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Tuesday, May 17, 2016

Eu embirro com...estas maçadas de Primavera



Não quero soar ingrata: depois de um Inverno que parecia nunca acabar e de chuva, chuva e mais chuva, que nunca usei tanto carapuço na minha vida, eu ansiava pela Primavera como qualquer mortal.

Mas como o ser humano é insatisfeito por natureza e verdades são verdades doa a quem doer, não posso deixar de embirrar com estas coisas primaveris altamente embirráveis:

1- Centopeias (e outros bichos, mas a mim só me ralam as centopeias)

Morar no campo tem destas coisas e todos os anos me queixo desta minha némesis de muitas patas. Este ano tardaram e estava com esperança que o Criador tivesse reconsiderado, pensado sei lá, que o bicho pode ser um prodígio de engenharia mas não tem utilidade nenhuma, e dizimado a espécie. Enganei-me, já tropecei em duas. Mafu JÁ.

2- Bichos dos pinheiros e outros flagelos altamente causadores de alergias

Um passeiozinho no bosque e zás, uma pessoa fica uma chaga. Valeriana JÁ (é um óptimo substituto natural para anti-histamínicos e excelente para a urticária, caso não saibam; funciona e uma pessoa sempre anda menos taralhoca e ensonada).

3- Tempo Temperamental

De manhã está bom, à tarde passa um ventinho, as noites estão mais quentes mas podem gelar de um momento para o outro. Resultado: saímos de casa de sapatos e blazer mas anda-se com uma gabardina forrada, cachecol e umas botas no carro, just in case. Isto se não contarmos com a chuva, que ainda há dois dias caiu que Deus a dava.

4- O inferno de fazer malas

Nunca é fácil planear uma viagem, mas na Primavera? As partes de cima vá que não vá (camisas e tops de algodão prestam-se a tudo) e calças, jeans e saias também não oferecem grande problema, mas o calçado e os agasalhos são um quebra-cabeças.  Leva-se só trench coats e casacos leves ou é melhor encafifar um anorak na bagagem, pelo sim, pelo não? E calçado? Botas, botins, sapatos abertos? É horrível molhar ou gelar os pés, mas assá-los num passeio é tortura. E - oh contradição danada- se fica muito, muito bom tempo? Não será melhor incluir um fato de banho, à cautela?

Sempre preferi o Verão porque ao menos não é dissimulado, nem instável, nem imprevisível. Se calhar chamam-lhe "prima Vera" por ter o feitio complicado que *injustamente* se atribui às mulheres. Só pode.


Thursday, March 17, 2016

Eu embirro com...esse palavrão do "comer saudável".







Frisando e realçando, não é com o hábito de ter uma alimentação saudável (embora os modismos papalvos do detox e das papas com linhaça para inglês ver me irritem). É mesmo com a expressão "comer saudável" que eu embirro solenemente.

De um momento para o outro - como todas as modinhas - "comer saudável" tornou-se um chavão que as pessoas usam como se não houvesse outra forma de dizer exactamente o mesmo. Um chavão pretensioso que dá origem a montes de artigos aburguesados em jornais e revistas e pior, a uma multidão de posts ranhosos nas redes sociais. "Hoje apeteceu-me comer saudável" - lá reza a postagem com um prato de salada cheio de filtro fotográfico. 

Uma salada metida a chic muito provavelmente regada com um molho feito na Bimby e levada para o emprego numa tupperware genuína da Tupperware, que é para a pinderiquice ser completa, absoluta e irrefutável.

Gente normal e escorreita diria, de forma gramaticalmente coesa, "hoje apeteceu-me comida saudável" (ou um jantar/almoço/lanche saudável) . Ou então,  "hoje apeteceu-me comer saudavelmente". 



Mas não. Qual quê! Umas porque vêem/ouvem os outros falar e escrever assim e nem se detêm a pensar se é bem ou mal dito, outras porque acham lindo, zás.

Querendo ser chic a valer, esta malta diz exactamente como o nosso povo amoroso: o comer, o comerzinho (expressão que, já vos tenho dito, por mais que não esteja incorrecta eu abomino porque me lembra sempre comida retrasada).

A intenção aqui não é- bem sei - usar um verbo como substantivo à moda da aldeia. É algo bem pior, porque não é genuíno: parece-lhes que fica muito bem, muito urbano, trocar as voltas ao português. 

Mas o mais engraçado é que quem tem de facto uma alimentação saudável não se lembrará de se repenicar toda (o) com dizeres desses, quanto mais de partilhar o "repasto" a não ser que queira dar a receita...é o pão nosso (ou a salada nossa) de cada dia. O hábito de comer saudavelmente (não "saudável", irra!) é como a inteligência, a nobreza, a beleza ou a riqueza (a riqueza antiga, vá): quem tem não precisa de o afirmar aos quatro ventos...quanto mais preocupar-se com a forma mais moderna de o gritar ao mundo!

Thursday, February 4, 2016

Eu embirro com...pessoas -chihuahua


Por pessoas -chihuahua, entenda-se as que são sempre assim (Credo!) ou as que, face a qualquer contrariedade, não se sabem expressar nem desabafar sem proceder como chihuahuas.

Deixem-me tentar explicar. É que eu adoro quase todos os animaizinhos (excepto centopeias, caranguejos-ferradura e mais umas criaturas estranhas) mas os chihuahuas estão longe de ser o meu cão preferido. Para ser mais clara, apesar de ser mais uma cat person gosto de cães e eles gostam de mim: regra geral, não há cão que me ladre. E nunca nenhum me mordeu, mesmo os que têm má fama. Palavra, até os pit bulls me adoram. 

Mesmo o único cão que me fez mal, tinha eu uns dois ou três anos, foi por gostar muito de mim: o Kaiser, supostamente impassível dobermann do vizinho, que na ânsia de me dar um abraço canino me atirou ao chão. 



A estrada estava a ser alcatroada e bati com a minha face de bebé na gravilha. Fiquei com uma esfoladela por toda a bochecha, do tamanho de uma bolacha. Não deixou marca, graças aos céus, nem ganhei a mínima aversão a canídeos.  Outra experiência, porém, 
fez-me preferir cães calmos e altivos, que saibam guardar uma casa, como os Pastores Alemães e os Serra da Estrela: o meu springer spaniel (chamado Calimero por ser trapalhão e não dever muito à coragem) enrolou a trela nas minhas pernas, eu tropecei nele e fomos os dois, embrulhados um no outro, a rebolar ladeira abaixo. Calimero não sofreu nada, eu dei cabo de um joelho. Ainda tenho a cicatriz. 

Volto a dizer, sou incapaz de voltar costas a um cão, gato, ou qualquer bichinho necessitado seja de que raça ou não raça for, mas se tiver de escolher um cão para companhia prefiro-o de nobre atitude, grande e peludo. E se falarmos de cães pequenos, sou doida por pequinois

Agora chihuahuas, poupem-me. Pode haver alguns muito queridos, mas para começo de conversa lembram-me sempre o Ren & Stimpy: neuróticos, arrebitados, barulhentos, de olhos esbugalhados e ar famélico. 



Por muito que as Paris Hilton da vida e as flausinas que a querem imitar em versão pelintra tentassem fazer deles brinquedos, nunca me convenceram.

Ora, esta opinião agravou-se um belo dia em que ia com a senhora minha mãe, a passear por uma rua de casas baixas. Do nada, saltam de uma janela três (ou quatro, já nem sei, fiquei estarrecida) chihuahuas furiosos, perfeitamente loucos, a ladrar para nós que nem possessos. Tipo, assim:



 Demos um salto: eles rosnavam, eles torciam-se como atacados de convulsões, eles babavam-se e - uma vez que o vidro os impedia de nos ferrar- desataram a morder-se uns aos outros como um monstro possuído de três cabeças, excitando-se com os próprios guinchos. Visão do inferno! O próprio Cerbero, que tranquilamente guardava as portas do Hades, pareceria um mansarrão ao pé daquilo. Benzi-me, zarpei dali e lá se estabeleceu a excepção à regra. Não morro de amores por tal bicho, pronto. Tudo o que é pequenino e malvado é suspeito.



E claro, não morro de amores por pessoas-chihuahua: sabem, aquelas que são nervosinhas, almas-aflitas, histericazinhas, sassaricadas e repisadoras, em permanente necessidade de tomar um chá de camomila ou flor de laranjeira bem forte. Que não causam grande dano, mas irritam. As que basta haver um contratempo qualquer e murmuram, refilam, blasfemam (é um "ai meu Deus!" por dá cá aquela palha) e não falam, rosnam ou respingam. Que são incapazes de discutir um problema sem se tornarem emocionais e que levam tudo a peito. E mulheres- chihuahua? Aquelas que debatem, dissecam, insistem, voltam atrás, vão buscar coisas que já lá vão e que não interessam para o caso e que se o oponente se afasta para que a coisa não escale, se põem a falar sozinhas, para as panelas se for preciso, sem se importarem com a estridência da própria voz?

Dá-me vontade de lhes espetar um piparote. Não que eu desse um piparote a um chihuahua ou outro bicho qualquer, salvo em auto-defesa...

Thursday, January 28, 2016

A lamechice do "és responsável por aquilo que cativas"


Ainda há dias eu recebia comentários no post onde vos confessei a minha embirração com O Principezinho. Ou antes, o meu "não entendo o sururu espiritual à volta do Principezinho". Que se é para virar do avesso verdades transcendentes, mais valia agarrarem-se ao Catecismo...

Às voltas com os leitores que comentaram a obra super existencialista, cheguei a uma conclusão para ficar em paz com o maçador do Principezinho: o seu mérito (ou o seu mistério) reside em tanto crianças como adultos lhe acharem graça e algum significado. Lá que o livro é esquisito é, tenho de admitir. O que não me converte à seita do Principezinho (havia de ser lindo; "igrejas" em forma de planetas com embondeiros, sacerdotisas a gritarem histericamente "cativa-me!" e casórios a serem celebrados com "amar não é olharmos um para o outro- é olharmos juntos na mesma direcção" em cântico gospel) mas pronto, reconheço que faz pensar, nem que seja para embirrar com a coisa.

Ocorreu-me isto porque entretanto, um artigo que me passou pelos feeds apontou que a famosérrima frase, que muita gente (e em particular, mulherio que levou uma tampa monumental e quer fazer o ex sentir-se culpado) adora partilhar a esmo nas redes sociais-   não foi bem traduzida para português. 


*Enjoo*

Ou antes, que a tradução escolhida e que se celebrizou não foi a mais ilustrativa. Aparentemente, comentou alguém, Exupéry escreveu o livro em francês e inglês nos E.U.A. (não confirmei, tive preguiça aliada a uns problemas informáticos) e na língua de Shakesperare, terá usado o verbo "to tame" - domar

Ou seja (peritos na língua de Baudelaire e na obra, corrijam se há aqui algum mal entendido porque em inglês, se é verdade que se escreveu "tame", não restam dúvidas) a raposa esquisitóide diz ao Principezinho "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que domas". E não "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas". 


"Brasileirices" à parte, bate certo.


A ser assim, a frase perde 50% daquilo que sempre me arreliou e faz muito mais sentido. É que reparem, cativar é uma coisa muito vaga e pode ser perfeitamente unilateral. Qualquer pessoa se sujeita a ir na rua e um obcecado ou uma necessitada qualquer apanharem uma paixoneta por si. E dizerem que sofrem muito por causa disso, acharem-se com direitos mesmo que o caso não seja correspondido. Ou pior, dar-se dois dedos de atenção por cortesia e zás, ficar-se responsável pelas ideias malucas que os outros acham por bem meter na cabeça. Aquilo que cativa os outros não me diz respeito, ora essa. Cada um que seja responsável pelos seus actos e pelas ilusões que cultiva lá consigo. Foi uma citação que sempre me pareceu bastante irresponsável, egoísta, cheia de inversão de culpa e de feeling of entitlement. Lá está, muito usada por gente que acha que tudo lhe é devido, sobretudo por (este exemplo é mesmo o mais comum e expressivo)  mulheres carentes que decidem ir atrás de um homem que não lhes liga, que se dispõem a tudo e quando ele, que nunca as enganou, as manda à sua vida ou vai à sua vida, nothing promised no regrets, lá choramingam "mas tu CATIVASTE-ME!". Ou pela sua versão masculina, vá. Em ambos os casos, ora tretas, desculpem lá a frieza que sinto para com raposas que não chegaram às uvas.

Mas domar, domar é outra coisa. Domar implica envolvimento de ambas as partes. Domar pressupõe muito tempo juntos, sugere que os implicados mudaram alguma coisa um no outro, que estiveram profundamente ligados. Aí entra o sentido do dever e da honra, aí a raposita já teria alguma razão. Quem se envolve, quem se une, quem jura e promete, quem deixa cair as suas defesas e faz cair as da outra parte, se há uma rendição mútua, quem molda o outro e se deixa moldar a uma imagem ou projecto que é de ambos (seja no amor, noutros afectos ou em qualquer outro tipo de associação) tem uma responsabilidade. As ligações não desaparecem simplesmente. Mas em todo o caso são sempre obra de dois envolvidos, não se enganem. Mesmo de quem se deixa domar. Isso do "tu cativaste-me" ou do "ser domado" nunca morre solteiro, por mais que o queiram justificar com frases tristes e fofinhas...









Tuesday, June 23, 2015

Eu embirro com...a letra dos "Óculos de sol"


A canção é engraçadinha, marcou uma época, quando a ouço até imagino aqueles bikinis muito giros dos anos 1960...( "Óculos de Sol" fez sucesso em 1968 e tanto quanto sei foi uma one hit wonder...) mas a letra, a letra é que eu não aguento. E como o Verão já chegou, receio bem que vá ter de a ouvir outra vez por aí...

Senão, reparem: a história até começa muito bem. A menina Natércia Barreto (que não sei se compôs a cantiga ou só lhe deu voz, esclareçam-me por favor se estiveram mais informados) está a preparar-se para ir à praia. Já tem o kit de maquilhagem, o bikini encarnado e "um creme muito bom para se bronzear" (na altura ainda não se falava muito nos malefícios do sol e só no final da década apareceram os primeiros protectores solares, mas espero que o da cantiga já fosse desses, porque a cantora era branquinha e lourinha). 

 Também leva o rádio portátil, porque em 1968 não existiam androids e IPhones para distrair as pessoas de todo o contacto humano. Só não se percebe se vai sozinha - onde estão as amigas da Natércia? Principalmente considerando que a pobre coitada vai fazer o disparate de ir à mesma praia onde o ex se pavoneia com a nova serigaita que arranjou. 




Pimba, primeira dúvida: a Natércia não tem amigas, afastou-as todas durante o namoro com o malandro e agora não lhe resta nenhuma (má ideia - isso nunca se faz) ou as amigas da Naná (para não escrever de novo Natércia) são tão tontas como ela e não a impedem de fazer uma asneira tão grande? Pior ainda, se tem amigas, são tão más e egoístas que não prescindem de ir à praia para afastar a coitadinha de tal mau encontro?

 Qualquer amiga verdadeira e sensata diria "não, Naná, não vamos à praia para não nos cruzarmos com o estúpido do Gustavo, que deve lá estar com a pindérica da Ritinha. Vamos antes às lojas, à piscina daquele hotel novo  ou para casa da avó da Filipa na aldeia, que tem rio e tudo". 




Tentaria distraí-la com outra coisa. Não. As insensíveis, se é que existem, desafiam-na a ir ao mar e cara alegre. O que me leva à dúvida número dois: a praia é assim tão pequena? É que isto parece-me uma desculpa esfarrapada, ou um cenário à Morangos com Açúcar versão anos do ié-ié, que os moranguitos arranjavam sempre maneira de todo o elenco ir de férias em simultâneo para o mesmo sítio. Certo, há praias na Linha, na Caparica e outras (como as de Buarcos e algumas algarvias) na cidade que são um pouco apertadas, mas...de qualquer modo com tantos quilómetros de costa neste país há sempre outras praias livres de defuntos e coisas ruins.

E a infeliz  da Naná, com espírito de mártir ou de mulher da luta, lá vai contemplar tão triste espectáculo. Dúvida número três: ela bem se desculpa "já pensei não sair/ mas para onde hei-de ir/com este calor?".

 Mas atenção-  quando uma mulher não se quer cruzar com o ex, não sai e não sai mesmo, ou até arranja um itinerário dos lugares a evitar, mesmo que desista de assistir àquela festa ou de se refrescar no areal. Antes deitar-se na relva com os aspersores ligados! Antes, à falta de piscina privada (ou de um tanque, para quem mora em quintas) abrir a mangueira no máximo e fazer uma triste mas refrescante figura. Ao menos não se sujeitava a isso.

 Agora óculos de sol! Uma rapariga saca dessa arma secreta caso vá tranquila da sua vidinha, no lugar mais improvável para tropeçar na alma penada e, zás: lá aparece o anticristo. 

Que fazer? É pôr os óculos de sol, fingir que não viu e andor, violeta. Já ficar numa praia deitada a ver a cena do pateta aos afagos à flausina, com óculos de sol ou sem eles, exige masoquismo. E um bocadinho de falta de dignidade feminina. Sem esquecer uma mistura entre pateticidade e auto domínio sobre humano.

 Mais sinistro ainda, será que a intenção seria uma tentativa ridícula de comover o ex ("olha para mim tão triste, a chorar por ti") ou de lhe mostrar o que estava a perder para o reconquistar? Ou ainda, de estragar a tarde de praia à outra? De qualquer modo é infinitamente mau. Imaginem o ego do rapaz- deve ter ficado nos píncaros. Em vez de o mandar passear categoricamente, porque os homens mulherengos não merecem ser conservados, quanto mais disputados, põe-se a chorar com uns óculos de sol na cara! Fosse minha amiga ou irmã, que correctivo ia apanhar!

  Uma mulher só se presta a isso se:

a) estiver para lá de Bagdad e não se importar de todo;
 b) tiver uma companhia melhor para apresentar na praia, para ao menos salvar as aparências e devolver a arrelia. Nem que seja a fingir.

 Com cantiguinhas destas a encher as cabeças femininas de tolices como quem não quer a coisa desde os anos 60, não admira que se veja por aí tanto descalabro...

Sunday, February 22, 2015

Eu embirro com comédias românticas...mas esta aconselho.


Defendo muitas vezes que uma mulher deve ser absolutamente feminina na maior parte das coisas (nomeadamente, na forma de vestir e de estar) e que não há nada de errado em gostar e falar de enfim, miudezas de mulheres.  Apreciar compras, tricas de beleza e coisas desse jaez não faz de nós menos capazes, sérias, profundas ou inteligentes. Certo.

 Mas uma excepção serão os chick flicks ou como algumas pessoas dizem, filmes de rapariga (costuma usar-se outra expressão mais coloquial, mas francamente, acho isso feio).

 Fora clássicos como Breakfast at Tiffany´s (que preciso de rever) e The Seven Year Itch (porque adorava a Marilyn) ou casos pontuais como Pretty Woman (detestei a premissa, mas o guarda roupa é icónico) Ten Things I hate About you (é baseado em Shakespeare, tinha de gostar) ou Legally Blonde e mais uns quantos, é geralmente o tipo de filme que dispenso.

Eventualmente passo os olhos se estiver a dar na televisão - e se for assim um filme colorido com boa fotografia ou que se desenrole num cenário que me agrade - mas dificilmente pagaria para ver tal coisa.

                                  

   É que...desculpem lá. São, por norma francamente aborrecidos, além de resvalarem ora para o mau gosto com piadas escatológicas, ora para o dramalhão. Alguns demoram horas esquecidas para já se saber como vão acabar. As mulheres são geralmente umas tolas desleixadas que se dão ao luxo de cometer todos os erros - levianas idealistas e desastradas que detestaríamos conhecer na vida real, mas por quem é suposto torcermos até ao fim da trama.


 Os homens costumam dividir-se entre o antagonista parvalhão por quem a protagonista fraquinha do miolo anda a ser usada, e o bom rapaz compreensivo que atura tudo e com quem ela fica no fim.

                                      

 A moral da história costuma ser exactamente aquilo que as mulheres solitárias e teimosas nos seus erros querem ouvir: as vossas relações falhadas são todas culpa dos homens, a responsabilidade nunca é um bocadinho vossa, vocês não são umas chatas carentes nem nada, mas nunca temam-  depois de terem tido casos de uma noite com metade da cidade há sempre um executivo, médico ou chef bonitinho ao estilo telenovela, que adora piqueniques românticos e super bem sucedido disposto a aturar uma Bridget Jones da vida que andou indecisa entre ele e o parvalhão até ao último minuto, porque adora as imperfeições dela.

 Wishful thinking much? Não me entendam mal, eu gosto de finais felizes e não tenho nada contra o tipo de filme em que uma heroína convincente e injustiçada dá a volta por cima e fica com o Mr. Right. O que não me agrada são palmadinhas nas costas.



  Dito isto, fiquei agradavelmente surpreendida com The Ugly Truth, que deu na TV um dia destes. Será desde He´s Just not that into you (que não vi- só dei uma olhadela ao conteúdo do livro que o inspirou) uma das poucas comédias românticas que entretém o mulherio mas também ensina alguma coisa, mesmo (o título diz tudo) à custa de verdades inconvenientes.

Para já, o protagonista é um homem com H, Gerard Butler (nada de galãs com cara de folhetim) e a heroína é Catherine Heigl, a única coisa boa que saiu dessa ordinarice que foi a Anatomia de Grey, fenómeno responsável por meter *mais* ideias ridículas nos cérebros femininos. Ela é tão bonita que se lhe perdoa isso, e aqui redime-se um bocadinho.


 Catherine faz o papel de uma mulher moderna (bem sucedida mas mandona, com falta de uma presença masculina na sua vida, bonita mas demasiado prática, inteligente mas excessivamente idealista e ansiosa por vincar a sua opinião) e ele, de um guru dos relacionamentos que, depois de conhecer muitas mulheres que não prestam, decide cantar-lhes as verdades à bruta.



As verdades históricas, tradicionais, biológicas, escritas na pedra, estilo The Rules em perspectiva masculina: os homens, os a sério, são bastante simples (para não dizer "básicos") as mulheres é que hiper analisam (facto). Eles são muito visuais e acham sexy o que é tradicionalmente bonito, como os vestidos elegantes que não expõem mais do que o necessário e os cabelos compridos. Querem a sedutora, mas também a santa; fantasiam com a conquista fácil, mas desinteressam-se quando ela sucede; detestam que os critiquem e Marias Sabichonas, ou que julgam amar uma versão idealizada deles; sentem-se aprisionados por mulheres atiradiças que lhes roubam a emoção da conquista e não os deixam, por assim dizer, dirigir o espectáculo. E quando colocados perante uma paixão verdadeira, às vezes ficam apavorados.


Obviamente no fim ele apaixona-se também pelos defeitos dela, quando a conhece melhor, mas então já a magia inicial tinha feito o seu papel.

É claro que o filme (escrito por três mulheres mas realizado por um homem) não teve grandes críticas. As mulheres muito modernas detestam ouvir isto. Acham antiquado e pouco conveniente, porque obriga a um certo esforço de auto domínio. Muitas optam por homens de mentalidade efeminada, o que é uma opção individual mas raramente funciona.

 A guerra dos sexos não é opcional; é o que dá emoção à dinâmica mais antiga do mundo. 

 Se tiverem uma amiga aborrecida, desesperada e carente, aí está um filme abre-olhos para lhe recomendar. E acho que as vossas caras metade talvez achem certa piada, se ainda não viram.




Tuesday, July 1, 2014

Pouca -terra, pouca-terra, uma ova.


Gosto muito de passear, mas confesso que sou esquisitinha com os meios de transporte (e com quaisquer meios/recursos/companhias envolvidos na viagem, de resto). 

 Ando ansiosa para que inventem as viagens no tempo, mas se o meio para fazer isso for desconfortável acho que me fico por metade das épocas que gostaria de visitar.

Por mim teleportar-me era o ideal, desde que isso incluísse teleportar a bagagem também. 

   Conduzir não me agrada lá muito e não gosto dos camiões TIR que andam na estrada (se algum camionista me lê tenha a bondade de me desculpar, mas há colegas seus que já me pregaram cada susto!) voar enfim, tolera-se, se cair caiu e como já estou no ar mais depressa chego ao céu mas estar fechada numa lata tanto tempo e com a pressão atmosférica nos ouvidos é uma penitência sem tamanho; barcos desde que não dancem muito para eu não enjoar ainda vá que não vá...tudo por uma boa causa.

 Mas quando tenho de andar de comboio sinto-me mesmo um bocadinho infeliz. O facto de a minha cidade ter uma estação que mais parece o Faroeste pode ter contribuído para o trauma. Agora que falo nisto, lembrei-me que - tinha eu uns dois ou três anos - estava eu em Coimbra-B, subi para um carrinho de transporte de bagagens e caí de cara no chão, chorei que me fartei. Noutra ocasião, era eu bebé de meses, o carro onde seguíamos (um mini encarnado muito giro) parou no meio da linha com o comboio a aproximar-se. É para gostar de comboios? I don´t think so. 

  Para piorar tudo, aquela gente toda a embarcar lembra-me os filmes da Segunda Guerra Mundial.

 Mas se fosse só isso era uma questão de controlar a minha imaginação galopante e problema resolvido. O pior é que não é. Os comboios de hoje são mesmo desconfortáveis, pronto. E tudo o que se relaciona com eles, idem: Santa Apolónia, por exemplo,  é uma estação com a sua piada, mas a distância da Linha 2 à porta sem um carrinho para empurrar malas que se veja é de morrer a rir. E as filas para comprar bilhete em qualquer parte? Ou se vai com bastante antecedência, ou é impróprio para cardíacos. Não sei  que fizeram às maquinetas de moedas que antes havia e que há em outros países e já desisti de perguntar.

Noutro tempo valia a pena viajar de comboio- havia cabines privadas e camarotes. Hoje, a não ser que se vá no ressuscitado Expresso do Oriente (e os meus afazeres nem sempre passam por essas bandas tão longínquas) ou naqueles comboios cor de rosa que vão para França (não sei como se chamam, não me apeteceu procurar e quase tenho raiva de quem sabe) ou coisa semelhante, nem em primeira classe se adianta grande coisa.

Senão, vejam: o Alfa abana que se farta. Fico sempre enjoada. 

Já me disseram que isso tem não sei quê a ver com o facto de as nossas linhas não estarem preparadas para uma locomotiva tão sofisticada, mas isso não é problema meu nem quero saber de desculpas. Uma vez o comboio ia deitado, juro: parecia uma atracção de feira daquelas radicais. Julguei que a seguir ia virar de cangalhas como na montanha russa.  

A única vantagem em relação ao modesto Intercidades é que para passar entre as carruagens não é preciso empurrar aquelas portas medonhas que exigem comer um bife com ovos antes (e tentar abrir aquela porcaria com bagagem na mão e saltos altos? Bom para artistas de circo!): há um botãozinho. 

 De resto, em termos de corredores apertadíssimos, bancos que não quero imaginar o que é ser um gordo e andar de comboio, carruagens que nunca se sabe quais são e funcionários que ou não existem (ou quando existem são incapazes de dar uma ajuda nem que vejam uma senhora ou uma velhinha carregada) casas de banho minúsculas quando não empestam, ar condicionado que ora funciona ora não, falta de espaço entre vizinhos do lado, ausência de uma bendita tomada onde carregar telemóveis ( serve-me de muito que tenham Wi-Fi, seus palermas) e outras maravilhas, estamos conversados. Isto pela módica quantia de cerca de 40 euros ida e volta, sem direito a uma bebida incluída nem nada. Uma simpatia...

 E é dar muitas graças a Deus se chegarem a tempo e horas, ou se não nos calhar um banco virado ao contrário, que ainda estou para saber para que serve tal coisa, a não ser para purificar as almas pecadoras e fazer purgas . Não sou engenheira, mas não podiam pôr umas roldanas que virassem os assentos automaticamente conforme o sentido em que vai o comboio? Das duas uma: ou  descobri aqui a pólvora, ou estou a dizer uma parvoeira monumental. Caso se dê a segunda hipótese, estou perdoada: tenho os neurónios sacudidos por tanta pouca terra...



Friday, June 13, 2014

Eu embirro com...as pessoas "I want it all, and I want it now".



Bom, não será bem assim pois Deus me defenda de embirrar com o meu adorado Freddie Mercury. Eu própria sou, por natureza, impaciente quanto baste (um traço de carácter que é  sempre sensato moderar).  Desesperar quando se espera é humano. 
   Para além disso a ambição, desde que saudável, razoável e bem conduzida, com ética, integridade, noção dos próprios dons, limitações e circunstâncias, não deixa de ser uma qualidade. 

 Não esqueçamos ainda que tempo é dinheiro e que se as coisas são para ser feitas, é agarrar a oportunidade e realizá-las em tempo útil. Tudo isto é verdadeiro.

 Aquilo com que embirro não será a vontade de chegar a um objectivo ou terminar uma tarefa, tanto quanto possível, depressa e bem. O é para amanhã, tão característico dos latinos, pode ser exasperante.

 Mas como sempre, no meio é que está a virtude. E há pessoas que não só dão passos maiores do que a perna e esquecem que quem tudo quer, tudo perde, como querem tudo para ontem. Ou melhor ainda, para anteontem. E lá diz o sábio povo, "o apressado come cru".

 Se um bolo está no forno, não são capazes de o deixar cozer em paz. Abrem o forno de dois em dois minutos, palitam a massa a ver se já está sólida, perguntam "já está? já está?". Claro que o bolo fica estragado. 

Se plantam batatas, não têm paciência para as deixar nascer: desenterram as pobres coitadas todos os dias a ver em que pé as coisas estão. Quando enviam um currículo, na manhã seguinte ligam trinta vezes para saber se estão contratados. Se algo está em curso, ainda a procissão não saiu do adro já andam a exigir novidades. Depois impacientam toda a gente, a procissão já não sai e ainda se queixam que tudo lhes corre mal.

 Não dão tempo para que nada se construa, para que se tomem os passos necessários, não respeitam o ritmo das situações nem a sensibilidade alheia, tão pouco pensam que os outros envolvidos terão mais que fazer.

Entram em pânico por qualquer coisa, colocam pressão em tudo, são incapazes de serenidade e de ter um toque leve. Gente assim não durava dois minutos numa guerra - denunciava logo a posição ao inimigo.

Ora, a paciência, o saber esperar - desde que sem exageros - e acima de tudo, o saber esperar caladinho e pensar noutra coisa enquanto se aguarda o resultado é uma grande prova de carácter, humildade e auto domínio. 

 Como aprendi a ser muito paciente, muito tolerante com a maluqueira alheia, mas nunca soube lidar com indisciplinas e falta de auto controle, pessoas que querem constantes indícios, sinais, novidades e feedbacks  tiram-me do sério.

 Quem não está disposto a aguardar com a devida calma... ou é inimigo da perfeição, ou muito infantil, ou pouco empenhado no objectivo em causa.  E em geral, só mostra que não tem intenções muito sérias- porque se desinteressa do assunto e passa rapidamente a outra coisa caso nada aconteça com a rapidez que deseja. Easy comes, easy goes.

 Até se pode querer tudo - mas deixem o tudo fazer-se. E fechem a matraca. Roma e Pavia não se fizeram num dia, e as coisas que valem a pena nesta vida são como o amor verdadeiro e a alta costura: fazem-se esperar.

Tuesday, April 8, 2014

Duas palavras com que eu embirro solenemente.


Há muitas outras que me arrepiam como unhas a riscar um quadro - assim de repente ocorrem-me algumas que já tenho apontado por aqui, como "o comer", "o (a) menino (a)" - não dito na segunda pessoa mas na terceira, estilo "cuidado com o meniiiiiiiino!" ou "vai dar o comer à menina", ou menos grave, mas embirração minha, "mala" em vez de carteira"; depois há outras que não têm nada de transcendente mas que se tornaram ridículas pelo uso atamancado que se lhes dá, como "fashion" e "glamour".

 E isto sem falar nas mulheres que tratam as amigas "carinhosamente", e em público,  por nomes de animais de quinta - quem diz tal nem merece ter nascido e já que nasceu, havia de estar trancafiada a lavar pratos numa daquelas cozinhas refundidas de casas antigas estilo Downton Abbey, onde ninguém as ouvia (mas longe da comida, que elas chamam "comer", para não contaminar ninguém) e com os braços enfiados até aos cotovelos em sabão e potassa, a ver se aprendia. 

 Enfim, se vou elaborar um glossário daquilo que não gosto que se diga na minha presença temos um longo serão pela frente, mas atiro aqui duas que me fazem quebras de tensão.


Desgustação - não tem nada de especial, até gosto de ir a uma degustação por outra, mas por modismo e pretensiosismo aburguesado do piorio, agora chama-se degustação a tudo, mesmo à mais elementar e sadia comezaina. É que soa mais chic, julgam os patos bravos que agora descobriram as maravilhas do gourmet (outra palavra que ficou na moda). Por mim até prefiro o sinónimo prova, mas diz que a degustação é assim mais introspectiva e iniciática, estão a ver a ideia. Em todo o caso, na minha terra degusta-se um vinho, uma selecção de doces ou as amostras para o banquete de um casório.
 "Degustar um leitão assado" e coisas semelhantes, como já ouvi, é no mínimo estranho. 

Gostoso - ou gostosão, gostosona, e por aí fora. Primeiro, porque é abrasileirado, segundo porque, como é óbvio, me lembra os anúncios de acompanhantes, que falam sempre em "pecado", "pecado delicioso", ou pior, pior, "pecado gostoso". É uma palavra feia que dói, como elogio é perfeitamente nojento, e como se não bastasse ganhou uma conotação pior ainda graças a estas profissionais da...bom, desavergonhice que gente que não é profissional acha por bem copiar. Por causa de tudo isso, nem sequer consigo empregar o antiquado " aceito gostosamente", por boa educação, de tal maneira me lembra o palavrão. Fico-me pelo "muito gosto" e já é muita cedência.

Wednesday, February 19, 2014

O cabelo "azeiteiro" está na moda? Help.

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Não percebi o sururu com o (des)penteado molhado de Beyoncé na entrega dos  Grammys, muito menos os tutoriais que se espalharam por aí a ensinar a fazer tal trabalhinho- sim, porque *parece que* é preciso trabalho para ter aquele ar de quem saiu do duche a correr, pronta para deixar a cabeleira absorver toda a poeirada, poluição e porcaria que anda no ar. Blhec. A isto chama-se lavar o cabelo para o sujar de propósito.
Que querem? Tenho uma embirração tremenda com qualquer visual "de efeito molhado" - para raparigas e rapazes. Cristas à jogador da bola? Turn off imediato. Caracóis longos com montes de espuma visível, tipo cabelo de plástico - com espuma efeito molhado, ainda por cima? Hello, subúrbios carenciados. Juntem-lhe umas argolas grandes e temos um look moro-no-ghetto-e-não-gosto-de-tomar -banho. E os rabos de cavalo arrepiados, esticadinhos, colados à cabeça com montes de gel...efeito molhado? 
Não tenho nada contra um penteado do estilo "brushing do dia anterior" ou  "salto da cama" (na Brigitte Bardot resultava) em quem tem cabelo e palminho de cara para o aguentar; aceito que até há penteados que se fazem melhor de um dia para o outro. Mas com texturas secas e algum volume; com aspecto limpinho e compostinho. Cabelo com ar de sujo,  não há nada que salve. 

Friday, January 10, 2014

Eu embirro com...a canção "Imagine"


John Lennon escreveu uma das minhas canções preferidas - Jealous Guy (embora eu prefira a versão de Bryan Ferry, que sempre me encantou) mas também foi o autor de uma das minhas embirrações de estimação. I imagine, sem trocadilhos,  que dizer isto não me caia lá muito bem, mas já explico (e assim como assim já embirrei aqui com O Principezinho, por isso vale tudo...perdida por cem, perdida por mil!). Como é que se implica com uma canção queridinha, um monstro sagrado de quem todo o mundo gosta, e que ainda por cima fala da paz e do amor entre os homens?

 Primeiro, porque é demasiado idealista. Já vi o suficiente do mundo para ir pela palavra de Maquiavel: devemos encarar a humanidade como ela é e não como gostaríamos que fosse, porque só podemos melhorar aquilo que é real, actuar perante o que existe. Almejar à perfeição como os hippies só funciona para quem está como eles: numa "viagem" permanente. Leva à constante decepção ou a viver à espera de uma revolução que nunca está feita, como vejo tantos exemplares datados e mofentos a fazer por aí. Get real.



 Segundo, porque as utopias me arrepiam: a História provou que é impossível obrigar todas as pessoas a pensar da mesma maneira, a querer o mesmo, a esforçar-se o mesmo, a ter os mesmos ideais. Uns querem ser ascetas, outros são apaixonados, uns são trabalhadores,  para não falar nos "bons" e nos "maus", nos que gostam de alcançar isto e aquilo e nos que se contentam com pouco. Utopias dessas não são (ou não seriam)  menos ditaduras do que aquelas que já por cá passaram.

E terceiro, porque a tomar a cantiga ao pé da letra, o Paraíso de John Lennon não só seria um totalitarismo pegado - onde todos eram obrigados a ser pacíficos, a partilhar tudo e a viver, enfim, como patetas alegres - como me parece uma grandessíssima sensaboria. Ora vejam:

Nada de Religião - é certo que a Religião é a desculpa para muitas coisas menos agradáveis, mas também não é o bode expiatório de todos os males da Humanidade. É fonte de conforto, de força, de esperança. Traz magia e mistério à vida. E ter ou não uma vida espiritual é um direito inalienável de cada um, era só o que faltava. Um mundo onde não posso rezar se me apetecer, onde os míseros humanos dependem de si próprios e onde não há Natal nem Páscoa? Não obrigada.

Nada de propriedades nem de posses: não é que eu seja uma pessoa materialista, pelo contrário. Mas imaginem não terem as vossas próprias casas, as vossas camas, os vossos sapatos, e ter de partilhar uma inexistente privacidade com o vizinho do lado que por acaso, não gosta de tomar banho. Credo.

E ter uma pátria (ou várias) também dá jeito para que haja algum sentido de missão, de identidade.

Nada por que morrer: se não há nada por que se fosse capaz de dar a vida, então não há paixão, não há entusiasmo, tudo fica numa aurea mediocritas insuportável. Há sempre alguma coisa que é vital para cada um. Se nada nos mover, então a vida é um tanto faz danado, um tédio intolerável. Sou toda pelo espírito nonchalant e blasé, mas calma.

 É uma canção do seu tempo, e acho estranho que se veja como um hino universal. Em última análise,se John Lennon não tivesse morrido tragicamente no auge, acredito que  Imagine não teria o mesmo impacto. Não duvido, atenção, de que a intenção fosse boa. É só que o Paraíso de uns pode muito bem ser o Inferno dos outros. Ou como afirma o bom povo, é por coisas destas que o mundo não se tomba.

Saturday, January 4, 2014

Dúvida existencial do dia, ou eu embirro com...bonés

New Era
Jeremy Scott


Há coisas nos meus gostos que não percebo: estão ligadas a associações de ideias no subconsciente, com certeza. Só assim se explica que eu, que adoro chapéus (apesar de não os usar com a frequência de que gostaria) embirre tanto com bonés. Hoje vi o chapelinho acima na Vogue - recomendado para meninas cool - e pimba, fui invadida por uma série de sensações desagradáveis. 
 A sério - a minha colecção não é muito grande mas inclui chapéus de aba, fedoras, barretes de tricot, ushankas que cheguem para atravessar a Rússia em grande estilo, chapéus estilo anos 20, panamás, sombreros e outros, para não falar dos famigerados capuzes.
 Mas bonés, baseball caps, não são mesmo a minha chávena de chá. Excluindo um cor de rosa de que gostei muito há uns anos, não sou mesmo capaz de usá-los. E há mulheres que conseguem escapar-se a usar um com óptimo ar, mas são raras (sei lá, as modelos nos anúncios Ralph Lauren ou Tommy Hilfiger, ver abaixo). Um bocadinho de maquilhagem a mais e zás, passa-se de bon chic, bon genre a Rita Ora em menos de um fósforo. E as meninas que os usam para esconder um cabelo menos recomendável, a.k.a menos limpo? Don´t get me started, que este é um blog asseadinho.


 Pode ser o melhor boné do mundo, mas associo-o imediatamente a subúrbios duvidosos, às meninas da Zona qualquer coisa com coxa grossa, argolas de meio metro e rabo de cavalo agarradinho à cabeça, a um aspecto de ghetto, em suma. Quando muito, é coisa para se usar num desafio de baseball (ou de futebol, mas lá está: dar bom ar a qualquer coisa que tenha a ver com futebol é um tremendo desafio). 
 Em todo o caso, é o tipo de acessório a reservar para situações desportivas e/ou muito descontraídas, com o aspecto mais clean do mundo, por favor.

Ressalvo, no entanto,  que isto é uma mania minha  - às tantas os bonés têm vantagens fabulosas que me estão a escapar. Mas nunca fiando.





                           

Thursday, October 3, 2013

Correndo o risco de fazer zangar muita gente...eu embirro com Pedro Chagas Freitas.

"Deixa-me cá citar, a ver se arranjo namoro".
                      
Não conheço o trabalho de Pedro Chagas Freitas. E em boa verdade, não tenho grande curiosidade em conhecer. Sou esquisita quando se trata de livros, de autores vivos pior um pouco, de autores da moda nem me falem. Pode até ser uma excelente pessoa, com imenso conteúdo. Pode ser um poseur da pior espécie. Não sei, não emito julgamentos e sinceramente, tenho melhores coisas para fazer do que pesquisar agora a obra do cavalheiro. Se calhar o defeito é meu e nesse caso, o Sr. Chagas Freitas que tenha a fineza de me desculpar. 
 Não fosse o Facebook, essa fabulosa janela para a bisbilhotice, eu não sonharia que existia um senhor que escreve livros e que dá por esse nome. Sou distraída, abomino modismos e mal me sobra tempo para ler todos os clássicos que me faltam. Logo, é pelo Facebook - via muitíssimo digna para aprender parvoíces - que vou apanhando aqui e ali umas citações pseudo eróticas, pseudo profundas e assaz xaropentas assinadas por ele. 

Ora, não há nada pior do que pseudo erotismo a tender para o "profundo", a puxar à "sensibilidade". Escrever sobre a luxúria é das coisas mais complicadas à face da terra, é verdade. Ou o resultado é soberbo ou horroroso - não há meio termo. E tudo o que empregue eufemismos só torna a coisa ridícula: 
lembrem-se dos livrinhos da Harlequin, que ao menos têm cenários giros: há sempre um nobre escocês que embirra com a proprietária recém chegada e rebelde, ao mais shakespeariano e arquetípico estilo de "A Fera Amansada"; acabam envolvidos e felizes para sempre. Mas ao menos os livros da Harlequin não tentam ser filosóficos. Se usam eufemismos é por um pudor que acaba por embaraçar mais ainda, não por pretensão intelectual.

 Pior do que os eufemismos para designar as coisas mais naturais do mundo, só o contornar da coisa mais natural do mundo: não se menciona nada, mas fala-se nos fluidos, no suor (blheeec!) no roçar não sei de quê, no adormecer juntos, filosofa-se sobre o êxtase - o que acaba por ser mais indecente do que chamar as coisas pelos nomes. Não me senti embaraçada com Fanny Hill, Justine, Chin Pin Mei, o Decameron, Jou Pou Tuan, Histoire D´O (devo estar a esquecer algum, com certeza) mas fico vivamente atrapalhada, nauseada, com os excertos deste senhor.

 Pior ainda - e perdoem-me pessoas amigas que possam apreciar o género - os seus trechos "profundos", ao que tenho visto,  batem o recorde das frases de engate facebookianas usadas por raparigas feiotas e desmioladas, ansiosas por um romance, ou um engate de ocasião que seja,  que as salve do desespero absoluto. Estas, que descrevi aqui. Segundo blhec desta modesta crónica. Só isso bastaria para me fazer embirrar com o trabalho do senhor. A julgar por isso, Pedro Chagas Freitas está para as raparigas tontas como Adelaide Ferreira ou Rita Guerra estão para donas de casa suburbanas e românticas que papam novelas como as beatas papam hóstias, ou como o Toni Carreira para as senhoras românticas mais lá da aldeia. Logo, com uma legião de fãs tontas, está-se bem marimbando para o que pensa uma rapariga que tendo as suas tonterias, as limita a modas e elegâncias. "Uma mulher que lê muito é um perigo", lá diz o povo, logo é melhor que limite as leituras a textos que passem o teste do tempo. 

Assim - repito - é pelo Facebook que o conheço. Má estreia.

  Se estou a ser indelicada, o que não é de todo o meu estilo, peço desculpa.  Mas fazer-me entrar pelos olhos dentro citações tão...enjoativas, é uma péssima maneira de se dar a conhecer. 



Saturday, August 31, 2013

Embirração do dia: já vos disse que...


...odeio, odeio, odeio arranjar as mãos? Não é que seja de todo desprovida de jeito mas não tenho paciência para fazer, nem para estar imóvel como uma estátua à espera que mo façam, muito menos para a ansiedade de pensar "será que desta o verniz já secou?" e mover-me com mil cuidados para evitar o "AAAAAAARGGGGG, pimba, já fiz um rasgão no verniz" ou pior, deitar-me com a manicure impecável depois de esperar horas que seque e de manhã acordar com as marcas da almofada, nem para as surpresas que cada esmalte nos reserva (ou porque passou do prazo, ou apanhou calor sabe-se lá como, ou lhe deu na telha fazer bolhinhas). Felizmente Deus Nosso Senhor não me quer para manicura, apesar de já andar para ali o forno de gel à espera que eu me lembre de encomendar os vernizes 3-em-1 que não chateiam nem lascam, pode ser que seja esse o milagre. Valha-me que me limito às três cores clássicas, sigo o hábito italiano (natural no dia a dia, cores em dias de passeio ou ocasiões) e que me ensinaram que uma senhora se conhece pelas mãos, senão furtava-me mesmo. Diz muito da nossa vaidade de primatas que tenhamos pachorra para enfeitar as extremidades das patinhas. Como é que alguém adere à nail art, prolongando o tormento para exibir bolinhas,  feitiozinhos, estrelinhas, caviarzinhos e *palavrão*zinhos nas manápulas, it´s beyond me. Sofrer para ser bela ainda se atura, sofrer para ficar com um ar...bem, estranho, isso é muita capacidade de sofrimento junta.

Friday, August 23, 2013

Provincianos há muitos: bons, maus e os "figurões da terrinha". E eu embirro com os dois últimos.

Este é um modelo genuíno.

Numa época em que muitos portugueses parecem fazer desesperada questão de ser "muito urbanos, muito cosmopolitas,  muito trendy" (o que é algo parolo em si mesmo, já que boa parte nasceu ou tem origem no campo) eu que sou orgulhosamente de Coimbra - logo, para os provincianos que se fazem lisboetas, provinciana e com muita honra - mas vivi parte da vida na nossa tradicional, amorosa e familiar Capital que certos hipsters querem transformar à viva força numa mini e afectada Nova Iorque (outra parolice) e que tenho raízes familiares numa das mais antigas e particulares vilas do nosso país, faço toda a questão de abraçar o meu lado campestre. Tenho mesmo pena de não me poder esconder lá não sei para onde, algures no Norte, num provicianismo elegante e desbragado, estilo "A Cidade e as Serras". Mas lá dizem os espanhóis: pueblo chico, infierno grande. E há "complexos saloios" verdadeiramente insuportáveis.

Porque podemos analisar aqui,  só por carolice, vários tipos de provincianismo. Comecemos pelos provincianismos simpáticos:

- O provincianismo naïve, genuíno, simples e campesino, de quem não é nem quer ser outra coisa (ou "a boa gente do campo").

- O provincianismo cool, blasé, nonchalant, de quem se está perfeitamente marimbando para modernices pretensiosas e vive lindamente retirado, até porque sai "da terrinha" quando quer e bem lhe apetece (e às vezes, nem quer): o género "fidalgote de província" ou provinciano cosmopolita, se quiserem.

- O provincianismo de quem se mudou, ou voltou, para a "província"/campo/terra onde Judas perdeu as botas por opção. Gente empreendedora e desempoeirada.

- O provincianismo algo extravagante, mas inofensivo, de certos hippies que se escondem nas serras a fazer agricultura biológica, a recuperar cottages e outras coisas que os hippies fazem.

 Depois temos os provincianismos péssimos:

- Os tais provincianos que dão mau nome à espécie e que fazem com que o termo seja um insulto. Têm complexo de ser "provincianos". Queriam ser lisboetas ou viver na Linha e não se conformam com isso (como se a "Linha" não fosse, sem desprimor algum, um "arredor", e Cascais não fosse uma vila!). Tornam-se mais lisboetas que os lisboetas, mais parisienses que a gente nada e criada em Paris, o seu sonho é ser nova iorquinos, fazem-de de hipsters, divulgam sushi no instagram quando na realidade detestam peixe. Poseurs, pseudo, wannabes, tudo neles é postiço, deslumbrado, pateta, típico do provinciano que nunca viu nada, a quem falta mundo,  em suma.

- E por fim, os provincianos do piorzinho: os que não renegam as suas origens, mas "evoluem" sem se polir, perdendo a ingenuidade e franqueza que lhes dava algum encanto.
Figurões lá da aldeia, que têm a mania que mandam em tudo: nas "colectividades", na paróquia, na junta, nas IPSS, na filarmónica, no clube de futebol e em todas as organizações  que são o "ai Jesus" desse povo.  Uns porque emigraram com sucesso, voltaram e decidiram "fazer pela terra" com um paternalismo disfarçado de generosidade, ou seja, esperam vassalagem de toda a gente e medalhas do Presidente da Câmara.
 Outros porque são políticos de pacotilha, o verdadeiro "Presidente da Junta", tiranetes de meia tigela. E há outros ainda que foram "tirar um curso", ganhar alguma "cóltura" mas, à parte muita mania de se arvorarem em "pessoas finas" - termo que para eles significa gente civilizada - ou "defensoras da cultura/da Igreja/ da literatura/ do Património", voltaram exactamente na mesma. Para começar ninguém lhes consegue tirar o ar de sopeiras/cavadores de enxada/figurantes de rancho folclórico nem com aguarrás, porque isso do ar que se tem nasce e morre com cada um e por mais que se encaderne, nada feito. 
Eles parecem sempre jornaleiros famélicos ou se forem para o forte, taberneiros. E elas , quando não são Ruth Marlenes da vida com um anel de curso e diploma de catequista, optam pelo tipo "parolinha culta e respeitável". Enchouriçadas nos seus vestidos de missa e penteados rígidos em cada ocasião que se lhes afigure minimamente "especial" , carregadas de base que parece glacé de um bolo, as suas feições algo grosseiras, os seus modos untuosos e subservientes, enteiriçadas em poses que não lhes saem naturalmente, fazem  o tipo "antiga criada de servir que se finge senhora" como se dizia antigamente.
Eles e elas vão fazendo vénias a este e àquele, marcando presença em cada "cerimónia oficial" da terrinha, mandando na Igreja, enfurecendo o pobre do prior de forma passivo agressiva. Forçam amizade com cada "figurão de fora" que visita a terra, fazendo-se sabujos e íntimos, ganhando território e autoridade com muito mel e muita peçonha, juntando-se a sucursais de "clubes internacionais de beneficência" se os houver, entrando em todas as conferências de caridade, dando muita importância a cada porcaria que se passa,  querendo passar por senhoras, cavalheiros, "doutores" e aturando tudo para serem tolerados em casa das pessoas minimamente respeitáveis que por lá haja. Aparecem no pasquim local, organizam soirèes para ofender as musas com péssima literatura, bordam, declamam, escrevem, mandam vir, intervêm,  fazem bolos e procuram passar, essencialmente, por muito boas pessoas. Mas a cupidez aldeã e o chico espertismo estão lá, em todo o seu esplendor e não conseguem passar por pessoas distintas assim que põem o pé fora da freguesia.

São, essencialmente, pessoas assim que fazem com que muita gente fuja da aldeia, ou da província. Mandasse eu neste país e arranjava uma província ultramarina qualquer para enclausurar os provincianos que estragam a província, e os provincianos que querendo ser urbanos, estragam a vida na "cidade". Só cá ficava gente genuína. Era certinho.

Saturday, August 3, 2013

Eu embirro com...puzzles. E com pessoas-puzzle.

                                           
É frequente ler-se por aí que os nativos do signo Virgem, sendo dados à organização e ao perfeccionismo (coisa que sou mesmo, com a particularidade de, por golpe de vista, conseguir dar atenção ao detalhe em tempo recorde porque não tenho paciência  para torrar minutos com picuinhices) apreciam puzzles. Esse lugar comum "és organizado, logo és chato" irrita-me porque nunca gostei nada de tal passatempo. 
    Passo a explicar: puzzles e charadas fascinam-me desde que haja algo a ganhar com isso, estilo Indiana Jones, se decifrar o enigma o tesouro é seu. Em pequena, 
encantava-me o xadrez (como tudo o que envolve estratégia...não me fiz marketeer por nada!) mas o puzzle sempre me pareceu um hobbie de quem não tem qualquer imaginação. Tanto trabalho, tanto quebra cabeças para uma coisa que já se sabe que resultado vai dar. Em suma, cansar os neurónios para nada. Bem podiam dizer-me que era didáctico (eu embirro com coisas didácticas, palavra que sempre me soou a tentarem ensinar-me à socapa coisas que não estava minimamente interessada em saber) ou pior, que exercitava a mente: nunca achei graça a "paciências".
   A paciência não é, aliás, o meu forte; sou capaz de ter paciência de Job, sim senhor... se, lá está, tiver alguma vantagem nisso. Mas precisei de a treinar e sempre a vi como um mal necessário. E veja-se, a vida já nos dá tanta ocasião para exercitar a paciência de chinês (saber esperar é uma virtude, etc) que não há necessidade alguma de me torturar com jogos de tabuleiro (ou de chão, em alguns casos) mortalmente maçadores e que ainda por cima, desarrumam. Há lá coisa mais foleira do que peças de puzzle perdidas atrás dos móveis  ou coladas à sola dos sapatos?
 A única coisa associada a puzzles que me agrada é a expressão anglo- saxónica "you puzzle me". Os nossos velhos aliados têm maneiras simples e encantadoras de se exprimir. 
    Mas creio que é escusado dizer que quem me deixa "puzzled" não me encanta. 
 Pessoas-puzzle não me seduzem nada. Claro que o mistério é sempre um atractivo, mas quando há segredos a mais, mentiras a torto e a direito, enigmas gratuitos ou prolongados, contradições absurdas e atitudes que não fazem sentido nenhum a minha desconfiança dispara, fico convencida que estou perante um indivíduo que na melhor das hipóteses não joga com o baralho todo e perco rapidamente o interesse. Afinal, pessoas puzzle são exactamente como os puzzles de mesa: chatas. Fazem-nos perder tempo, provocam stress, queimam-nos os neurónios para não ganhar nada e antes de começar o jogo, já se sabe qual é o resultado final. Só é pena não virem identificadas numa caixa; poupavam-se horas e raciocínios preciosos e atiravam-se as pessoas-puzzle para o caixote dos brinquedos antigos a doar a instituições. Ou se calhar não: pessoas-puzzle ninguém merece, muito menos os mais desfavorecidos que já têm problemas de sobra. Directamente para o caixote do lixo, isso é que era de valor.


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