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Friday, September 14, 2018

Remi Gaillard dixit: os animais, essas bestinhas.




Nunca vos contei esta mas sou uma grande fã de Remi Gaillard, o pregador-de-partidas profissional francês com cara de miudito endiabrado.

 A  foliona que vive dentro de mim diverte-se até às lágrimas com os seus apanhados fantasiosos que envolvem super heróis, personagens de videogames e bicharada (talvez porque me lembram as estórias que eu e os meus primos inventávamos sobre as maluqueiras que gostaríamos de fazer, se nos deixassem e se as personagens dos desenhos animados existissem na vida real).

  Só não gosto muito quando ele provoca a polícia em modo chapliniano (quer dizer- acho imensa graça, especialmente quando o agarram,  mas o exemplo é péssimo). Ressalvando o devido respeito pela autoridade e pelas normas de boa sociedade, aqui me confesso: adorava participar numa das suas partidas nonsense só para ver a cara das pessoas.



Entre as minhas rábulas preferidas do vasto repertório deste enfant terrible estão aquelas em que se mascara deste ou daquele bicho para arreliar os incautos que têm a pouca sorte de lhe saltar ao caminho: a do canguru ficou famosa (o rapaz deve ser persona non grata nas imediações de qualquer country club) mas as do morcego, da aranha e da borboleta toda fofinha a ser imobilizada e catada pela bófia deixaram-me com dores de barriga de tanto rir.



O que eu não sabia é que o comediante é realmente um protector incansável dos animais, tendo até criado algumas brincadeiras benévolas para angariar fundos para o canil/veterinário público que o costuma ajudar nas suas versões malvadas das fábulas de La Fontaine (alegoria feita por ele mesmo).

E numa entrevista, explicando o porquê de se fantasiar de vários bichos, Gaillard revelou que  se inspira nos animais porque, tal como ele próprio, eles são uns rebeldes sem filtro:

"Os animais têm uma pureza que falta às pessoas (...)são uns brutos.  É  por isso que lhes chamam "bestas". Estão-se nas tintas para tudo, fazem o que lhes apetece, servem-se como se estivessem na casa deles e mariambam-se para o sistema. Não têm educação nenhuma. São uns mânfios. Os animais são uns gandins".
Ou como diria a minha avozinha, são uns valentes ursos



E bem vistas as coisas, é verdade...quem tem bichos de estimação que o diga! Aqui onde me encontro, cheia de saudades dos meus gatos e do meu cão, já pude comprovar que a teoria se aplica tanto a animalejos domésticos como selvagens.

 Os papagaios silvestres (sim, há muito disso em Londres, um dia mostro imagens do meu jardim se não estão familiarizados com o fenómeno) os esquilos e as raposas que a minha cara metade faz questão de tentar domesticar (um esquilo já vem comer à nossa mão e tudo, imaginem) já me fizeram das suas: uma adorável ninhada de raposinhos fez questão de me entrar pela estufa dentro para me espatifar as galochas preferidas, que eu tinha deixado a secar, e espalhou-me por todo o lado o saco de roupa que estava separado para levar para o contentor, no melhor modo "mas quê? isto não estava aqui para a gente brincar?".


E o pior é que não dá para uma pessoa se zangar com eles. Vai lá uma pessoa discutir com seres irracionais (ou vá, com a mentalidade de uma criancinha) e absolutamente fofos? Aliás, aqui há tempos publiquei um texto em que dizia como ver/ler peripécias de bicharada é das melhores maneiras de dispersar instantaneamente a ansiedade, e entretanto soube de mais algumas que juntei ao repertório de "ursices de bichos que me fazem rir por mais que eu esteja pior que um urso".





1 - Como este urso que invadiu o jacuzzi destas pobres pessoas, esteve, chapinhou, refastelou-se, fez o que quis, enfrascou-se em margaritas e acabou por se deitar a dormir, perdido de bêbedo:



2- Ou este Pequinois insuportavelmente queridinho e felpudo que é um bully de primeira  categoria e faz a vida negra aos outros (eu...não...aguento...tanta...fofinheza junta!):



3- A história deste esquilinho bebé que perseguiu um homem durante imenso tempo até que o cidadão, em pânico (que diabo? porquê?) chamou a polícia. Eventualmente o bicharoco cansou-se de ser stalker e adormeceu num canto, sendo recolhido pela esquadra que o adoptou como sua mascote.



4- Esta família de ursos que se fez de convidada numa piscina desmontável em New Jersey (o que atesta a resistência e durabilidade das piscinas temporárias para quem não pensa investir numa definitiva...muito aguentou a geringonça!).



E de resto, qualquer gif de galináceos a perseguir pessoas ou vice-versa. A minha familia diz que sou um diabrete por me rir disto, mas não consigo evitar:





Como se diz por estas bandas, "Savage!".

Monday, May 23, 2016

Santo Agostinho dixit: tarde te amei, ou carta a um amor quase perdido.



Tenho uma admiração enorme por Santo Agostinho- filósofo, Doutor da Igreja e uma das suas mentes mais brilhantes...mas antes de ganhar juízo, mais pecador do que a pior versão que a tradição, a arte ou a ficção possam pintar de Maria Madalena.

 Agostinho era de tal maneira dissoluto, um libertino de tal ordem, que ter-se tornado numa pessoa íntegra, normal e decente já seria milagre - quanto mais  fazer-se bispo e depois Santo!

  Mas a sua mãe, Santa Mónica, tanto se afligiu, tanto rezou, tantas lágrimas gastou e tantos vestidos terá coçado de joelhos diante do altar em modo turbo de pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e a porta se abrirá (já se sabe como são as mães: nunca desistem) que ele, por volta dos trinta, já cansado de má vida e de se desperdiçar em comportamentos auto-destrutivos, se redimiu e converteu. Santo Agostinho é a prova de que toda a gente pode eventualmente ter remédio, até o pior valdevinos. 


Ora, depois de ver os seus erros e de descobrir a fé, o futuro Santo escreveu uma obra autobiográfica extraordinária, Confissões. E nela, reflectiu sobre amor e arrependimento, falou sobre a sua cegueira, analisou como fora possível andar tão perdido quando tinha a verdade e o bom caminho diante dos olhos. 

O texto, que é lindíssimo, refere-se à descoberta espiritual de Santo Agostinho, mas poderia aplicar-se igualmente a outras situações da vida, nomeadamente ao amor romântico: ao amor perdido (ou quase) à conta de muitos erros, ou a um grande amor que sempre esteve à vista mas quase se deixou escapar. E quando surge ou ressurge, por bom que seja, por muito que nunca seja tarde, parece sempre pouco, parece sempre que se deitou fora tempo precioso, parece sempre "tarde demais" - não para viver a relação em pleno, mas no espírito "já podia ser feliz há tanto tempo!":


"Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe. Mas durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. 

Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos da minha juventude, pus o meu coração em coisas exteriores que só me faziam afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. 

Mas Tu chamaste-me, clamaste por mim e o Teu grito rompeu a minha surdez… 
“Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha-me escondido. Mas Tu arrancaste-me do meu esconderijo e puseste-me diante de mim mesmo, a fim de que eu visse o quão manchado estava”. 


Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. 

Exalaste o Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! 

Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo pela Tua Paz.

E agora, só a Ti amo! Só a Ti sigo! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

 Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, desejei-Te e agora, tenho fome e sede de Ti.

 Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei!"


 Adaptados, estes excertos de Confissões davam uma lindíssima carta de amor e podiam ser a base para muitos votos de casamento. Quantos homens e quantas mulheres, encontrando finalmente o que toda a vida procuraram,  não teriam a dizer isto, sem tirar nem pôr? 

Sunday, May 22, 2016

A titi dixit: boas energias




Não sei que bicho mordeu nas pessoas ultimamente, mas anda para aí uma espiritualidade new age em pó que é atirada a torto e a direito. Nas redes sociais, então nem se fala: das citações do Papa Francisco com conveniências que Sua Santidade nunca disse  citadas por pessoas que acham que cumprir os preceitos da Fé dos seus antepassados é uma seca mas enfim, o Papa é fofo, às coisas mais esotéricas estilo reiki, cristais, unicórnios, frases de gurus estilo Gustavo Santos e afins... o que importa é transmitir muita luz e muito boas energias



Nem vale a pena dizer - falando exclusivamente do ponto de vista snob ou cultural do assunto - que, se na época dos hippies isto era tudo novidade e se há uns dez anos, as religiões e crendices exóticas cingiam-se a um nicho, tinham um certo apelo cool  e eram pintadas/postas em prática com alguma seriedade e erudição, actualmente banalizaram-se tanto como as tatuagens. 



Quando a ala das tupperwares, da venda de batidos e da nail art começa a gostar de certas coisas, é altura de começar a olhá-las com desconfiança- sejam piercings ou tatuagens, sejam sistemas de crenças e terapias. 

A espiritualidade New Age, que nunca foi de fiar para começo de conversa, está, portanto, a empindericar-se (há mesmo uma piada que circula entre os adeptos das ciências ocultas: como se distingue um ocultista de um adepto da New Age? Atiramos os dois à água: o New Age vai ao fundo com tantos cristais). Há a Fé, a Religião, a Espiritualidade (tudo coisas que exigem estudo e compromisso)...e há a versão serigaita e instantânea disso tudo. Fofa, fácil, para inglês ver e atrair o Like em modo "sou o Capitão óbvio, super positivo e boa pessoa. Paz e luz, irmãos!". Mal por mal, antes quem vai a terreiros e faz despachos ou anda para aí a tentar levantar mesas em sessões espíritas à moda da Belle Époque: é mais honesto *e interessante do ponto de vista antropológico*!


 Depois, não conhecêssemos de cor e salteado algumas destas assombrações (a maioria super dada aos folhetins de alcova baratos e às intrigas) até acreditaríamos que com tanta luz e tanta energia andava tudo a alcançar a iluminação. É que usam tanta claridade e tanto brilho na alma (ou dizem que sim) como nas corridas e nas roupas ou nos piercings. Só que não.

Ora, crendo ou descrendo em energias positivas ou negativas, em benzelhices e passes de mágica, o exagero e a pantominice são maus em toda a parte; tal como o estudo sério e um grão de cepticismo razoável cabem em todo o lado.

Quando vejo estas alminhas de Deus que bem precisam de orações a responsar  toda a gente, só me lembra a minha tia Zizi...era bicho do mato e tinha mau feitio, mas não lhe faltava uma certa sensatez própria de quem pensa pela sua cabeça e não vai em modinhas. E vendo ela que a miudagem (nós) andava toda fora de si, a falar em "energias" (por causa dos Cavaleiros do Zodíaco) um dia ralhou-nos forte e feio, dizendo:

"Suas cabeças de vento! Boas energias são as que andam para aí nos postes eléctricos!".

E pensando bem, com tanta luz e energia, já não sei se não haverá mão da EDP no meio disto tudo...






Sunday, May 15, 2016

Mark Twain dixit: o hábito faz *muito* o monge




A Harper's Bazaar recordou neste excelente artigo uma série de citações de grandes vultos da literatura acerca do impacto que a forma de vestir tem na vida de cada um. Afinal, a moda nunca anda isolada das correntes literárias, artísticas, políticas, económicas ou sociais: é antes um reflexo disso tudo. Se assim não fosse, ainda usaríamos anquinhas, espartilhos e pesados saiotes, o que seria encantador mas pouco prático para trabalhar todas as manhãs. A selecção de frases foi bastante feliz (não falta uma das melhores de Oscar Wilde: "se é para fazer disparates, mais vale estar apropriadamente vestido") mas destaca-se Mark Twain, que acreditava realmente que "as roupas fazem o homem; pessoas nuas têm pouca ou nenhuma influência na sociedade" (Kim Kardashian discordaria, mas vamos ignorar tais filosofias).  O criador de Tom Sawyer desenvolveu mais esta ideia num polémico texto de 1905, "The Czar's Soliloquy":

" Um polícia em roupas comuns é um homem; de uniforme, vale por dez. Roupas e título são a coisa mais potente, a influência mais formidável na terra. Movem a humanidade ao respeito voluntário e espontâneo pelo juiz, o general, o almirante, o bispo, o embaixador, o conde frívolo, o duque idiota, o sultão, o rei, o imperador. Nenhum cargo impressionante é eficiente sem trajes que o suportem".


E goste-se ou não disso, seja ou não justo, é verdade. É claro que há pessoas com meios e arcabouço psicológico para se estarem nas tintas para a imagem que passam sem se prejudicarem com isso, como o Duque de Norfolk, que adoptava a filosofia "não gostas da minha roupa? Paciência, olha que ninguém me dá outra"; isso é mesmo um snobismo elegante, um cúmulo do desprezo  chic, mas só para quem pode: a maioria não tem essa sorte. 

Por mais que se diga que "roupa não faz o carácter" (eu a essa respondo sempre que o carácter é que faz a roupa) é mais conveniente que uma pessoa se vista como quem é (ou como quem gostaria de ser) do que andar por aí a passar por algo que não lhe convenha. É um facto que as pessoas são tratadas de acordo com o "boneco" que anunciam ao mundo. Se um homem honesto se veste como um rufia, pode ser confundido com um. Se uma boa rapariga traja como uma stripper só para ir atrás das outras, pode ser tratada de acordo mesmo que tenha uma conduta de monja. 

Quem gosta de se apresentar com desleixo, não pode levar a mal se o (a) olharem com alguma desconfiança. Tudo isto é simbólico, mas poderoso; somos treinados de pequenos para fazer associações de ideias; é um reflexo ancestral de auto-preservação, afastar-se daquilo que não parece confiável; é assim que nos situamos, mesmo os menos fúteis dispostos a ver para além da primeira impressão. Bem dizem os teóricos do marketing que a imagem pessoal é das poucas coisas que dependem somente do domínio de cada um, logo não convém abrir mão de tal poder para o entregar a terceiros que tiram as suas próprias conclusões. Lá volto a Oscar Wilde: só as pessoas muito superficiais não julgam pelas aparências. Superficiais no sentido de não saberem o que é bom para elas, entenda-se...

Saturday, May 7, 2016

Coldplay dixit: You came to rain a flood


Talvez porque não tem parado de chover - e o céu parece determinado a continuar enquanto lhe der na gana - Hymn for the Weekend*, a nova canção dos Coldplay que pesquei por aí na rádio (e que conta com uma Beyoncé num registo irreconhecível mas bem bonito) não me sai da cabeça. 


Tenho uma relação estranha com a música de Chris Martin e a sua banda: às vezes
 deixa-me capaz de dormir em pé, mas do nada sai-se com temas cheios de significado, como Princess of China, Paradise ou See it in a boy´s eyes, que o cantor/compositor inglês escreveu para Jamelia.

 Hymn for the Weekend é uma canção de amor alegre, mas agridoce e com um ritmo quase marcial: tão boa e melancólica como uma canção de amor triste. 


When I was down, when I was hurt
You came to lift me up

Life is a drink, and love's a drug
When I was a river dried up
You came to rain a flood

 Parece confuso? Eu sempre achei que as canções de amor angustiadas, com histórias tristes, são mais conseguidas e menos superficiais. Por algum motivo, é muito difícil cantar sobre um romance quando corre tudo bem. Talvez porque na fase linda as pessoas estão demasiado envolvidas (e tolas) para se sentarem a escrever poemas e a arrancar melodias do peito. É nos momentos maus (sejam ou não definitivos), quando a roda pára de girar, que se olha para trás, que se faz uma análise e que a ideias fluem à laia de desabafo. 


Mas Hymn for the Weekend escapa a esta regra. Consegue transmitir o que se sente quando um amor é bom e saudável, daqueles que fazem com que as canções de romance falhado deixem de fazer sentido. Mas não deixa de ser agridoce, porque até o amor feliz é dor que desatina sem doer.
Afinal, os apaixonados emocionam-se com facilidade, à menor tonteria. Um simples "até logo" é um aperto no peito, umas palavras romanescas ou uma discussão mais acalorada levam às lágrimas, e todas essas delicadezas, esses luxos do sentimento em modo "todas as cartas de amor são ridículas".
 Mesmo no caso de paixões como esta que os Coldplay descrevem, que vêm curar como um bálsamo, causar a euforia de um vinho forte e vivificar como uma inundação benfazeja.


*O vídeo passa-se na misteriosa Índia, e alude ao festival religioso de onde se copiou a ideia para as colour runs da vida. Seria mais giro antes de tirarem o significado à coisa e desatarem a atirar tinta uns aos outros porque sim, mas pronto.







Friday, May 6, 2016

John Cleese e Nuno Markl dixit: o planeta dos melindres


O  lendário elemento dos Monty Python  afirmou há tempos, no vídeo que podem ver abaixo: "Não subscrevo a ideia de que temos de ser protegidos contra todo e qualquer tipo de desconforto".

É por isso que Cleese (como outros comediantes famosos de que já aqui falámos, aliás) se recusa a actuar em campus universitários, pois "a ideia do politicamente correcto (que era inicialmente evitar o mau gosto e a maldade) passou a condenar como cruel qualquer tipo de crítica a qualquer grupo específico. Mas toda a comédia é crítica, por muito inclusiva que uma piada seja".

E depois comparou este estado de coisas a uma paranóia orweliana generalizada , a um verdadeiro "1984" em que não se pode dizer nada nem brincar com nada. Fico mesmo vaidosa de um dos meus comediantes favoritos reflectir no mesmo que eu, que já várias vezes comentei convosco como vivemos a época maluca do "crime pensar". Then again, acho que não posso orgulhar-me de tal raciocínio que nada tem , ou deveria ter, de raro; não se trata de great minds think alike; trata-se de esta ser a única perspectiva que ocorreria a uma pessoa normal, não anestesiada pelo status quo dos media e dotada de senso comum.



É curioso: os mesmos intelectuais e artistas da esquerda caviar, ou de uma certa facção "liberal" (for whatever that means) que defendem a "arte" feia ou chocante, as performances obscenas, ofensivas e  de mau gosto e as imagens de uma suposta "beleza real"  demasiado crua, são os mesmos que levantam, indignadíssimos, a bandeira do melindre e do "ofendedismo" à mínima coisa.

Também por cá, Nuno Markl expôs o assunto de forma bastante lúcida neste texto, em que aponta o ridículo de um champô para a queda de cabelo, que já existe há anos, chamado "contra cabelo suicida" ter sido retirado assim que algum vidrinho ofendido se lembrou de levantar a lebre nas redes sociais.

Diz Markl: "(...)de há uns anos para cá, a sede de muita gente de colocar muros à volta do que provoca desconforto – na vã esperança que esconder acabe por significar o mesmo que não existir – torna o mundo um lugar mais triste. É uma polémica típica desta era de fusão explosiva (e perigosa) entre o politicamente correcto exacerbado e a propensão das redes sociais para o linchamento aleatório em massa. As ondas de linchamento tornaram-se tão comuns que acabam por retirar força às causas que genuinamente merecem que se grite contra elas.

De repente, tudo é passível de ser entendido como um atentado, como uma ofensa. Cada dia há um novo linchamento em massa levado a cabo por pessoas que tanto ficam transtornadas com o que é importante como com o que é acessório. Ou com o que é absolutamente inofensivo".


Chega a ser curioso que as pessoas que se dedicam a fazer humor sejam das poucas dotadas de sensatez para estas coisas. Mundinho disparatado em que estamos... e toda a gente acha normal. Às vezes sinto-me como a Alice no País das Maravilhas, a tentar encontrar sentido numa terra de doidos.

Saturday, April 30, 2016

A Ursa dixit: abaixo o artesanato infantil no Dia da Mãe


Vá lá, este guarda jóias feito de uma garrafa até ficou decente.


Num blog que aprecio muito mas que nem sempre acompanho como gostaria, vi hoje esta pérola sobre os presentes (quase sempre inúteis, medonhos e eco-friendly) que a pequenada é obrigada a fazer no colégio para oferecer à mãe no seu dia. E que educadoras e professoras são obrigadas por ordens superiores a obrigar os pequenos a fazer. E que as mães são obrigadas, por sua vez, a fingir que adoram. 


Tenho para mim que há qualquer poderosíssima seita pró-reciclagem, pró-trabalho infantil e pequeno-burguesa  por trás disto tudo, a obrigar toda a gente, à espera de reunir as mães em êxtase para as enfiar numa nave espacial que as largue em qualquer reunião de Bimby e Tupperware. Só assim se explica que um hábito que pelos vistos não faz ninguém feliz- nem mães, nem pequenada, nem educadoras- se perpetue ano após ano. Mas passo a citar:

"Estamos fartas (...) de eco-aproveitamentos que resultam em presentes feios como uma noite escura. Já estamos enjoadas de pulseiras feitas de massa fimo, bijuteria com desenhos feitos por eles e que nunca usaremos para sair à rua nem que o Diabo tussa. Não queremos mais telas pintadas com pincéis grossos e tintas com cores que não combinam entre si porque as nossas salas já estão demasiado desarrumadas todos os dias para ainda nos podermos dar ao luxo de pespegar monos desses nas paredes. Abaixo os trambolhos! Mesmo que sejam eco-trambolhos! Mesmo que sejam trambolhos feitos com amor e carinho". 


Isto foi catártico de ler, porque durante mais de duas décadas julguei que eu era a única que embirrava com tais prodígios artísticos  e que entre tantas mães babadas, só a minha via com olhos de ver a pinderiquice daquilo tudo (não seria de estranhar, já que como sabem sou por natureza embirrenta com estas patetices que toda a gente acha lindo ou finge que acha e isso não começou ontem). Afinal diz que não e que as próprias educadoras se sentem coagidas a fazer trambolhos. E coitadas, já se sabe que não é só no Dia da Mãe: é no Dia do Pai, na Páscoa e no Natal...sendo que raramente as peças de artesanato urbano ou artesanato reciclado deixam de se parecer com lixo. 


 Mas viajemos um pouco no tempo. A pequena Sissi nunca morreu de amores por trabalhos manuais. Nem a Sissi crescida, de resto. Juro que tive um emprego que incluiu algumas actividades dessas com criançada e eu odiava apaixonadamente essa parte das minhas funções. Conseguia ser pior que os miúdos, principalmente quando a brincadeira envolvia colar coisas ao ar livre (cola e vento NÃO combinam).


 Felizmente sou boa no facepainting e lá implorava que me deixassem estar sentada num banquinho a dar uso às cores berrantes que uma mulher tem sempre na arca da maquilhagem mas raramente gasta, fazendo peixinhos, homens-aranha, flores e borboletas naquelas carinhas. Eu ficava feliz e aliviada, as crianças deliravam, os pais elogiavam e problema resolvido, que ao menos o face painting sai com água e sabão e não deixa monos em casa. Divago, desculpem, voltemos à minha infância. Eu, repito, tinha zero jeito para artesanato, principalmente se envolvesse tudo o que cheirasse a origami, colagens, tricot ou picotado. Só a recordação me arrepia. 


Felizmente para mim, as freirinhas eram mulheres cheias de espírito prático que quase sempre nos ensinavam a fazer presentes comestíveis: nunca me esqueci de umas trufas de chocolate embrulhadas num simples cartucho que voaram num instante. Tenho uma pena imensa de não me lembrar da receita, porque eram de comer e chorar por mais. Trufas papadas, cartucho no lixo que nessa altura não havia cá eco-escolas nem eco-ponto, acabou-se a papa doce e quem comeu regalou-se, vitória vitória acabou-se o mono, ficou só o amor e o carinho.



Quando não fazíamos presentes-petisco, simplificava-se: num Dia do Pai ocorreu às queridas freiras-que-pareceriam-saídas-do-Música-no-Coração  ir apanhar calhaus para fazer pisa-papéis (agora, na era do politicamente correcto, as boas Irmãs arriscavam-se a ir presas por darem armas às crianças, mas felizmente ninguém se lembrou de andar à pedrada). Depois deram-nos daquelas latitas pequenininhas de tinta com cores fantásticas E METALIZADAS e vai de soltar a criatividade. Foi uma alegria e o Senhor Pai levou o pisa papéis dourado e prateado com pintas coloridas para mostrar na Messe de Oficiais (disse ele, vá). 

Depois o meu trambolho bonitinho, feito com amor e carinho, lá foi todo pimpão exercer as suas funções de pedregulho a segurar papeladas do Ministério da Defesa. Ali ficou uns anos, todo importante, e creio que ainda tem lugar algures em casa pater. Nada mau para um calhau.


Também me lembro de uns ovos da Páscoa giríssimos que a turma do 3º ano fez (nisso não participei, mas tive pena). Eram engraçadíssimos, com  trancinhas, chapeuzinhos e bigodes, um amor. Em grupo ficavam lindos, mas não tiveram oportunidade de se tornarem monos em casa dos seus autores: a L., a bully da minha turma, desinquietou outras cúmplices e tratou de dar cabo deles, o que valeu um julgamento sumário que levou a tarde toda para apurar os criminosos e terminou com uma sessão de reguada que mais parecia um auto-de-fé. Nesse tempo as prioridades eram outras; ninguém se metia com os ovos da Páscoa, nem que isso implicasse substituir as contas e os ditados por um tribunal improvisado com pelourinho e tudo.


Depois, vamos a isso do amor e do carinho: insisto que não os há em doses suficientes para dar a volta a más ideias. Quando quiseram fazer um guarda jóias de uma embalagem de margarina, forrado a veludo e debruado a dourado assim à barroca, admirei-me com a minha habilidade (outra brilhante sugestão das Irmãs, que além de bom gosto realmente deviam ter uma grande cunha junto dos anjos para me obrigarem a fazer alguma coisa com jeito).  

Mas quando a minha professora do 3º ano se lembrou de nos pôr a enrolar um suporte de panelas em corda - ideia que hoje seria taxada de sexista, era limpinho - valeu-me ter sempre um presente comprado de reserva (sempre fiz isso; era pequena mas sabia perfeitamente que as obras de arte feitas na escola tinham um valor simbólico, porque valor artístico está quieto; é no que dá ser filha de professora de Arte). 



Aquilo não se colava de jeito nenhum e no fim o meu suporte, que era suposto ficar igual àqueles que se compram em qualquer feira mas às cores, saiu incompleto e tão torto que não havia nada a fazer. E a mãe, que nunca foi senhora de fingimentos nem de palmadinhas nas costas, ralhou-me não pela grande falta que o trambolho lhe fazia, mas por eu ser despistada como sempre e não acabar o trabalho.

Ainda assim, acho que preferiu a caixa de maquilhagem com todas as cores de sombra, blush e tudo que lhe comprei. Era bem gira. Creio que acabou por ficar para mim, mas o que conta é a intenção, ou não se continuariam a impingir às mães colares de macarrão e molduras em celofane.


Wednesday, April 27, 2016

Deadpool dixit: sexista ou não sexista, eis a questão




Depois de os cavalheiros cá do burgo muito me arreliarem para ver Deadpool, eu lá cedi. Tenho com os filmes de super-heróis a mesma relação que tenho com certos petiscos: não aprecio por ali além, mas também não torço o nariz. E afinal até gostei. Tem a lindíssima Morena Baccarin que parece uma Mona Lisa do sec. XXI mas mais bonita e como seria de esperar, o sarcasmo do anti-herói não me desagradou nada...

Só não achei piada darem à vilã Angel Dust (interpretada pela lutadora Gina Carano, que é bem engraçadinha na vida real) um visual de serigaita de ginásio, brutamontes que parece um troll, com aquele bâton clarinho, eyeliner a afundar os olhos e cabelo preto graxa puxado para trás- blhec. 





Não vale a pena dizerem "oh Sissi, mas a personagem também tem cabelo preto na banda desenhada". Há preto normal e preto graxa, não é a mesma coisa. A pobre coitada ficou com um mau ar que dói, mas adiante. 

Uma das cenas que mais gostei é quando o protagonista, na sua jornada de vingança, desata a bater forte e feio em quem for preciso até lhe dizerem onde encontrar o 
arqui-inimigo que o desfigurou. E pelo caminho, isso inclui duas mulheres. Ora, como Deadpool não podia ser mais politicamente incorrecto, assenta uma bolachada numa delas, mas pede logo desculpa a seguir, todo aflito (apesar de desbocado e violento, no fundo não é má pessoa) e meio a sério, meio a troçar, leva as mãos à cabeça e pergunta baralhadíssimo: desculpe! Isto é tão confuso! É mais sexista se lhe bater ou se não lhe bater???

E a brincar a brincar, assim o filme dá a sua alfinetada aos exageros estilo Cartão de Cidadão que têm andado na ordem do dia. É que, por amor de Deus: noutros tempos caía mal um homem espancar uma mulher. Havia respeito pelas diferenças e cavalheirismo em vez de uma igualdade chapa-4, a todo o custo. Um homem que desse tareia num ser mais frágil - e isto obviamente incluía as mulheres- era um cobarde. Mas agora, nem tanto. Afinal, há igualdade, não é? Claro que vai tudo aos arames com a violência doméstica (e ainda bem) mas por outro lado, se o super-herói dissesse "numa menina não se bate nem com uma flor" se calhar ainda lhe respondiam "seu porco sexista, está a reduzir-me ao meu género? Julga que sou alguma donzela indefesa? Não me trata como igual porque se eu fosse homem, batia-me...uma mulher é tão capaz de levar pancada como um homem. E além de mulheres, também não bate em gays? Travestis? Seu machista homofóbico! DISCRIMINAÇÃO!!!!" etc, etc, a cassete do costume.

O mundo tornou-se tão esquisito, Credo.


Wednesday, April 13, 2016

S.João Crisóstomo dixit: mais vale pouco, mas de qualidade.


Dirigindo-se aos fiéis para os alertar quanto ao mau comportamento dentro da Igreja, S.João Crisóstomo (para quem tais faltas de respeito mereciam um raio, pois nesse tempo nem os Santos tinham papas na língua) dizia o seguinte:

 "De que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham.
O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio."


 A homilia deste Doutor da Igreja conhecido pela sua eloquência extraordinária (Crisóstomo significa "boca de ouro") aplica-se hoje mais do que nunca no contexto religioso: há quem diga que a Igreja não perde fiéis, perde infiéis. Mas podemos considerar as suas palavras num sentido mais abrangente.

Quantidade sem qualidade de nada vale. E em certos casos, a quantidade per se é mesmo perniciosa. Há quem se lamente por perder amigos: mas amigos falsos, ambíguos, invejosos, desleais ou que jogam com pau de dois bicos, são como os fregueses de más contas que compram fiado: mais vale perdê-los do que tê-los. Lá está, marinheiros que afundam o barco não fazem falta nenhuma...

De igual modo, as mulheres em geral gostam de ter muita roupa: algumas até fingem envergonhar-se disso, mas secretamente orgulham-se do seu armário a rebentar pelas costuras. No entanto, não só a quantidade exagerada desorganiza (todas já sofremos disso uma vez ou outra) como na maioria dos casos, o conteúdo do guarda roupa não vale um caracol. De poliéster a coisa contrafeitas, disso se compõe a "colecção" de muita gente. Acumular muita roupa e sapatos, mas de qualidade inferior, é o mesmo que não ter nada que preste para usar. É andar feita boneca de feira. Roupa má presta o mesmo serviço dos soldados que só assarapantam as tropas.



E nem falemos nos homens promíscuos que se gabam aos amigos das suas muitas "conquistas": quem escolhe pouco, quem não selecciona, quem vive pelo ditado "tudo o que vem à rede é peixe" não acerta uma. Julgam-se assim uns playboys, mas não só perdem a dignidade, relacionando-se com mulheres de meter dó (quer na moral quer no que diz respeito à beleza - pois só as desesperadas cedem a tais esquemas) como ganham uma reputação capaz de afastar qualquer rapariga séria e ainda se arriscam a acabar presos a uma serigaita espertalhona que lhes faça a vida num inferno. E no fim da lista, quantas conquistas valeram a pena? Ainda que falando só no sentido mais superficial, é mais impressionante conquistar uma só beldade do que de muitas marafonas banais. Um punhado de diamantes vale mais que uma tonelada de palha.

  No feminino isso também acontece: há mulheres vaidosas e inseguras que adoram alimentar pretendentes e admiradores. Sentem-se poderosas por receberem atenção, mesmo que seja atenção negativa, expõem-se quanto podem, vão para a rua vestidas como a Beynocé entra em palco, dão troco a tutti quanti; cada like nas redes sociais contribui para a sua duvidosa coroa de glória, cada elogio meloso lhes infla o ego. Mas um convite para jantar ou pedido de namoro do homem de quem realmente gostam perturbá-las-ia mais do que todos os comentários juntos. Momento que dificilmente aparecerá, pois a sua forma de estar não proporciona que a levem a sério. Antes um soldado valente só, do que muitos em debandada. Ou neste caso, à distância segura de quem vê um estafermo numa montra, pensando "faz vista, mas não me serve".

E até na cultura isto se vê: há quem adore mostrar que sabe de tudo, pôr colherada em tudo, opinar sobre tudo, tocar quantos pianos há, sem se dedicar realmente a nada, sem aprofundar nada. Ter cultura geral e ser multifacetado é muito bonito e recomendável, mas há que evitar ser um diletante, um espalha brasas, um chico esperto que fala de tudo sem ter conhecimento de causa no que quer que seja. Voltamos ao feno e à palha...

Em toda as coisas, menos pode ser mais. E é-o quase sempre...



de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
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de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
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de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
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Thursday, April 7, 2016

Santa Teresinha dixit: antes carregar que arrastar


 "A cruz que se arrasta é mais pesada do que a cruz que se carrega".

 Santa Teresinha de Lisieux

   Santa Teresinha era uma alma perfeitíssima que se considerava a mais pequena de todas. O mesmo acontece com esta sua frase. A quem não compreende, a ideia popular que se tem de "carregar com a sua Cruz" parece uma atitude derrotista, que casa mal com a moldura mental "poderosa" que está agora na moda. No entanto, se meditarmos bem sobre isso, não só há um grande poder em deixar-se guiar, em seguir a corrente, no "seja feita a vontade do Céu" (ou do destino/da vida, para quem não acredita em céu) como carregar uma cruz em vez de a arrastar - ou de fugir dela- é um acto de extrema coragem

Não sei se já vos aconteceu, mas por vezes há questões que por mais voltas que se dê, por mais malabarismos que se faça, por muito que se reze, se proteste, se esperneie...parecem estar ali de pedra e cal. Não se consegue escapar delas. Nem contorná-las. Para quem é Católico, parece realmente uma cruz. Para quem acredita noutras coisas, soa a karma. E os adeptos de certas correntes da Psicologia 
chamar-lhe-iam um padrão ou coisa semelhante.

Quando é assim, as tentativas falhadas de dar a volta à questão provam que não há outro remédio senão enfrentá-la, encará-la de frente, respirar fundo e deitar mãos à obra, em modo "quanto mais depressa fizer a vontade ao Universo, mais depressa ele me deixa em paz". Para carregar a cruz é preciso fazer como o toureiro, que apenas volta as costas ao touro depois de saber que já o dominou. Tomar impulso, colocar o madeiro ao ombro com um "upa" e levá-la monte acima com a mesma boa vontade que se emprega no ginásio, quando um exercício é pesado ou doloroso. E passo a passo, há-de chegar-se a algum lado. Sempre há-de ser mais depressa do que arrastar-se com um espírito amargo de revolta, a levar chicotadas da vida para deixar de ser teimoso....

Se algo nos persegue, por algum motivo é: e fugir do "monstro" em vez de parar e perguntar-lhe o que quer de nós é receita certa para andar sempre a monte, arrastando o peso do mundo nos ombros...se um desafio se apresenta insistentemente, repetidamente, há um mistério a descobrir ou arestas a limar. É preciso passar o calvário para polir o diamante em bruto.

Como em tudo na vida, quanto mais dificuldades algo apresenta, mais rigoroso deve ser o treino para as vencer. Ou como vi há dias, numa citação siciliana que não podia ter menos a ver com a bondade de Santa Teresinha, "uma lâmina deve ser afiada onde menos corta".




Monday, March 14, 2016

Susan Sontag dixit: os "antes" e os "depois"




Num documentário da National Geographic que conta a história de Anne Frank sob uma série de ângulos que eu ainda não tinha visto explorados, citou-se a impressão da escritora Susan Sontag quando, aos 12 anos, viu imagens dos horrores de Bergen-Belsen:

"Nada do que eu vira até ali me ferira tão profundamente. Parece plausível dividir a minha vida em duas partes: o antes e o depois, embora levasse vários anos a compreender o que tinha visto. Quando olhei para aquilo, algo se quebrou; algum limite tinha sido atingido. Senti-me irrevogavelmente magoada, ferida, mas uma parte dos meus sentimentos começou a contrair-se; algo morreu; e algo dentro de mim continua a chorar desde então".

Qualquer ser humano tem uma série de momentos "antes e depois" ao longo da vida. São perdas de inocência, lições, quebras de ingenuidade, mágoas profundas, cicatrizes que nunca saram e que sabe-se lá que efeito borboleta desencadeiam na alma e no destino de cada um; outras servem de "wake up calls" ou, como diz o povo, de "abre olhos".

 Nem todos esses momentos, revelações. acontecimentos, imagens, palavras ou instantes que mudam uma pessoa e que assombram para sempre são necessariamente trágicos (também os há felizes, cómicos, nostálgicos ou no mínimo, agridoces).


 Nem todos acontecerão na infância ou primeira juventude, embora seja certo que quanto mais cedo, maior a possibilidade de o impacto ser grande ou a cura - se caso disso - mais difícil de descobrir. E em última análise, a maioria destes momentos impactantes é relevante para a história pessoal de cada um, mas não é tão comum andar de mão dada com um instante crucial da História da Humanidade. Quando acontece - caso de famílias separadas durante o Holocausto ou de um casal que se perdeu no Titanic ou no  Terremoto de 1755 - deixam de pertencer apenas à esfera íntima para se entrelaçarem num drama mais alargado, de interesse científico, com cunho testemunhal, mas não obrigatoriamente mais pungente para quem o viveu.

De todo o modo,  são fronteiras que nunca se ultrapassam por completo, linhas que separam áreas do coração e da mente que jamais se desvanecem de todo. A  memória tem infinitos truques, nuances e avenidas. Dos "antes e depois" aos "se ao menos...", passando pelos "what if?", pelos "sorry ever after" e pela angústia de comparar possibilidades (afinal, "tragédia é sempre a medida entre o que foi e o que poderia ter sido"). E tem o poder de continuar a fazer chorar - ou a rir - toda vida por algo que já lá vai noutro tempo, quase noutro plano da existência. 

Por muito que se goste de Museus, memórias e retratos às vezes não são mais que armazéns de material emocional altamente inflamável. 


Wednesday, March 9, 2016

Rui Reininho dixit#2: efectivamente, gosto de aparência


Não é bruxaria, mas adivinha muita coisa.



Efectivamente gosto de aparência
Aparentemente sem moralizar
Aparentemente escuto as conversas
Efectivamente sem moralizar

Sempre adorei esta canção dos GNR e não consigo ouvi-la sem me recordar da minha professora da Primeira Classe....

É que eu - habituada a cavalar pela quinta com os meus primos monte acima monte abaixo e à complacência das freiras do infantário- ainda me estava a acostumar à disciplina da sala de aula. E um dia, distraída a fazer uma tarefa qualquer (provavelmente o picotado, que eu abominava com paixão...) esqueci-me de onde estava e desatei a cantarolar muito determinada: adoro as pulgas dos cães/e todos os bichos do mato/o sorriso das crianças dos outros/cágados de pernas p´ró ar... (achava graça à letra e comecei a cantar antes de saber andar- old habits die hard!).

Fez-se um silêncio enoooorme...levantei a cabeça e dei com toda a criançada a fixar-me como quem diz "esta é maluca". Capaz de me sumir pelo chão, virei-me a medo para a Professora Isabel, que eu adorava, e lá estava ela, olhando-me muito divertida com o seu bom sorriso:

- Continua, que eu gosto muito desta canção!




E lá cantei as pulgas dos cães, os bichos do mato e os cágados. A parte que não era própria para crianças ficou salvaguardada porque eu não sabia as rimas todas e assim como assim pensava que "engatar" era "enganar" (por outro lado, não deixa de haver uma certa verdade nisso).

Os anos passaram e continuo a gostar muito de ouvir Efectivamente, principalmente a última parte: na na na na, efectivamente - gosto de aparência, etc. Não só porque se calhar tenho preferências bem definidas, mas porque lá dizia Oscar Wilde, só as pessoas muito superficiais não julgam pelas aparências. Ou apenas pelas ditas cujas, vá. Se as soubermos analisar sem generalizar demasiado e ouvir as conversas duas vezes mas responder só uma aprende-se muitíssimo, captam-se muitas subtilezas úteis, faz-se um profiling tão bom como os do FBI e com esse pequeno hábito de Sherlock Holmes, poupam-se imensas arrelias. Mais cágado menos cágado, o poema é exacto. E a fórmula é útil até para o maior bicho do mato...

Sunday, February 7, 2016

Apuleius dixit: mulheres, cuidado com a tesoura



Há dias estávamos cá em casa a ver os episódios mais recentes de Big Bang Theory e comentámos como Kaley Cuoco, a adorável Penny, perdeu imenso ao ter cortado as suas madeixas. É que há mulheres que ficam bem de cabelo bastante curto - não só lhes dá um ar mais sofisticado como lhes acentua os traços - mas sempre tive para mim que há poucas que fiquem melhor assim. São mais as que apenas escapam com isso sem estragar a beleza toda. 



Atenção-  é verdade  que mulheres realmente belas não precisam de se esconder atrás de um cabelão (recurso imediato de algumas raparigas vistosas, mas de traços grosseiros e gosto duvidoso).

 Mas não deixa de haver algo de mágico, de eterno feminino, num cabelo longo q.b. e bem tratado, penteado adequadamente sem exageros, brilhante, sedoso, aveludado, da sua cor e textura naturais ou se, avivado ou transformado por qualquer artifício, tão perfeitamente cuidado que tal não se note em raízes crescidas, pontas espigadas nem aquele horrível ar de "graxa" ou "palha".

A não esquecer também que as proporções e o estilo de cada uma contam muito: por vezes, quem decide fazer um corte radical pensa apenas se lhe vai bem ao rosto ou não, descurando o resto do corpo e a forma como costuma vestir. Regra geral, sempre  me pareceu que mulheres mais atléticas, curvilíneas ou cheiinhas, com busto acentuado e ombros largos -como  Kaley Cuoco - não ganham tanto em usar o cabelo muito curto: dá ideia que lhes faz a cabeça demasiado pequena em cima do resto, a não ser que optem por um estilo clássico, requintado, muito composto e pouco revelador (vide Morena Baccarin em "V" ou Robin Wright em "House of Cards"). 



Quem tem curvas, se quer cortar, melhor fará em optar por um penteado médio e bem feminino, estilo anos 50, como o de Marilyn Monroe e Ava Gardner.



Numa mulher franzina, uma Kate Moss, uma Twiggy ou Mia Farrow, o caso é outro; essas suportam melhor o "pixie cut" ou "corte à rapaz", dependendo tal escolha apenas do gosto pessoal por um look mais ou menos feminino no sentido tradicional do termo. 



Depois, uma coisa é a sofisticação, outra muito diferente é o sex appeal; uma coisa é a moda e o que agrada à fantasia das mulheres, outra é o que apela ao sexo oposto (pense-se em sex symbols como Brigitte Bardot, Raquel Welch, nos Anjos da Victoria´s Secret, todas do agrado "deles").  É preciso encontrar esse equilíbrio delicado dentro do bom gosto. Mas sou suspeita, pois acredito no que as avós me diziam: quem tem um cabelo bonito, é uma pena não tirar partido dele. Sendo que tirar partido não é necessariamente andar por aí com uma "peruca" enorme, sem corte ou volumosa em demasia, fazendo pouco caso do conjunto.

Pensando nisto, lembrei-me deste texto encantador sobre o assunto, da Metamorfose (vulgo, O Asno de Ouro) de Lucius Apuleius:


"(...) se se cortam os cabelos das mais bela das mulheres, despojando a sua face desse ornamento natural, ainda que ela tivesse descido dos céus (...) fosse a própria Vénus, não poderia agradar, nem sequer a Vulcano. Que há de mais encantador do que cabelos de linda cor, propriamente penteados, que lançam ao sol um clarão doce ou brilhante deixando diversamente deslumbrados os olhos? Não é também um encanto ver uma quantidade de cabelos artisticamente levantados no alto da cabeça ou de um comprimento raro, esparsos e flutuantes sobre os ombros?".

O nobre escritor romano falava a verdade na óptica masculina. É que já se sabe, os homens nisto querem a eterna Vénus...agradam-lhes as madeixas a compor o conjunto, as ondas onde gostam de correr os dedos. Nada a fazer. Em todo o caso é só cabelo, logo volta a crescer: cada uma que faça do seu o que achar melhor, desde que não insista em dar-lhe uma tesourada para a seguir se lamentar, como um Sansão de saias, que perdeu a força da sua feminilidade. Para isso é que não há paciência...

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