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Thursday, July 24, 2014

As coisas que eu ouço: era um homem tão ciumento, mas tão ciumento...



Na terra dos meus avós, nos tempos em que a moral e os costumes eram outros, as mulheres honestas evitavam - como em toda a parte naquela época, de resto- andar desacompanhadas. Parecia mal a uma mulher casada, menina solteira ou a uma senhora de respeito ser vista em constantes passeatas.
  Se alguém insinuava a uma mulher que se tinha por virtuosa que ela passeava muito, ai ai: o mais certo era receber a resposta bem torta "era o que faltava! Tenho de aviar a minha vida!".
 Aviar não tinha, neste caso, o contexto de "despachar". Aviar a vida seria o que hoje se entende por ir às compras. E aviar a vida era precisamente uma das poucas desculpas que uma mulher tinha para pôr o nariz fora da porta, principalmente se não dispunha de pessoal doméstico que fizesse de pau de cabeleira ou - melhor ainda -  que aviasse a vida por si. 

Quando os transportes públicos se banalizaram,também não parecia bem ir sozinha numa camioneta cheia de estranhos; quem  tinha um marido com carro próprio evitava sujeitar-se a essas idas e vindas.

 Pois bem, mesmo neste cenário havia um homem que passava todas as marcas, o que ao mesmo tempo escandalizava e divertia os vizinhos. Casado com uma mulher ainda jovem e bonita, era de tal maneira possessivo, ciumento e desconfiado que entendia que toda a gente a achava tão deslumbrante como ele mesmo e via rivais até nas pedras do chão; a pobrezita não podia dar um passo porque o marido suspeitava da  própria sombra...

 Uma vez que o casal não era propriamente abastado, a esposa do ciumento era das tais que se precisava de "ir à cidade" tinha de o fazer de camioneta. Como o zeloso compulsivo trabalhava, não a podia acompanhar, e...que remédio senão deixá-la. Mas na véspera já estava em ânsias e fazia-lhe mil recomendações, que a infeliz sofria com paciência de santa.

 Ora, naquela altura estava na moda usar o cabelo nuns chignons, ou carrapitos, com a franja solta e ligeiramente ondulada. Pois uma das directrizes mais desesperadas do ciumento era que a mulher se livrasse de fazer a onda no cabelo, não fosse o motorista do autocarro apaixonar-se por ela!

 Ela lá lhe fazia a vontade, o que provocava muita troça entre as amigas: mas a verdade é que se  fosse mulher de lhe pregar alguma partida, não seria por falta de onda no cabelo que deixaria de o fazer...quem quer portar-se mal é capaz disso com onda ou sem onda, mais bem arranjada ou menos, e não precisa de se deslocar para isso, nem de arranjar namoro com o motorista da camioneta.

 Bem se vê que os ciúmes tornam os homens tolos. Já assim era no tempo de Boccaccio, e ainda hoje continua exactamente na mesma.


Wednesday, April 24, 2013

O merceeiro

                      
Thomas Lipton, mais tarde Sir Thomas Lipton - o fundador da célebre marca de chás - subiu a pulso. O percurso da mercearia dos pais até ao estatuto de multimilionário,  baronete, rei do chá (que democratizou a bebida para a classe trabalhadora) e de grande velejador - apaixonou-se pela vida a bordo quando começou a trabalhar em navios aos 14 anos - foi uma alucinante aventura, própria da sua época. Uma vez rico e estabelecido, Lipton dedicou-se à sua paixão, patrocinando eventos náuticos e tentando impor-se na sociedade à força do ouro e de um fairplay que lhe garantiu o cognome de "the best of all losers". Mas se o patrocínio de competições lhe tornou o chá famoso nos EUA, não o ajudou a ser aceite entre a "gente bem" do circuito britânico. Apesar da amizade do Rei Eduardo VII, que adorava passear na sua companhia, o seu pedigree humilde the self made man fechava-lhe portas: por mais que injectasse rios de dinheiro no Royal Yacht Squadron, os yachtsmen que tão prodigamente financiava só lá o aceitaram perto da sua morte, e reza a lenda que nunca chegou a tomar uma bebida no bar do `templo´ que lhe sorveu somas astronómicas. Quanto ao Kaiser, sobrinho de Eduardo VII, não via com bons olhos a amizade entre o seu parente inglês e o empresário: cada vez que sabia o Rei na companhia de "Tommy" Lipton, barafustava "lá vai o meu tio de barco com o merceeiro!". Certo é que o Kaiser era conhecido pelo seu snobismo, que os alemães não são universalmente famosos pela elegância, que o Rei tinha companhias algo questionáveis e que por sua vez, Sir Thomas Lipton não se livrava de uma condenável ambição de impressionar quem não tinha vontade de ser impressionado...um verdadeiro "quem é quem" ou mini case study do snobismo em vários quadrantes, como entenderem.


Wednesday, December 26, 2012

Presentes: le belle macchine


O Natal lá se passou, com o encanto habitual e  - apesar das notícias desanimadoras que teimam em martelar-nos aos ouvidos - com presentes fofinhos q.b que não são de todo o mais importante, mas trazem alegria à quadra... Entre eles, vieram duas maquinetas: a uma delas, a Nespresso com as cápsulas bonitinhas, confesso que resisti o mais que pude. Quando apareceram, há uns dois anos, achei o entusiasmo generalizado, a correria para as comprar e os "clubes de café" uma tolice. Gosto de café, não saio de casa pela manhã sem tomar uma chávena, mas tanta ciência e tanto aparato para uma bebida corriqueira pareceram-me snobismo a mais. Cultivei mesmo uma embirração pela peneirenta da geringonça, até porque cá em casa bebe-se sobretudo café americano, em "bolha".
                       
 A dada altura, por me falarem imenso no jeito que dava, lá pensei que talvez não fosse mau ter uma, para os dias em que me apetece fazer uma chávena só para mim. Às vezes é complicado calcular as quantidades para a máquina americana e acaba por se desperdiçar café, além da chatice que é limpar os filtros. Ok, pensei, hei-de comprar uma, mas não tem de ser necessariamente a do anúncio giro giro com o John Malcovich a fazer de Deus (se há alguém que pode interpretar o Todo Poderoso com justiça, é ele). Depois era o senhor meu irmão a resmungar que café é italiano e expresso, que aquilo que bebemos é "chafé" e que queria a máquina das cápsulas mas era. Enfim, o papá lá lhe fez a vontade e trouxe-nos uma Nespresso parecida com a dele, para assegurar que o níveis de cafeína não descem cá em casa, porque somos tudo gente panhonha demais (cof, cof) e com a máquina vieram os telefonemas para mandar vir as cápsulas, etc, etc.
 Ainda estou a apanhar-lhe o jeito (e a experimentar quantas cápsulas às corzinhas há) mas com certa cautela. Lembro-me sempre de uma história que se passou com a minha avozinha: nos anos 60 a irmã morava em S.Tomé e Príncipe, e mandava-lhe sempre presentes óptimos: por vezes roupas ou lindos tecidos, outras frutas exóticas, como cocos frescos. Certa vez, o pacote trouxe uma caixinha de puro café aromático, cujo perfume se espalhou por toda a casa. A avó não resistiu: tratou de ligar a cafeteira (pois nesse tempo não havia cápsulas para ninguém) e vai de fazer uma chávena almoçadeira daquela delícia, e bebê-la como quem bebe Mocambo. Passado um bocadinho...oh, menina. Pobre avó, viu-se numa aflição de tal ordem, com tanta cafeína junta, que - palavras dela - só lhe apetecia saltar e fazer caretas. Passou o serão escada acima, escada abaixo, a ver se acalmava, e nunca mais bebeu café "a sério".
 De modo que a máquina vai ter uso sim, mas com cuidado. 
A outra modernice que acabou por me conquistar a curiosidade apesar da resistência foi o "forninho" para verniz de gel. Tenho dito que sou contra nail art e tonterias dessas, que para mim as unhas de uma senhora que se preze seguem a regra italiana e nunca se afastam muito da tríade beges- encarnados-rouge noir, na maior simplicidade, e extensões nem pensar. Mas verniz por verniz, mesmo do mais discreto, antes um que dura duas semanas, até porque cá em casa há uma certa pessoa que insiste em jardinar sem luvas e já não há paciência para "tira verniz, põe verniz" quase todos os dias. Para um evento,também dá jeito ter as mãos arranjadas dois dias antes, sem medo que se estraguem na hora H. Considerando como ainda por cima há mais senhoras na família que gostam do "super verniz cósmico, fenomenal e inquebrável"; e que eu sou adepta do do-it-yourself, pouco amiga de perder tempo em salões (ou pior, nails corners, o céu me livre) lá veio o maravilhoso forninho, fazendo jus ao ditado "pede o guloso para o desejoso". Parece uma tostadeira de brincar, e assim lá vou eu pôr à prova a minha habilidade. Modéstia à parte, tenho algum jeito e gosto de ter o "arsenal" para fitness e beleza em casa; desconfio sempre de "studios" e "stylists" para coisas que não exigem grande engenharia.
Com isto, só me faltam três engenhocas na minha lista...dessas falarei um dia destes. Espero que o vosso Natal também tenha sido agradável. E já sabem que agradeço os conselhos das meninas com experiência no maravilhoso mundo do verniz gelificado...

Monday, December 17, 2012

O (meu) perfeito cavaleiro

                            
No ciclo das Lendas Arturianas - e histórias, cantigas, filmes, poemas, séries, obras de arte, you name it, que lhe estão associados - Sir Lancelot é sempre apresentado como o golden boy, o perfeito cavaleiro, o homem ideal por quem todas as mulheres suspiram.
      Embora eu tivesse o mais profundo respeito por todos os integrantes da Távola Redonda, baluartes da fina-flor da cavalaria, cosia cá comigo uma embirraçãozinha com Lancelot: Ele dorme com a mulher do Rei, essa tonta da Gwenhwyfar (o que não é grande conquista, pois a desmiolada também se deixa seduzir pelo filho bastardo do marido, Mordred, fazendo justiça ao velho estribilho galês que reza:



Gwenhwyfar, filha de Ogrfan Gawr
Má em pequenina, pior na grandeza... )


A traição de Lancelot do Lago acabaria por causar a ruína de Camelot, o que não é, de todo, o que se espera do Primeiro Cavaleiro do Reino.
 Também a Senhora de Shalott, do poema de Lord Tennyson, morre por amor de Lancelot; e outras há...é um verdadeiro homem troféu, com tanta basófia como valentia, e tanta fraqueza de carácter como força física. Todas o querem, todos o aplaudem e ele, apesar das boas intenções, acaba por se corromper, indo contra tudo aquilo em que acredita. 
       O meu fraquinho sempre foi para Sir Gawain, sobrinho do Rei Artur, melhor amigo de Lancelot (até ser, também ele, vítima das consequências dos seus caprichos) e o mais nobre dos Cavaleiros da Távola Redonda, em todos os sentidos. No que concerne ao sexo oposto, a minha preferência vai inevitavelmente para os homens reservados, senhores de si, que dão provas de valor em vez de o alardear. Gawain é belo, formidável, valente, entende de curas, defende os pobres e oprimidos e apesar de lhe chamarem o "protector de todas  as donzelas" não aparece ligado a nenhum caso amoroso em particular. É demasiado discreto e grandioso para se envolver em romances sem consequência, ou para deixar mulheres mal colocadas. Mas Gawain acabou por se apaixonar, e de uma forma extraordinária:

Para salvar a vida do seu tio, que precisava, no prazo de um ano, de resolver o enigma " o que é que as mulheres realmente querem?" Gawain acedeu, como perfeito cavaleiro que era, a casar com uma bruxa repugnante, Lady Ragnelle - a única que sabia a resposta.

 O banquete de casamento foi um horror: além de feíssima, a bruxa enojou toda a gente com os seus maus modos à mesa, deu escândalo, fez barulhos terríveis, enfim, uma vergonha. Gawain, no entanto, tratou-a como se ela fosse a mais bela dama da mais ilustre linhagem, procurando fazê-la sentir-se o melhor possível. Quando chegaram ao tálamo nupcial, o pobre Cavaleiro ia de coração pesado, embora fizesse tudo para não o demonstrar. Assim que ficaram sozinhos, no entanto, Gawain não podia crer nos seus olhos: tinha diante de si a mulher mais linda que se podia imaginar!
Ela abraçou-o e com um sorriso doce, e explicou-lhe que ao aceitar casar com ela apesar do seu aspecto horrendo, ele quebrara parte do seu encanto; Ragnelle aparecia-lhe, por isso, com a sua verdadeira aparência. No entanto, ele tinha de escolher: preferia que ela aparecesse bonita durante o dia, para ser admirada por toda a corte, e que ficasse horrenda à noite, quando se encontrassem a sós...ou que ficasse bela de noite, nos momentos de intimidade, e assustadora durante o dia, em público?
Gawain não era capaz de escolher - ter à sua disposição uma esposa lindíssima durante a noite, ou uma mulher bela para exibir aos amigos e salvar, assim, a sua reputação?
 Pensou então que só a esposa podia decidir sobre a sua própria vida - e entregou-lhe esse poder de escolha. 

- Se é assim - disse a mulher, radiante - ficarei bela de noite e de dia. O meu encanto está quebrado.

A beldade tinha sido embruxada pelo Rei do país vizinho, seu irmão, por se atrever a questionar os seus métodos duvidosos de governo. Ao devolver-lhe o poder de escolha, Gawain destruu o feitiço e resolveu o enigma: o que as mulheres realmente querem é soberania sobre as suas próprias vidas...

E assim Gawain salvou o Rei Artur e encontrou a sua própria felicidade. Gawain é o Perfeito Cavaleiro não só pelos seus feitos grandiosos, ou pela sua bela reputação, mas por ser  capaz colocar  de o orgulho irracional de lado, e de não se intimidar com o poder da mulher que escolheu. É preciso um homem a sério para fazer isso.

Monday, December 3, 2012

Como "achatar a crista" a um playboy: o episódio do chocolate

                                   
Já partilhei aqui algumas memórias da avó Tete, que podia ter escrito um excelente blog sobre comportamento se tal coisa existisse nos seus dias de juventude. As nossas intermináveis conversas davam material para muitas páginas. Uma das histórias que mais gostava de lhe ouvir era a do carnet de danças. Naquele tempo era costume, para angariar dinheiro para a organização do baile, ou para as obras da Igreja, leiloar-se um ramo ou um chocolate a oferecer à menina com quem se queria dançar. Um pouco como na famosa cena de Gone with the Wind em que Rhett Butler paga uma soma astronómica para fazer bailar Scarlett O´Hara apesar de ela estar de luto, o que causa grande escândalo, recordam-se?
  A certa altura da festa fazia-se um leilão para as danças de "carnet". Depois, em determinados "números" (músicas) o mestre-de-de- cerimónias gritava "Rester!" e a orquestra parava por uns momentos. Todos saíam, menos as meninas "leiloadas" e os seus pares. Quem tinha oferecido a contribuição mais generosa tinha a honra de abrir a pista. Além de servir para angariar fundos, o costume era uma espécie de concurso de popularidade - é claro que apenas as mais bonitas e/ou as que eram consideradas "bons partidos" recebiam ramos ou chocolates, em maior número consoante o cortejo e qualidade dos seus admiradores, que assim aproveitavam para chegar à fala ou mesmo declarar as suas intenções, sempre sob o olhar de falcão dos pais e restantes "paus de cabeleira". A avó e as irmãs, todas muito bonitas, nunca ficavam sem candidatos. Mas houve um baile em que a dança não correu como era esperado...
 A avó sempre tinha sido muito ponderada e ajuizada, ciosa da sua reputação. Por isso não gostou nada de ver que a irmã mais nova, que era bastante sonhadora e ingénua, andava apaixonada por um betolas lá do sítio - um rapaz muito alto, muito louro, espadaúdo, muito giro e de `boa família´, a quem chamavam o Nené. Como além de ser bem parecido e cheio de basófia tinha "alguma coisa de seu" todas as meninas tinham para ele um olhar doce, e o Nené achava-se o Rei da Cocada Preta, com direito a flirtar aqui e ali. Se havia coisa que ela não suportava - e contra a qual me avisou desde que comecei a ter dentes - era rapazes playboys. Não utilizava essa palavra, mas chamava-lhes "gozões" e "garotos".
Ser "gozão" ou seja, namoradeiro e sem palavra, era o pior defeito que um homem podia ter. Para cúmulo, o rapaz era "cheio de prosa": falava afectadamente pelo nariz, fazendo-se muito chic, e como nunca gostara de gente peneirenta, a menina Tete não podia com ele nem com molho de tomate. Não achou por isso graça nenhuma quando ele começou a aparecer por lá aos Domingos, à janela, com intenções de namoro para a irmã mais nova, sem contudo falar claro ou pedir autorização ao pai. 
A irmã, essa derretia-se só de olhar para ele e sendo um pouco distraída, muito jovem ainda, andava nas nuvens . O meu bisavô era duro que nem pregos, mas como o rapaz era simpático e havia sempre chaperone por perto, deixou andar. O pior é que o Nené não tardou  a fazer jus à fama de "gozão": vinha Domingo sim, Domingo não; ficava de aparecer e não aparecia; ora a punha na coroa da lua, ora fingia que não era nada com ele. Para agravar as coisas, a minha avó percebeu que quando ia lá a casa, tinha o descaramento de lhe fazer "olhinhos" nas barbas da mana mais nova. Percebeu a jogada e ficou furiosa. Até parecia que já o estava a ouvir a gabar-se aos amigos "eu sou tão bom, mas tão bom, que tenho duas irmãs a esgatanhar-se por minha causa; uma que parece a Elizabeth Taylor, outra que parece a Marilyn". Mas calou-se bem caladinha, fez o seu melhor sorriso e ficou a congeminar uma forma de lhe dar uma lição. A oportunidade não tardou e para isso, só precisou de deixar o Nené agir de acordo com a sua natureza de valdevinos. 
                              
  Meu dito, meu feito: foi grande a surpresa de todos quando o mandador anunciou ao microfone: "e este chocolate" (eram umas tabletes muito bonitas, embrulhadas em papel dourado...) "é oferecido, pela licitação mais alta da noite, à menina Tete pelo Sr. Nené, para a próxima dança" pois não era segredo para ninguém que o Nené andava de namoro com a mais nova. E esta a ver sem ai nem ui, que já ia "instruída" de casa. A minha bisavó, coitada, olhava apreensiva, receando que tudo terminasse numa grande vergonhaça. Os amigos do Nené galhofavam. 
Mas a menina Tete, na sua saia de balão "em canudos", aceitou o chocolate, fez o seu ar mais encantador, pôs o sorriso que lhe fazia aparecer covinhas na cara e reluzir os olhos verde-prateado, sacudiu os caracóis negros e seguiu o o par com toda a graciosidade. Dançaram todos contentes, com ele a dizer-lhe falinhas mansas. E a avó, a ferver por dentro, "espera que te arranjo". Até que se ouviu "Rester!" e se fez silêncio. "E agora" continuou o mestre-de- cerimónias, "é favor o par vencedor continuar o baile".
- Perdão! Eu cá não danço - ouviu-se claramente.
Todos se viraram para a minha avó, que estava parada no meio da pista, com ar de desafio. Calou-se tudo. 
-Não dança porquê? - perguntou o Nené, agarrando-lhe pelo braço a ver se disfarçava. - Eu paguei, tem que  dançar!
- Não danço porque não me apetece. Não danço e não danço! - respondeu ela friamente,
libertando-se com um repelão.
Lá atrás, os compinchas do mariola começavam a fazer-lhe negaças, e o burburinho crescia.
- E fique o senhor sabendo que só fiz isto para que aprenda a não fazer pouco de meninas sérias. A minha irmã é muito jovem e não se apercebe, mas se quiser andar em troças, procure outra família, não se venha meter com a minha - disse, com a maior serenidade.
O marialva fez-se da cor de um pimentão. Sufocado, humilhado, só conseguiu balbuciar:
- A menina merecia que lhe desse aqui duas bofetadas !...
- Pois dê! Ora dê, que ficam todos a saber quem o senhor é.
Não se atreveu, ora pois. A avó virou-lhe as costas, como um toureiro vitorioso, e assim desmascarou publicamente o playboy das dúzias.
 E o chocolate? - perguntava eu.
- "Comi-o!" - respondia invariavelmente a avó, que nunca perdeu o gosto por essa guloseima, nem depois de já ter netos...

            



Tuesday, November 27, 2012

3 locais sinistros que eu gostava de conhecer

                             
O meu querido irmão partilha comigo o gosto pela História e pelos contos/filmes/cenários de terror, fantasmagóricos ou como gostamos de dizer, medrocos (expressão muito antiga que certa vez veio a talhe de foice lá em casa e foi ficando). São temas que garantem que nos portamos como dois anjinhos, sem batatada fraternal (que isto irmãos...nunca mudam; desenganei-me quando vi os meus tios e tias, todos maiores de 60, a embirrar entre manos como gente pequena). Pois ele mandou-me um artigo do Expresso, com uma daquelas listas dos lugares mais sinistros do planeta. Nela, enumeravam-se alguns de que eu nunca tinha ouvido falar, outros que já conhecia de textos semelhantes. Há muitos que estão na minha "to do list" mas lembrei-me de três realmente especiais. Como não sou lá muito assustadiça, o efeito é mais um alimento para a imaginação do que outra coisa. Mas não nego que estes cenários dêem um óptimo passeio romântico, vulgo "ai ai ai, protege-me que eu tenho tanto medo"... isto se o cavalheiro não for mais impressionável do que  a menina, claro. Ora cá vai, sem ordem especial:


         Parque TAKAKANONUMA, Japão

                                             
Foi inaugurado em 1973 e fechou pouco depois, por razões nunca explicadas - embora o facto de estar plantado no meio de nenhures possa ter contribuído para o fracasso na venda de bilhetes.... Circulam rumores acerca de mortes trágicas nos carrocéis que levaram ao  súbito encerramento mas não existe informação oficial, o que deixa espaço à imaginação.   Ainda tentaram reabri-lo em 1986, mas foi sol de pouca dura e hoje o parque, que ninguém se deu ao trabalho de desmontar, nem sequer vem no mapa e está entregue à bicharada, à ferrugem e à floresta que vai avançando pelo recinto...há sempre algo de arrepiante em parques de diversões e se forem antigos e/ou abandonados, pior um pouco.
 

A Cidade Fantasma de Fengdu, China

Situada à beira do Yangtze, esta magnífica e bem conservada cidade com mais de 2000 anos de história é considerada um portal entre os mundos...e a única cidade fantasma da China. (Custa-me a crer, pois a mitologia chinesa é riquíssima em contos de almas penadas, alguns bem assustadores). Toda a necrópole foi inspirada nas imagens do Inferno...e os chineses sempre pugnaram pela imaginação no que respeita a demónios a torturar gente no outro mundo.

File:食蔓鬼.JPG



Catacumbas dos Capucinhos de Palermo, Itália

File:Palermo Rosalia Lombardo.jpgEsta visita tem vindo a ser adiada mas espero que aconteça em breve, já que este espectacular local fica para as bandas dos meus avoengos, e há que visitar a parentela (além de passear num dos sítios mais bonitos do planeta, claro). Os monges começaram a sepultar os seus Irmãos nas catacumbas no século XVI, e perceberam que os corpos, embalsamados ou lavados com vinagre, se conservavam estranhamente. Guardar os mortos nas `prateleiras´ da cripta passou a ser um sinal de estatuto e a maioria dos notáveis locais adoptou a prática, pagando aos monges uma determinada quantia para que os cadáveres fossem mantidos em exposição com as suas roupas habituais, que eram mudadas regularmente. Era costume as famílias irem ao local passar tempo junto dos seus defuntos, apertar-lhes a mão, rezar com elas ou mudá-las de posição com a ajuda dos Capuchinhos que zelavam pelo inusitado cemitério. Quando deixavam de pagar, as múmias eram postas de parte, num sítio mais recatado. Os últimos enterros realizaram-se na década de 1920: uma das "habitantes" mais recentes é a pequena Rosália Lombardo, de dois anos, o corpo mais conservado daquilo que é hoje um ponto turístico muito concorrido. Alcunhada "A Bela Adormecida" mantém-se intacta graças a um procedimento que esteve perdido muitos anos, inventado pelo médico Alfredo Salafia - à base de formol, álcool, ácido salicílico e sais de zinco.  Por estes dias decorrerá uma interessante palestra  sobre as lendas locais - que rezam, imagine-se, que as pobres múmias fugiam durante a noite para atacar jovens incautas de forma indecente...(pergunto-me quem terá sido o malandro que andou na pândega vestido de múmia e lhes atirou com as culpas...).  Actualmente, as catacumbas têm cerca de 8000 múmias em exposição, mas sabe-se que há muitas mais. A visitar quanto antes, já que em breve o Museu passará por obras - como a colocação de vitrines para separar os cadáveres do público - que vai permitir a sua conservação, mas também lhe roubará parte do mistério...

                                 
                                 
                                                










Wednesday, November 21, 2012

Aprendam, mulheres da luta...



E apetece-me acrescentar mais um always, bem marcado. Ponto. O desespero é a pior característica que uma mulher pode demonstrar, e só perde para a falta de dignidade que o acompanha. Por ambição, por vontade de assentar a todo o custo ou por aquilo que julgam ser "amor", não faltam por aí mulheres da luta, prontas a fazer todas as tolices para agarrar um bom partido. 



Falo -vos disto novamente , questão já amplamente debatida por aqui, graças a uma história cujo final infeliz  ouvi há uns meses. Curiosamente, vim a ter notícias da maior e mais irritante mulher da luta que já me foi dado conhecer - ou da segunda maior, vá, que distribuir justamente os lugares num pódio destes é tarefa ingrata: nunca conheci uma de que gostasse, ou que não fosse desequilibrada noutros sectores. Uma mulher desesperada é, temporária ou permanentemente, uma grande maluca, com sérios parafusos soltos. 

Mas divago: a mulher em causa, chamemos-lhe J., tinha um namorado desde os tempos de liceu. Com os anos, ela desleixou-se na aparência e no brio: ele, no entanto, era um rapaz de magnífica presença mas pouco juízo, e solicitações não lhe faltavam. As faltas de respeito não tardaram e o namorado, chamemos-lhe R., dava todas as provas de já não estar empenhado na relação.  Porém, ela meteu na cabeça que estavam juntos para a vida e que tinha de ser assim, por pouca felicidade que isso lhe trouxesse. Terminaram inúmeras vezes e mesmo quando estavam oficialmente juntos, R. mantinha casos com outras raparigas. Julgam que a J. se importava? 

Fechava os olhos e tolerava, com pontuais provocações às rivais, com a ajuda de amigas tão tontas como ela (que em vez de lhe abrir os olhos torciam para que tudo "acabasse bem") e uma explosão uma vez por outra. Sabotou-lhe vários novos namoros em cada interregno, mas nunca procurava sair com outros rapazes -  esperava e desesperava, como se não houvesse mais homens à face da Terra. Quando R. tentava pôr fim à situação de uma vez por todas ela fazia cenas, ora de histeria e perseguição em público, ora de chantagem emocional. Porque estava doente, porque tinha gasto a sua juventude naquele namoro (por culpa de quem?) e ele tinha obrigação de casar com ela, porque mais nenhuma teria  a mesma paciência para as liberdades, facadinhas e indiscrições dele. Complementava tudo isso com uma abjecta solicitude, com a comédia " eu estou sempre aqui para ti" e muita, muita graxa. 

Quando tudo isso falhava recorria aos pais, que tinham algum poder económico, para aumentar a pressão: ai, que o papá dá-nos isto e aquilo, nem precisas de trabalhar, é cama, mesa e roupa lavada de graça, e por aí fora. O caso era motivo de chacota e toda a gente esperava para ver o desenrolar da tragédia que era, aliás, totalmente previsível: R. não era mau rapaz, mas pecava por fraco e doidivanas. E o que tinha de suceder sucedeu. Após uma fase tempestuosa, J. conseguiu finalmente arrastar R. até ao altar. Quis uma grande festa para inglês ver - e para fazer inveja às amigas, como é apanágio de mulheres que adoram marcar território. Eram dois seres totalmente alheados um do outro que ali estavam a dar aquele passo perante Deus e os homens, mas isso pouco importava. Ele não a amava...e depois? Tinha levado a dela avante. Deu um grande suspiro de alívio, como quem diz "ganhei" ou como quem leva o cordeiro para o holocausto, depois de o ter perseguido monte abaixo, monte acima, anos a fio...a Lua de Mel deve ter sido digna de registo!


      Uma vez casados, todas as máscaras caíram, todos os ressentimentos vieram à tona. Ele sentia-se coagido e encurralado e se a atracção já não existia, não foi o Sacramento do Matrimónio que a despertou: em breve voltou à sua vida de bon vivant, dez vezes pior do que antes; agora que tinha o título de marido, não precisava de estar com cerimónias. Ela tinha conseguido o seu objectivo, não podia exigir mais nada dele. Quanto à esposa, agora que já não necessitava de tentar agradar (o bom e velho "já me casei!") deixou transparecer toda a raiva acumulada ao longo de anos e anos de humilhações e desfeitas. Como podem adivinhar, foi o inferno na terra e poucos dias durou. Tantos anos investidos para um casamento relâmpago; a "vitória" foi de pouca duração. 
A mim, que fui educada no antigo costume "quando um homem quer uma mulher, não há nada que o detenha" e "aquilo que tem de ser nosso, às nossas mãos vem parar" não consigo entender estas mulheres sem vida, nem amor próprios. É um mistério a ser urgentemente explorado pela antropologia, pela psicologia, e sabe-se lá que outras disciplinas possam ser úteis para analisar o fenómeno...



Sunday, November 4, 2012

A "Sopeira"

Já abordei aqui o namoro dos meus avós. Foi uma história cheia de peripécias e a avó gostava de a contar às netas e sobrinhas como só ela sabia, imitando os gestos e as frases, o que nos divertia imenso. Mal sabia o avô como nos ríamos das suas tonterias de juventude quando ele não estava...
 O meu avó, como vos descrevi, era o rapazola mais cobiçado das redondezas. Além de ser um belo moço, com ar e cabelo à James Dean, era considerado um bom partido e tinha um charme irresistível. Mas assim que conheceu a minha avó, que era lindíssima, não teve coração para mais nenhuma. Toda a gente os considerava o casal perfeito e o namoro ia de vento em popa. O pior é que o avozinho era um homem do seu tempo, e assaz namoradeiro: achava perfeitamente comum ter uma menina delicada e de bom trato como sua noiva, e ir-se divertindo como lhe apetecia com as raparigas desmioladas que tentavam a sua sorte. Para piorar tudo, o pai da noiva não estava para brincadeiras: filhas dele só assistiam a festas e bailes muito escolhidos, e sempre com pau-de-cabeleira. De modo que além dos dias de namoro tradicionalmente permitidos (Quartas-feiras e com sorte, Sábados; nunca percebi porquê mas lá que lhes apressava a vontade de casar, isso apressava) só podia passear ou dançar com a namorada muito de longe em longe, o que lhe deixava muito tempo livre. A ociosidade é oficina do Diabo e como rapaz, ele não deixava de ir às festas e bailaricos, que eram "a noite" daquele tempo. Ainda por cima, uma vez que na época não se dançava sem par, o avô convidava esta e aquela. Tudo se sabia e a avó andava furiosa.
 - Mas que mal tem isso? - dizia-lhe ele com toda a sua retórica e meiguice. - Eu sou novo; você não pode acompanhar-me. Vou com os meus amigos e primos, mas não se passa nada...é natural que eu dance! Não a vou enganar por causa disso. É de si que eu gosto!
E ela, coitada, não tinha como contrariar esse argumento, por mais que lhe custasse. 
Porém, a certa altura, começou a saber que o namorado, apesar das suas juras e protestos de amor eterno, andava muito entretido com uma certa doidivanas. Uma rapariga um tanto saloia e pateta, muito vivaça, barulhenta, atiradiça e tão atrevida que lhe chamavam a Sopeira. Era em tudo o oposto da minha avó e nenhum rapaz de brio pensava nela a sério. Mas como estava pelos actos e as formas rechonchudas eram moda, o meu avô, como outros, achava-lhe certa piada. Para ele era tudo brincadeira, mas ela viu ali uma boa oportunidade e tratava de o engraxar ao máximo, a ver se o comprometia- com a ajuda da família ambiciosa, que não tinha vergonha de "empurrar" as filhas descaradamente se isso significasse um casamento jeitoso. 
 Quem não esteve para graças foi a noiva. Pensou "ná! aqui há gato!" chamou-o e disse-lhe das boas.
E ele, com a calma do costume, contou-lhe as costumeiras lérias:
- Eu? Só a vejo quando o rei faz anos. É só uma rapariga divertida. Não quero nada com ela! Eu lá podia ter alguma coisa de sério com aquela parola! É só para ir para os bailes! É por si que eu estou apaixonado!
Mas ela não acreditou, claro. Mandou-o ir namorar com a Sopeira, já que gostava tanto dela, e que não lhe aparecesse à frente, senão chamava o pai para lhe dar um correctivo, etc.
Ele meteu a viola no saco e lá foi à sua vida, muito desgostoso. Para piorar os males, os pais dele ficaram zangadíssimos, ao ver que - agora que estava solteiro - se fazia acompanhar da tal Sopeira, a ver se curava o coração partido. Tudo eram pândegas e folias. Tal casório - Deus nos livrasse! - seria uma vergonha das grandes. Esperta, a minha bisavó pôs-se em campo e proibiu o filho de parar por lá, não fosse a mãe da outra 
deitar-lhe algum filtro na comida, ou pior, arranjar um estratagema que o obrigasse a casar. Não foi preciso: o avó não era parvo e vendo tanta amabilidade, tanta lisonja, tanta peçonha e mel, tantas liberdades e facilidades, lá percebeu a marosca e fugiu dos encantos voluptuosos da moçoila como o Diabo da Cruz. Depois foi andar dois anos, feito um pobre diabo, a reconquistar a minha avozinha com muita serenata, muita choradeira, diplomacia, cartinhas, pancadaria russa nos rivais e súplicas de parentes. Ainda bem que conseguiu, ou eu não estava aqui a contar isto. Mas essa é outra história.





Wednesday, August 15, 2012

As discussões fashionistas lá de casa

Tenho uma família que é uma inspiração. Lembro-me de ser pequena e ficar toda contente quando os meus pais voltavam das compras, para ver que fatiotas tinham trazido. Há peças desse tempo que ainda por cá andam e pelas quais tenho um carinho muito especial, como um casaco de pele de carneira que continuo a vestir...
Outras que ainda recordo bem desapareceram - algumas por mea culpa - como um cinto castanho e dourado estilo "corda" que era da mamã nos anos 70, uma asneira bem escusada que nunca perdoarei a mim mesma, já que nunca mais encontrei nenhum que fosse tão giro e tão versátil. Usava-o com tudo e mais alguma coisa, mas caiu-me num passeio e nunca mais o vi. Uns sapatos estilo Mary Jane tipicamente anos 50 e de salto alto, lindos, lindos, que a avó usou no dia do casório, esses estão para as curvas - apesar de as duas mulheres cá de casa já terem dado algumas voltas neles. A qualidade desse tempo era outra louça...
O casamento da avó (1957). Adoro o tailleur e esta foto é uma das minhas preferidas
Já o traje de casamento da outra avó (à esq.) uma das coisas mais elegantes em que já pus os olhos  - um tailleur creme com um pequeno fascinator, que ficava a matar na beldade que era a noiva - esse não chegou até mim, infelizmente. Mas o estilo dela e das minhas tias foi uma das minhas maiores inspirações.
O meu trisavô, esse era um verdadeiro janota da Belle Époque, e apesar de dândi e bon vivant, tinha entre os seus investimentos uma casa de alfaiataria (onde se ia abastecer, comme il faut). Uma bisavó do outro lado fez a sua formação numa modiste francesa, porque o pai queria evitar que ela metesse ideias "modernas" na cabeça e se limitasse a fazer um óptimo casamento, como era sua obrigação. Deu mau resultado e tudo acabou numa verdadeira tragédia romântica, mas em compensação as filhas vestiam sempre lindamente...e a paixão pela moda cá ficou. Acho que é por causa destes avós que sou tão picuinhas no que concerne a tecidos, moldes, cortes e acabamentos, apesar de nunca ter aprendido a costurar.

 De modo que na minha família cada um tem um estilo próprio. Os meus pais conheceram-se nos anos 70, quando estavam na moda as motos, os cabelos longos e o que por cá se chamava freak, um estilo rebelde a meio caminho entre o hippie e o punk. Divertiram-se à grande com as camisas justíssimas, as túnicas, os casacos de cabedal, as botas de couro envelhecido e brilhante (que vamos ver muito nesta temporada) e as calças skinny (que sucederam as bocas de sino e as pantalonas) alternadas, no caso das meninas, com jerseys de malha, vestidos muito femininos e saias por baixo do joelho. A carreira militar obrigou o papá a usar com grande garbo as fardas - casou de uniforme de gala - e hoje alterna algumas modernices preppy com um certo british style, que é o que gosto mais de lhe ver. Já a senhora minha mãe adorou os tempos da sua adolescência, as RGA e o idealismo romântico daquela época, pelo que conserva sempre algo de boho e hippie chic nas roupas que escolhe, embora eu a chateie  para manter o tipo de tailleurs por medida que eu adorava ver-lhe na minha infância.
Hair: os meus pais adoraram este filme e eu continuo a pasmar para alguns dos figurinos...                                                     
No entanto, é de uma correcção absoluta quanto ao que uma senhora deve usar a partir de certa idade, e nisso consegue um equilíbrio fabuloso entre o que não é aborrecido, nem excessivamente jovial. Por sua vez, ela arrelia-me dizendo que sou demasiado clássica, preferindo quando eu incorporo elementos góticos ou românticos no visual. Eu chamo-lhe permissiva com certas coisas - como a ganga com lavagem que ela gosta de ver em outras mulheres e que a mim me dá arrepios - ela não gosta quando pareço too uptight na opinião dela, puxando pelo meu lado artístico. Acabamos a acusar-nos mutuamente de ir vestidas de saco de batatas, mas são discussões construtivas que acabam por desafiar-nos a esculpir o nosso estilo pessoal, dentro dos gostos de cada uma. E têm acontecido bastante ultimamente, nas operações de logística que aqui tenho partilhado. Exemplo:

Sissi: mãe, outra vez com esses balandraus? (tradução: túnicas)
Mãe: fala quem anda com camisões e laçarotes peneirentos.

O resultado acaba por ser giro, porque nos esforçamos por harmonizar um aspecto polido com algo de arrojado e inspirador. Mas no quesito correcção e "estar impecável" não há ninguém como o meu irmão. Acho que nunca se deu ao trabalho de abrir uma revista de moda na vida, mas tem um gosto e uma percepção do que é próprio aguçadíssimos. Posso consultar o meu pai para perguntar se estou gira (e para ver se ganho botas rasas ou flats, que são das coisas que ele gosta de me oferecer) a mãe para tirar ideias, referências ou para saber se o vestido me favorece - porque se não favorecer um bocadinho que seja ela di-lo sem dó nem piedade, é do melhorzinho - mas para tirar réstias de dúvida entre o que é adequado, nada como Sua Alteza o mano. É a coisa mais depurada e exigente que já conheci. Distingue, num relance - e sem se interessar népia por roupa - se a toilette é realmente elegante ou roça ao de leve a pinderiquice. Se o mano diz que está bem, é porque está bem, e não há inspecção que me meta medo. Teria uma grande carreira como personal shopper, se não se recusasse terminantemente a pôr os pés nas lojas. É a genética, lá dizia o outro...





Sunday, June 3, 2012

As coisas que eu ouço - Virado ao contrário

                                                         
Há muitos anos, os meus avós conheciam um senhor, milionário provinciano e estabelecido, "cavalheiro" aparentemente sofisticado mas cheio de manhas. Tinha aumentado a sua fortuna graças a uns quantos golpes menos honestos e nunca perdera realmente o hábito de fazer malandrices, que lhe traziam não poucos desgostos escusados. Ora trapaceava este, ora não pagava àquele: volta e meia, lá andava em litígios com A, B ou C, mais por vício do que por estratégia ou necessidade. Com isso, foi  perdendo amigos e fazendo inimigos jurados. Tinha tanto de mafioso como de trapalhão e as suas vigarices não passavam despercebidas a ninguém. Uma pena, pois noutras coisas não era má pessoa e se não fosse esse defeito, seria um membro estimado daquela pequena comunidade. Mas não havia meio de se corrigir, por mais que a família o prevenisse que aquilo havia de acabar mal. Foram várias as ameaças e agressões que sofreu por sua própria culpa e a mulher, uma santa senhora com uma classe que vai rareando hoje em dia, não fazia senão desculpar-se, chorar e lamentar-se para quem a queria ouvir do casamento que lhe coubera em sorte.
Ora, certa vez fez uma coisa tão grave que a outra parte perdeu a cabeça e juntou uma série de homens fortes e espadaúdos para fazer justiça à moda de Fafe (ou no caso, à moda beirã). Levou uma tareia de tal ordem que foi todo enfaixado para o hospital e só escapou com muito esforço dos médicos. A mulher, farta de o avisar e de se arrepelar, não sabia se sofria mais pela aflição de ver o marido naquele estado ou de vergonha. Acorreram os amigos que lhes restavam, incluindo algumas figuras proeminentes lá do sítio e os empregados que apesar de tudo, lhe davam o desconto, para o visitar e consolar a mulher e os filhos. Mas a senhora, cansada de tanto gastar latim, dessa feita não esteve para o encobrir. E aos que iam chegando, não parava de dizer: foi a última vez que o apoiei! Para a próxima pode estar para aqui virado ao contrário que não quero saber dele para nada!
Lá diz o outro, "é um longo caminho dos lábios de uma mulher para os ouvidos de um homem"...

Wednesday, May 9, 2012

A Venerável (e elegante) Teresinha

Venerável Maria Teresa Gonzalez-Quevedo y Cadarso

Há dias, quando comprava um armário antigo, deparei-me com um caixote de livros velhos. Entre eles estava uma biografia (Imprimatur de 1960) da Venerável  Maria Teresa Gonzalez-Quevedo y Cadarso. Teresita jurou ser santa, morreu tragicamente antes de completar 20 anos de idade e actualmente são-lhe atribuídos vários milagres.
Fiquei imediatamente fascinada, não só porque o livro faz jus à prosa característica destas publicações, a que eu acho imensa graça,  mas também pelos deliciosos retratos que contém. Um amor!
A avó Celeste incutiu-me a curiosidade pelas vidas de santos, que ora me contava (com o seu talento especial para dar vida às histórias) ora me apresentava através de livrinhos e pagelas que trazia dos seus passeios. Alguns são francamente edificantes, outros encantam pelo contexto histórico, pelo pitoresco, pelo aspecto humano. O hábito ficou. 
"Essa vida (de Teresinha) é a prova fulgurante de que a santidade não anda de relações cortadas com as diversões honestas (...) não é com extravagâncias e esquisitices que se alcança a santidade"  dizia o prólogo da edição portuguesa. Pareceu-me muito bem, até porque estamos precisamente no mês de Maria, e veio comigo para casa. 


Para quem não conhece, a lindíssima Teresa nasceu em 1930 numa boa família madrilena. Teve uma infância e uma adolescência perfeitas, com todos os mimos e confortos. Era muito alegre, embirrava com os livros do colégio, tinha mau feitio ( em pequena chamavam-lhe "o venenozinho") e sobretudo, um gosto irrepreensível. " Prefiro ter um vestido bom do que dois medianos" era uma das máximas de quem, segundo a irmã, se mostrava sempre exigentíssima no requinte da apresentação e do saber estar. Impressionava pela beleza, pela simpatia e sobretudo pelo porte gracioso, digno, a que não faltava"  um fundo de certa majestade e respeito" . Era igualmente exigente com os dotes do espírito. O seu ardente desejo de se aperfeiçoar e uma enorme devoção à Virgem Maria - o seu modelo - levaram-a a deixar para trás as festas, as férias, as belas toilettes, a família e os amigos, para se tornar noviça das Irmãs Carmelitas da Caridade. Estava decidida "a ser Santa". Porém, até ao momento de tomar o véu, espantou todos com a fantástica elegância da sua pessoa e do seu traje " do mais irrepreensível figurino".
Entrou no convento "serena, alegre, belíssima" de " vestido escocês e capote azul marinho". " Gosto muito de usar roupas elegantes. Muito mundo, muito mundo, mas quando entrar no noviciado acabou-se!" confirmou às amigas, sem pena, embora tivesse gracejado ao ver-se de hábito vestido: "pareço uma dessas caixas de amêndoas, com tampa de mola, de onde sai um boneco...". 



Monday, December 19, 2011

As coisas que eu ouço - mas afinal, quem é que me avia?

John Malkovich, Jeremy Irons e Gérard Depardieu


Na terra dos meus avós, um conhecido nosso comprou o café local. A clientela era certa, o negócio corria bem e a rapaziada gostava de abancar por lá para se juntar ao amigo. Certa noite, já fora de horas, o jovem patrão recebeu os companheiros mais uma vez e decidiu ir ao andar de cima buscar uns aperitivos para lhes oferecer. Todo animado, voltou para baixo a dançar aos saltos e a cantar
" xálálálá li, a malta está aqui" - terminando o último verso com um salto das escadas para a sala do café, de braços no ar numa pose à John Travolta. E foi assim que estacou, porque um velhote da aldeia (típico frequentador das tabernas do antigamente) tinha chegado sem se fazer notar. Com um sério grão na asa e cara de poucos amigos, perguntou indignado - um pouco para os rapazes que se esforçavam para não rir à gargalhada, um pouco para o dono do café - Mas afinal, quem é que me "abia"? E ainda de mãos no ar, respondeu o inexperiente "taberneiro" : Sou eu.

Como "aviar" é um verbo com muitas utilidades e de fácil emprego, este tornou-se um chavão lá em casa. Não faltam ocasiões para atirar um "quem é que me avia" a alguém neste país de burocratas, macacos do rabo cortado, indecisos e pantomineiros.

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