua vez, recorriam aos serviços de "mulheres de virtude". Muito curiosamente, num deles está rigorosamente explicado " a diabrura não surtiu efeito"(pessoalmente, sempre achei que o senhor dispensava sortilégios e poções...). Nos seus esforços para combater as coisas prejudiciais à fé (e em alguns casos, os burlões profissionais, que sempre houve como há hoje) os responsáveis optavam quase sempre por registar as receitas dos acusados, permitindo que alguns enguirimanços antigos chegassem intactos até nós. Nas aldeias porém, muitas dessas ingénuas práticas nunca se perderam, e foram passadas de geração em geração. É muito curioso, para quem conhece a simbologia por trás das palavras, observar como alguns elementos se mantêm intactos desde a noite dos tempos e como símbolos velhos como os montes continuam a ser usados, embora as "rezadeiras" não tenham a mínima ideia do seu real significado. As benzelhices, benzeduras e rezas bravas davam um estudo em si mesmas, e algumas são bastante cómicas, tanto no propósito como na fraseologia. Deixo-vos uma, simples e transversal, para antes de sair de casa, a atropelar os princípios de perdão do Novo Testamento (que nestas coisas, o povo não brinca em serviço):

                                                    Bons olhos me vejam
                                                    Maus olhos não vejais
                                                    Caia tudo em vós
                                                    O mal que a mim desejais.


Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...