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Friday, September 21, 2012

Gilles de Rais: serial killer, vítima ou um homem complicado?



Gilles de Rais, companheiro de Joana D´Arc, seria classificado aqui no Imperatriz Sissi como um sexy bad boy, não fosse a sua reputação - duvidosa, salientemos - mais digna de um filme de terror. O Marechal de França, e herói nacional, foi a inspiração para o famoso conto de Perrault, O Barba Azul. Juntamente com Erzbeth Bathory, a alegada Condessa Sanguinária, o nobre francês é considerado um precursor do serial killer moderno. Controverso, complexo, sensual, a sua história é um misto de bravura, descida aos Infernos e redenção: ingredientes obrigatórios para lendas.
 Membro da Casa de Montmorency-Laval Gilles, Barão de Rais, nasceu em 1404. Embora aparentemente tivesse tudo para ser feliz - era rico, poderoso, belo e inteligente, com uma sensibilidade aguçada - a morte dos pais terá sido decisiva para a sua personalidade futura, e para a consequente queda em desgraça. Aos 11 anos, ele e o irmão, René, de quem era muito amigo, ficaram à guarda do avô paterno, um homem  excêntrico e orgulhoso, que se dedicou a fazer de Gilles um monstro. Transmitiu-lhe os valores da soberba e do poder e aos 14 anos, 
armou -o cavaleiro. Nos primeiros tempos porém, o avô concentrou as suas atenções em René, o que permitiu a Gilles passar o tempo escondido na enorme biblioteca da casa, devorando sem supervisão todos os livros que lhe apeteciam: as histórias trágicas da Roma Antiga eram as suas preferidas. Mergulhado em tal ambiente, não tardou em mostrar tendências violentas - aos 15 anos matou um amigo num duelo, mas dada a sua condição elevada o crime ficou sem castigo. Pensou então em aproveitar os seus impulsos naturais para uma bem sucedida carreira militar: dizia-se que em batalha era transfigurado por uma fúria guerreira tal que nem os companheiros o reconheciam. Entretanto o avô manobrava nas sombras para lhe arranjar um casamento vantajoso. Após várias negociações falhadas a escolha recaiu sobre uma fidalga e herdeira bretã,  Catherine de Thouars. O casamento seria um fracasso: Gilles nunca escondeu não amar a mulher e apenas teve com ela uma filha, Marie. A guerra era o seu único amor: foi comandante do Exército Real e os seus feitos durante a Guerra dos 100 anos foram incontáveis. Lutou ao lado de Joana d´Arc, a quem idolatrava. Ela tinha o poder de dirigir os seus impulsos para o bem, de o inspirar ao caminho da rectidão. Rezam os mexericos do tempo que Gilles estava profundamente enamorado da Donzela: esteve ao seu lado quando foi posto fim ao Cerco de Orleães, e na coroação de Carlos VIINesse dia, foi elevado a Marechal de França, com direito a juntar a flor-de-lis às suas armas. O trágico fim de Joana  d´Arc, no entanto, deitou por terra os seus bons propósitos. Gilles terá dito que com Joana morrera a sua razão de viver. A partir daí lançou-se numa vida de dissipação febril, de desequilíbrio emocional e de conflito religioso. Um ano após a morte da Donzela, o seu avô, horrorizado com a fera que criara, deixou a sua armadura e espada ao neto René, num acto de desprezo público pelo comportamento de Gilles.
 File:Blason Gilles de Rais.svgRetirou-se da vida militar para se entregar a um estilo de vida excêntrico: a construção de uma capela, estranhamente dedicada aos Santos Inocentes, onde ele próprio oficiava vestindo estranhos atavios, e a produção de uma peça de teatro caríssima foram algumas das extravagâncias que depauperaram os seus bens. Começou a desfazer-se de terras e objectos de valor. Por essa altura ter-se-á envolvido com o Oculto - a princípio com a Alquimia, depois convidando bruxos e charlatães para o seu castelo que, a troco de somas elevadas, lhe prometiam a riqueza e a glória, alegadamente evocando demónios...sem resultados. Gilles terá no entanto, segundo os seus biógrafos, permanecido fiel à Fé Católica. A partir daqui torna-se difícil deslindar a verdade do mito, os factos das acusações interesseiras de inimigos.    

As hipóteses levantadas até hoje são inúmeras: Gilles de Rais seria um louco? Um assassino cruel? Um inocente vítima da Inquisição às mãos de inimigos que cobiçavam os seus domínios? Um fidalgo excêntrico com interesse pelo oculto, ou um seguidor do paganismo, mártir do seu tempo? Nunca teremos a certeza. O que fica ao ler os relatos do seu julgamento é o retrato de um homem perturbado, profundamente espiritual, que apenas confessou os horrores de que era acusado perante uma excomunhão inevitável. Depois de um processo sensacional, o herói amado pelo povo confessou, entre muitas lágrimas, o horrendo assassinato ritual de cerca de 200 crianças. A confissão fez chorar a assistência, incluindo a família das vítimas, que lhe gritou palavras de perdão. Foi condenado a ser enforcado e depois queimado na fogueira. No patíbulo, fez questão de morrer antes dos seus seguidores, para que estes não perecessem julgando que ele escaparia ao destino para o qual os arrastara a todos, e confortou-os com palavras de esperança na redenção divina. Lá em baixo, a multidão gritava louvores a Deus, pedia perdão para os seus crimes e bradava " morrei em doce paz!". Não permitiu mesmo que o seu corpo fosse consumido pelas chamas: foi retirado do cadafalso e preparado por damas de alta linhagem para o descanso eterno. Com apenas 36 anos, desaparecia uma das personagens mais fascinantes do século XV. O resto fica à imaginação de cada um...














Thursday, September 20, 2012

Outfit patriótico: Maria da Fonte e Padeira de Aljubarrota inspiram



Considerando o estado do País, lembrei-me que a Maria da Fonte e a Padeira de Aljubarrota seriam boas inspirações para o próximo Carnaval. E por causa disso, a canção abaixo não me sai da cabeça...


Mas como o Entrudo ainda vem longe (lembrem-me de arranjar uma pá e umas foices até lá) pensei que talvez não seja difícil encarnar o espírito dessas personagens com um look mais...actual, usando algumas peças em voga neste Outono, como as saias rodadas e as capas. Sou perdida por blusas de camponesa, como já devem ter percebido...
Basta trocar os sapatos de época à esquerda- ou as tamancas - por um pump bem alto e depurar um bocadinho o visual original. Claro que a Maria da Fonte é um pouco mal encarada e a Brites de Almeida não era nenhum prodígio de feminilidade, mas podemos sempre fazer uma versão mais amorosa.

Padeira de Aljubarrota meets Maria da Fonte


Sunday, September 2, 2012

Rivais#2: o amuo de Maria Antonieta




                                  
Desde que sucedera à ponderada Marquesa de Pompadour como maîtresse en titre do Rei Luís XV, Madame du Barry vivia num encantamento. Só havia uma pedra no seu lindo sapatinho: a Delfina, a célebre Maria Antonieta, recusava-se a  dirigir-lhe a palavra. Uma desfeita mortal, já que a rígida etiqueta do palácio proibia que a amante do Rei tomasse a iniciativa de lhe falar...
File:Madame du Barry.jpg
Madame du Barry
 A corte (onde conquistara aduladores, ansiosos por obter por seu intermédio as mercês do apaixonado monarca, mas também inimigos jurados) sofria, contrafeita, a sua presença.  Não havia nada a fazer: Madame Campan, camareira-mor da Delfina, recorda nas suas memórias o péssimo hábito que Sua Majestade tinha de se relacionar com mulheres de baixa extracção. A jovem du Barry, Jeanne Bécu de sua graça, aliava aos inegáveis dotes com que a natureza a presenteara o despudor e a vulgaridade, inexplicáveis afrodisíacos para alguns homens no poder. Bonita, nova, tonta, descarada, Jeanne não era, no entanto, desprovida de bondade, e talvez os seus impulsos generosos - que aparentemente, a subida meteórica não estragava -  tivessem ajudado a cimentar o afecto do sexagenário soberano. Um dos primeiros favores que pediu ao Rei foi a comutação da pena capital para os velhos condes de Lousenne, caídos em desgraça. No entanto, os truques aprendidos no exercício da mais velha profissão do mundo terão contado outro tanto para o fascínio que exercia no amante. Quando o Luís XV descreveu, deliciado, ao Duque de Noialles os "novos prazeres" que conhecera nos braços de Jeanne, este terá respondido " Sire, pensais assim  porque não frequentais bordéis!". E nada havia de calúnia nesta afirmação...

Filha ilegítima de uma costureira-cozinheira de rara beleza, Anne Bécu, e de um monge, as origens da futura condessa du Barry não podiam ser mais irregulares, para dizer o mínimo. Graças a um amante da mãe, Monsieur Billard-Dumonceaux, pode ser criada com todo o mimo e luxo. O "padrasto" arranjou colocação para Anne, como cozinheira, em casa da sua outra amante (esta italiana, e "oficial"). Tal arranjo permitia a Anne levar consigo a filha, de apenas três anos. Curiosamente, Francesca, a dona da casa, afeiçoou-se a Jeanette, tratando-a com desvelo. E neste estranho ambiente a  pequenita desabrochou, até que o seu protector achou por bem mandá-la para um convento, proporcionando-lhe assim uma educação bastante razoável para uma pequena de condição tão humilde. Aos 15 anos saiu do convento e a relação entre a mãe e a madrasta azedou. A partir daí teve uma série de empregos - não sem escândalos e amantes pelo meio - de aprendiza de cabeleireira a dama de companhia, de camareira  a empregada de balcão. Finalmente, conheceu o libertino Jean-Baptiste du Barry, dono de um casino e conhecido "angariador" de beldades para o seu negócio. Ele tornou-a sua amante e estabeleceu-a como uma das mais infames prostitutas de alta classe de Paris. Entre os seus clientes, encontrava-se a fina flor da aristocracia: foram muitos os ministros do Rei e membros da corte que conheceram os seus encantos...
 Um deles, o belo Marechal de Richelieu, achou que ela seria um belo peão para manipular o Rei, e com a ajuda do próprio du Barry, arranjou maneira de lha apresentar. O plano funcionou às mil maravilhas. Jeanne não poderia ser amante do monarca sem possuir um título, mas onde não há escrúpulos não há dificuldades: falsificou-se uma certidão de nascimento, com três anos menos e uma ascendência mais glamourosa, e o irmão de Jean-Baptiste, o conde Guillaume du Barry, voluntariou-se para casar com a cortesã. Jeanne passou de um irmão para o outro e daí para o Rei sem ai nem ui, como boa profissional da vida galante...e o "marido" fazia vista grossa, para seu governo. A bolsa real e os privilégios compravam tudo. Poderosa, adulada, feliz, a Jeanne não faltava nada: o povo detestava-a pelos gastos astronómicos em toilettes espaventosas, de gosto duvidoso, e a corte ria-se dos seus modos grosseiros e vulgares, mas o Rei adorava-a. 

Na sua felicidade, só havia uma nuvem: a Delfina austríaca, Maria Antonieta, que por dinheiro nenhum se dignava a confirmar-lhe publicamente o prestígio.  Princesa de sangue, a futura Rainha fora criada numa corte austera, de princípios dignos, e não podia sofrer que uma mulher com um passado daqueles, boçal e espalhafatosa, se passeasse por Versailles como dona e senhora . Para piorar tudo, a du Barry fora a principal agente na intriga para afastar o seu aliado, o Duque de Choiseul - e tivera o atrevimento de se rir, em público, de uma anedota contada pelo Príncipe de Rohan que ridicularizava a sua mãe, a Imperatriz Maria Teresa da Áustria. Por seu turno, as tias do Delfim acicatavam-na, recordando-lhe o horroroso percurso da filha da cozinheira. Caprichosa, a du Barry tinha chiliques, fanicos, descabelava-se, queixava-se ao Rei "da afronta" . Este rebaixava-se ao ponto de insistir com a mulher do neto para que acabasse com a contenda e dissesse duas palavras à pobre coitadinha. Que lhe custava, afinal? A corte estava em pulgas e divertia-se com a situação. Como acabaria tudo aquilo? Os rumores cresciam e chegaram finalmente aos ouvidos da sensata Maria Teresa da Áustria. Irritada pelo facto de a sua própria filha entrar em contendas (ainda que silenciosas) com uma mulher de tal género, e com isso lançar a desarmonia no palácio, terá instado com ela para que acabasse com o desacato. Maria Antonieta cedeu, finalmente, mas a seu modo. No baile de Ano Novo de 1772, virando-se na direcção da favorita, lançou para o ar ( não se dirigindo a ninguém em particular) uma frase que ficaria famosa: Il y a bien du monde aujourd´hui à Versailles ("hoje está muita gente em Versailles..."). Era pegar ou largar. A mâitresse aceitou, jubilante: estavam salvas as aparências e a paz restabelecida. A Delfina, porém, foi categórica: aquela mulher NUNCA mais ouvirá a minha voz. E cumpriu. Mais tarde, du Barry haveria de vingar-se com o desastroso Caso do Colar...
 Pouco mais de duas décadas depois, porém, as duas mulheres partilhariam o mesmo fim, vítimas da guilhotina e do furor do povo...e a mesma vala comum no Cimetière de la Madeleine, destino final de tantos mártires da Revolução Francesa.








Friday, August 17, 2012

Coco Chanel: quase, quase a fazer aninhos...

File:Chanel.JPG

Controversa, criativa, genial: de nascimento humilde, Coco Chanel teve as primeiras figuras da sociedade e as celebridades da época a seus pés. Os homens adoravam-na, as mulheres copiavam-na. Foi a grande precursora  de bens de primeira necessidade como o pequeno vestido preto. Furiosamente independente, a sua passagem pelo orfanato marcou-a de tal maneira que no propósito de exorcizar o trauma, decidiu criar uma versão com estilo do seu uniforme de interna. Realizou assim o seu sonho de popularizar as roupas práticas, possibilitando às mulheres menos afortunadas vestirem-se de forma elegante com materiais acessíveis. As pérolas falsas, as camélias de tecido e  os casaquinhos que a tornaram famosa surgiram pelas mesmas razões. Já o penteado à garçonne também ficou na moda por obra sua: Gabrielle, como ainda era conhecida na altura, queimou o cabelo ao tentar frisá-lo para um evento. Sem outro remédio, cortou as madeixas esturricadas e acompanhou o novo visual com uma blusa às riscas e calças largas de marinheiro. Dias depois, as senhoras de sociedade reproduziam o look “escandaloso”. Todas nós, mulheres, lhe devemos muitas das roupas práticas, elegantes e de corte acessível tão comuns hoje em dia. E Chanel continua a ser sinónimo de discreto requinte. Merci, Mademoiselle Coco.




Monday, August 13, 2012

Veronica Franco, it girl do século XVI


File:VeronicaFranco.jpg
Retrato de Veronica Franco, atribuído a Tintoretto
"Quando nós (mulheres) somos dotadas de treino e armas, podemos convencer os homens de que temos mãos, pés e um coração como o deles; e embora sejamos delicadas e frágeis, alguns homens delicados também são fortes; e outros, bruscos e grosseiros, são cobardes.  As mulheres ainda não se aperceberam disto (...) E para o provar, eu própria começarei por dar o exemplo".

                                                                              Veronica Franco
Veronica
A Veneza do século XVI era uma cidade opulenta, cosmopolita e fervilhante de actividade, famosa pela beleza e estilo das suas mulheres. Como cidade chave para o comércio entre a Europa e o Oriente, a República de Veneza não só era bafejada pela fortuna como tinha acesso às novidades, influências e luxos de outras paragens. Abundavam os perfumes, as especiarias, os tecidos ricos, os cosméticos, as jóias e uma grande alegria de viver. A "jóia sobre as águas" era um paraíso de hedonismo, e nos seus palácios celebravam-se as artes, a cultura...e festas esplêndidas. Criadas como pérolas raras entre todos esses esplendores, as venezianas representavam o cúmulo do chic decadente: foram elas que criaram a moda de "lavar a cabeça" (leia-se, pintar o cabelo) ao sol, criando as famosas nuances acobreadas do louro veneziano. A sua elegância elaborada fez escola e vem desses tempos a célebre frase " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". Entre elas, destacavam-se as suas reputadas cortegiane, mulheres deslumbrantes, de fina educação, que partilhavam o destino dos venezianos poderosos...e dos forasteiros privilegiados que pudessem pagar a sua companhia. As mulheres que se dedicavam à vida galante dividiam-se em duas classes: a  cortigiana oneste ("cortesã honesta" ou "honrada") e a cortigiana di lume, a prostituta comum. 
Entre as primeiras, versões renascentistas das hetairas  - Veronica Franco é talvez a mais famosa. 
Catherine Mc Cormack interpretou Veronica no filme "Dangerous Beauty"
 Nasceu em 1546, filha de uma cortesã reformada, Paola Fracassa. Mulher culta, Paola insistiu para que a filha recebesse educação igual à dos seus três irmãos. A pequena Veronica estudou assim com professores particulares, um privilégio vedado à maioria das meninas de boas famílias, educadas apenas para o casamento. No entanto, esse era o destino que inicialmente a esperava: na adolescência casou com um médico abastado, mas a união foi um fracasso e Veronica pediu o divórcio. A lei, no entanto, determinava que a mulher que tomasse tal iniciativa perdia o direito ao dote que trouxera. Sem recursos e com um filho para sustentar, a beldade decidiu seguir as passadas da progenitora, empregando a educação que recebera numa carreira de cortigiana onesta. Aos 20 anos, figurava no catálogo di tutte le principale e più honorate cortigiane di Venezia, um documento que apresentava os retratos, descrição e honorários das mais afamadas cortesãs de luxo. O seu êxito foi tão grande que pouco depois sustentava uma casa enorme incluindo vários sobrinhos, os filhos que foram surgindo (teve seis, mas apenas três sobreviveram) muitos criados e professores para as crianças. A sua graça e espírito renderam-lhe amantes - e protectores - poderosos. Um deles foi Henrique III de França  (irmão e amante da perturbante Rainha Margot e amado da Rainha Virgem, Elizabeth I). Aos 25 anos, no auge do sucesso, juntou-se ao salão literário do seu patrono Domenico Venier, poeta e magnata, tornando-se assim membro dos literati venezianos: participava em discussões e antologias - como poetisa e editora -  e em 1575 publicou Terze Rime, uma colecção que incluía 17 poemas da sua autoria...e os restantes, versos a ela dedicados. Muitos dos seus textos celebravam abertamente a sua condição de cortesã e tinham um conteúdo atrevido; outros defendiam os direitos da sua classe e das mulheres de modo geral, ou respondiam a tentativas de provocação a ela dirigidas. Era ainda uma intérprete talentosa: sabia música, tocando admiravelmente alaúde e spinetta (uma versão anterior do cravo). Uma mistura de sprezzatura, ousadia, inteligência e discrição, Veronica revelava-se - não obstante o seu estilo de vida - defensora de uma certa moral e modéstia femininas. Nas suas cartas, publicadas em 1580, admoesta uma mãe que pensa fazer da filha uma cortesã, e lamenta que certas modas demasiado provocantes sejam usadas pelas jovens. O seu triunfo, porém, seria toldado por várias desgraças. 
photo of 16th c. chopine held at the Brooklyn Museum (New York)
"Chopines"  usados pelas cortesãs e  fidalgas venezianas
Retrato de Veronica na capa do seu 1º volume de poesia, Terze Rime














Durante  um surto de peste foi obrigada a deixar a cidade por dois anos. Quando regressou, viu os seus bens saqueados. Mais tarde, um pretendente despeitado denunciou-a à Inquisição com falsos testemunhos de bruxaria- um problema comum para as cortesãs venezianas, frequentemente acusadas de corromper os bons costumes. Eloquente, defendeu-se com graça e habilidade, ganhando a causa. Na contenda, não lhe faltou o apoio dos seus amigos poderosos. Mas a sua fortuna e reputação nunca recuperariam deste revés e por morte dos seus patronos, os seus meios diminuíram substancialmente. Até à morte levou uma existência relativamente obscura, pouco facilitada pelos seus conterrâneos: viu recusado o seu projecto de criar um lar para mulheres desvalidas, cortesãs retiradas e seus filhos. Para a história, ficaram os seus belíssimos poemas e os retratos que inspirou:


(Um desafio colocado a um amante)


Non piú parole: ai fatti, in campo, a l' armi. 

ch' io voglio, risoluta di morire, 
da si grave molestia liberarmi. 
Non so se' l mio « cartel » si debba dire, 
in quanto do risposta provocata: 
ma perché in rissa de' nomi venire? 


Mais conversa não! À liça, ao campo de batalha, às armas!
Pois resolvida a morrer, de grave mal me libertarei.
Não sei se lhe chame desafio, pois respondo a uma provocação
Mas porquê duelar  por causa de palavras?


 












Thursday, May 31, 2012

D. Leonor - o martírio de uma grande senhora

                           


(Nos momentos difíceis, costumo fazer o exercício de me lembrar de pessoas de muito mais mérito e categoria do que eu que passaram por transes bem piores e os suportaram com bravura. Não para me comparar, mas para me conduzir de acordo com bons exemplos e suportar as provas do dia a dia com paciência...).

Naquela fria manhã de 13 de Janeiro de 1759, Portugal perdia, da forma mais trágica e sangrenta, uma das suas últimas grandes damas: D.Leonor, 3ª Marquesa de Távora.
 Tinha sido uma longa luta - ainda bem que findava. No cárcere não sentira o alívio das lágrimas; a força necessária para resistir de cabeça erguida tinha-a consumido até à exaustão, como uma corda demasiado esticada. De consciência limpa e despojada dos bens vãos deste mundo, não possuía sequer a desgraçada necessidade de fazer quaisquer disposições. A única coisa que a molestava, que lhe recordava que vivia ainda, era a dor infinita pela sorte dos seus.  Todas as emoções que experimentara -  medo, enxovalho, brio ferido, a mágoa da ingratidão pelos valiosos serviços prestados a El Rei seu Senhor, revolta e indignação de ver tudo aquilo em que acreditava esmagado aos pés daqueles que mais desprezava, por amor de desvarios que a repugnavam até às fímbrias do ser - à hora derradeira mereciam-lhe apenas um sorriso de ironia e desdém. Se algum pecado cometera, fora o do orgulho: nem ela, nem o marido, tinham sabido dissimular e fingir, vergar-se aos que não conheciam senão ambição e cobiça com mesuras e sorrisos, deixar que a honra da sua Casa fosse arrastada pela lama para atender ao capricho sensual de Sua Majestade. Outros que fossem, teriam incitado a paixão do Rei pela sua bela nora, e colhido os benefícios da vergonha. Poderia ter feito outra coisa? Poderia ter agido de outro modo? Conseguiria fazê-lo? Morreria mil vezes, mas procederia de modo igual. Porém, fora também o orgulho, mesclado de cândida confiança, a razão da sua perda: se não tivesse insistido em lutar contra forças tão maiores que a sua, se tivesse convencido a família a exilar-se longe da corte, se não esperasse um comportamento honrado e digno de quem mais devia dar o exemplo...

Muito podem o furor e o vício! 

Que força imparável é um homem determinado a arrastar-se para a perdição - mesmo quando lhe corre nas veias sangue real.

 Via agora que ela e os seus não morriam sozinhos - com eles partia um velho mundo para o qual já não havia lugar. Os valores de antanho arderiam no cadafalso e também eles seria lançados ao vento. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Honras e grandezas pouco lhe importavam, maculadas como estavam naqueles tempos de pecado e de vaidade. Não tinha mesmo a certeza se desejava estar no mesmo pé dos novos senhores do Reino: os inimigos da Fé, da pureza, das leis mais sagradas. O triunfo deles não chegava sequer a feri-la por dentro. O seu coração habituado a não quebrar também não aprendera a torcer.
   Ao atravessar em silêncio e olhando em frente, sem nada ver, a multidão furiosa, mantinha ainda a beleza que lhe valera o título de uma das três "graças da corte". Gasta, cansada, abatida, com o mesmo vestido que trazia no dia em que começara o seu longo martírio, os cabelos já grisalhos em que ainda se viam vislumbres da esplêndida cabeleira loura, havia na sua resignação evangélica, na sua serenidade inquebrável, uma majestade sobrenatural - como se, privada dos atavios e sinais de grandeza deste mundo, a beleza da sua alma fosse mais evidente.
 Alguns desgraçados, amontoados para a ver passar, escarneciam-na e insultavam-na, abanando a cadeirinha em que a transportavam de mãos atadas, apesar dos esforços da Guarda para conter a populaça. Pela primeira vez, tinham a oportunidade de achincalhar um alvo - habitualmente inatingível-  da sua inveja e ressentimento. Anos de ódios contidos, de injustiças sofridas, de insinuações veladas eram expiados naquele instante, lançados no rosto daquela senhora, mãe e avó, que nenhum mal lhes causara.

                                          "Perdoai-os, Senhor, pois não sabem o que fazem..."

Também o Divino Redentor tinha sido torturado, injuriado, escarnecido e arrastado ao patíbulo...Também Ele não soltara um queixume mas carregara a sua Cruz, sem ter sequer o privilégio - como ela, D. Leonor -  de uma liteira que o conduzisse à morte. 
E no entanto, na assistência que se juntara eram muitos os olhos cheios de lágrimas e os que teriam gritado palavras de conforto ou tirado o chapéu à sua passagem, não fosse o pavor que lhes tolhia a caridade. 
Também o verdugo não sabia o que fazia, quando a passeou pelo patíbulo para lhe descrever, em detalhe, os horrores que iria praticar dali a pouco sobre os seus entes queridos. Quanta crueldade, quanto sofrimento será preciso para deformar uma alma a tal extremo? 

            "Deus permita que saibam morrer como quem são"

Foi a sua resposta numa voz tranquila, clara, firme. E foi sem um lamento que se sentou, como num trono, para enfrentar a eternidade. 

                              " Não me descomponha" - disse ao carrasco que procurava  destapar-lhe o pescoço, para melhor desferir o golpe. 
Foram das últimas palavras que lhe ouviram. Uma oração murmurada e partia para sempre, com a dignidade e bravura da sua estirpe. Apenas quando tudo estava acabado, quando  lhe retiraram a venda, viram que havia lágrimas nos seus olhos cerrados. Finalmente.







Tuesday, May 29, 2012

Spartacus, escravos e lacaios‏

                                              
Finalmente consegui deitar a mão a um exemplar do Spartacus de Howard Fast, que deu origem ao filme de Stanley Kubrick. Tinha lido excertos há muitos anos e a prosa 
fascinou-me na altura, mas nunca o encontrei à venda e por um motivo ou por outro, não me lembrei de o encomendar. Enfim, só tenho pena que os meus afazeres desta semana me tenham impedido de me sentar a ler como gosto, de uma assentada e todo de uma vez. Poucas coisas são tão frustrantes para mim como "petiscar" um livro.
 Fiquei surpreendida pela paixão posta no romance - julgava-o mais asséptico, mais poético, bonitinho. Enganei-me: é cru, visceral, violento, de uma sensualidade brutal. Nada esconde dos corpos nem das almas das personagens - os jogos e regras sociais em que se movem, as suas feias paixões, os vícios degradantes, as aspirações mais nobres - tudo isso desfila ante os nossos olhos com admirável fluidez e poder de análise. Quanto ao rigor histórico, haveria algumas coisas que dizer, começando pela necessidade de isolar os sentimentos políticos do autor para realmente apreciar a sua narrativa. E esta é soberba, se nos abstrairmos das metáforas que pintam Spartacus como uma mistura entre Jesus Cristo e Che Guevara. Sempre achei que saber demasiado sobe o contexto em que um romance é escrito destrói o prazer de o ler, e este é bem o caso. Se o apreciarmos como simples novela histórica, partindo para a sua leitura com um misto de ingenuidade e espírito crítico, Spartacus é arrebatador. De resto, um grão de sal é indispensável para apreciar qualquer adaptação de factos reais, como a  série da Starz  (que apesar de tudo, segue mais de perto a escassa biografia do gladiador, limitando-se a preencher as lacunas históricas com licenças poéticas).


Spartacus- Escultura de Denis Foyatier, 1830 - Museu do Louvre 

  A verdade é que  pouco se sabe sobre o verdadeiro Spartacus: dizem que era Trácio, mas isso também podia dever-se ao estilo em que lutava, o Thraex. Terá nascido livre (o que explicaria muita coisa) ou sido um cativo de guerra; insistia-se que servira como auxiliar no exército de Roma, tornando-se mais tarde desertor e salteador. Foi escravizado com a sua mulher, sacerdotisa de Dioniso (o que aponta novamente para a Trácia ou pelo menos, uma origem helénica). Esta tinha previsto que o marido estava destinado a feitos trágicos e grandiosos. A certa altura, escapou com um número apreciável de gladiadores e outros escravos da escola de Batiatus, em Cápua, iniciando a Terceira Guerra Servil, que faria tremer a República.  
Supostamente morreu em combate, mas o seu corpo nunca foi encontrado. É certo que a maior parte das fontes disponíveis foram escritas muitos anos após a morte de Spartacus - aos seus contemporâneos, não interessava divulgar as tropelias de um simples escravo que andava a virar Roma de pantanas. Como qualquer história excepcional, à falta de dados concretos ganhou contornos de lenda. Ninguém sabe em pormenor como seria Spartacus, o que deixa lugar à imaginação e permitiu que ao longo dos anos, as morais do conto fossem sendo reivindicadas como inspiração pelas mais variadas áreas e ideologias - da política ao desporto. 

            O mito de Spartacus tem apaixonado gerações, e apela a cada um de modo diferente.
A mim encanta-me a figura de um homem que embora forçado à escravatura, nunca cedeu ao servilismo abjecto da condição que lhe foi imposta. Talvez Spartacus fosse um nobre chefe de clã na sua terra, obrigado a servir novos ricos romanos, indignos de lhe limpar as sandálias. Nunca saberemos - mas sabemos que agiu como tal.
 Ninguém está livre de cair numa eventual "escravatura" - situações de força maior em que somos obrigados a tolerar coisas que consideramos injustas ou desagradáveis. Um emprego detestável, um revés de fortuna, pessoas mal formadas em lugares de destaque que esmagam os profissionais sob o seu comando, muitos deles de melhor índole e educação do que a sua. Felizmente estes momentos são transitórios e não uma sentença para a vida, mas o sentimento é semelhante. O que distingue a cepa de cada um é a sua incapacidade para vestir a pele do escravo, para agir e pensar como um.
 Indivíduos criados com sentido de brio, que possuem uma certa distinção inata e um sentido do próprio valor poderão ser obedientes quando as circunstâncias o exigem e até obedecer com graciosidade - não há nada de humilhante em saber estar no seu lugar. Conscientes da dignidade humana, sabem como Sun Tsu que ser humilde com os superiores é uma obrigação, com os colegas uma cortesia e com os subalternos, nobreza. Em casos extremos poderão ter o espírito quebrado, mas nunca caem na baixeza. Sabem estar em toda a parte, porque têm a certeza de quem realmente são e de onde vieram. Mas jamais se rebaixarão à subserviência ignóbil e tão pouco ficarão de joelhos, deslumbrados, ante o primeiro figurão que lhes aparecer. Comportamentos desprezíveis não os atingem nem os contaminam, pois vêem que quem os pratica só pode ter vindo da lama e dela dificilmente sairá, por mais alto que suba. 
  "Nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" lá diz o povo. Quem abriga sentimentos vis de lacaio absorveu-os no berço, deu-lhes muito uso ao longo da vida e não os perde por mais que a fortuna lhe sorria. Gosta de humilhar quem tem o azar de se encontrar às suas ordens e não hesita em humilhar-se a si próprio (engraxando, bajulando e lambendo botas) perante quem lhe possa trazer vantagens. Como dizem os americanos, podemos tirar a rapariga do bairro de lata, mas não podemos tirar o bairro de lata da rapariga. Há quem nasça escravo, goste de o ser e assim continue, sem haver Spartacus que lhe acuda... 

Monday, May 28, 2012

Retrato de um playboy


           
O Conde de Guiche, Guy Armand de Gramont, ficou célebre como um dos homens mais belos da corte de Luís XIV e um dos maiores libertinos do século XVII. A sua curta vida - morreu em 1673, aos 36 anos - foi repleta de fausto, aventuras e escândalos. O belo Armand, flor nefasta e venenosa, era uma estranha combinação de beleza e maldade, ingenuidade e depravação, futilidade e espírito, requinte e crueldade, gosto e rudeza.
 Nasceu em 1637, filho do Duque Antoine III de Gramont-Toulongeon, Marechal de França e de uma sobrinha do Cardeal Richelieu,  Françoise-Marguerite du Plessis de Chivré. A sua irmã, Catherine Charlotte, tornou-se Princesa do Mónaco ao casar com Luís I, mas apesar de lhe ter dado seis filhos, preferia viver galante e desregradamente na corte francesa: foi uma das muitas amantes do Rei-Sol.
  Podemos especular que Armand tinha uma certa tendência para a malandrice a correr-lhe nas veias, uma inclinação familiar para a imoralidade. De porte militar e garboso, o estonteante jovem parecia-se, segundo testemunhos da época, com "um herói de novela, em nada semelhante aos outros homens".  Este encanto marcial, a que aliava uma extrema elegância no modo de vestir, não mascarava a sua perspicácia: ele não era uma cabeça de vento, embora gostasse de o aparentar. De resto, nem sempre dirigia a inteligência de que era dotado para os propósitos mais edificantes; bem pelo contrário.
Apesar de ser bem vindo em toda a parte pelo nome ilustre e linda presença, a sua companhia não era das mais agradáveis: mordaz e espirituoso, tinha um verdadeiro prazer em ser mau para os outros, vexando-os com observações acutilantes e grosseiras. 
  O seu humor negro e arrogância contribuiam para uma certa allure superficial, mas o modo autoritário e desdenhoso como tratava os seus pares ofuscava-lhe as qualidades: era apenas uma cara bonita, que ninguém levava a sério. A própria mulher, Marguerite-Louise-Suzanne de Bethune Sully, com quem casou em 1658, não o podia aturar senão de vez em quando.  Isto porém, não parecia incomodar a maioria dos  amantes  - homens e mulheres - que lhe caiam nos braços em ligações fugazes. Armand juntou-se à entourage do irmão mais novo do Rei, Philippe de França. 
A preferência do Duque de Orleães por homens bonitos era bem conhecida e o Conde de Guiche rapidamente conseguiu cair-lhe nas boas graças. 
File:Henriette d'Angleterre as Minerva holding a painting of her husband Philippe de France, Antoine Mathieu.jpg
Henriette e Philippe, os amantes de Armand 
Não satisfeito com isso, a sua voracidade estendeu-se à esposa do amante, a bela e volúvel Henriette de Orleães - que carregava consigo o encanto trágico dos Stuart e um desregramento moral a condizer com o do marido. Foi uma fácil conquista e entenderam-se às mil maravilhas. Philippe, porém, era extremamente ciumento em relação à mulher - e ficou louco de fúria ao ver-se duplamente traído, para divertimento da corte inteira. Nesses jogos de intrigas, ficaria prejudicada a ingénua Louise de La Valliere, camareira de Henriette (e entretanto amante do Rei) de que ambos se queriam vingar: Armand, porque ela não tinha dado troco aos seus avanços; Henriette, por ciumes do cunhado. Louise foi afastada como desejavam, mas quando o Rei descobriu a verdade ficou tão furioso que castigou Armand por ser alcoviteiro e meter-se onde não era chamado: em 1662 foi exilado por conspiração.
Esta queda em desgraça acabaria por trazer à superfície a sua coragem inata e grande talento militar: lutou pela Polónia contra os Turcos e combateu os Ingleses ao lado dos Holandeses. Dez anos depois da sua expulsão, juntar-se-ia finalmente ao Rei na Guerra da Holanda, em que se cobriu de glória. Finalmente ultrapassados os erros da juventude, cumpria a missão para que fora educado, a condizer com o seu nome e figura de Apolo. Foi sol de pouca dura, porém: um ano depois morria na Alemanha, ainda jovem e belo. A sua mulher não o chorou: pouco depois, casava com o Duque de Lude e assumia uma importante posição na corte. É que os playboys são como os acessórios: brilham, mas não são essenciais...


Thursday, May 10, 2012

Catfight na carruagem de Luís XIV‏

Luís XIV (Samuel Theis)

A multidão de maîtresses en titre dos Reis franceses é uma colorida amálgama de nomes e peripécias, capaz de pôr à prova a memória dos mais empenhados curiosos. Entre elas, uma das poucas que considero respeitável e admiro francamente é a inteligentíssima e deslumbrante Diana de Poitiers, o grande amor de Henrique II (1519-1559). Não só era uma grande dama - por nascimento e por mérito - como soube sempre colocar-se no seu lugar, gerindo hábil e diplomaticamente as (justas, apesar de tudo) provocações de Catarina de Medici, senhora que ninguém gostaria de ter como inimiga.  Mas essa verdadeira e sincera paixão aconteceu numa outra época, em que o ideal do amor cortês, não deste mundo, ainda estava na moda...
Falar da vida pessoal de Luís XIV (1643-1715) e Luís XV (1715-1774) é um assunto inteiramente diferente: é necessário observá-las à luz do tempo e dos seus costumes. Este foi um tempo de sonho e pesadelo febril, dourado e frenético, em que ideias de tempos idos - naturalidade, simplicidade, varonia, suavidade - eram preteridas em prol do requinte, da graça de maneiras, da riqueza de linguagem, da subtileza e sagacidade de raciocínio e de um luxo elaborado. No caso da corte, isto traduzia-se numa complicadíssima etiqueta e num modo de vida alegre, mas claustrofóbico. Senhor absoluto, o Rei não tinha o mais elementar direito à privacidade. As suas tarefas mais íntimas eram asseguradas e observadas por cortesãos ávidos dos seus favores. Um passo em falso podia ditar a caída em desgraça. Numa época em que os jogos de poder político passavam oficialmente pelo leito real, os amores do Rei já não se tratavam de se agradar espontaneamente de fulana ou beltrana, e enveredar por um affair mais ou menos clandestino: as "distracções" reais tornavam-se um assunto de Estado, e como tal eram tratadas. A libertinagem estava instituída, com uma formalidade nunca vista.
A primeira paixão de Luís XIV foi a impetuosa Maria Mancini, que não passaria de um amor platónico. Seguiu-se Louise de La Vallière, uma jovem religiosa e tímida, colocada no seu caminho para contrariar os rumores de adultério do Rei com a cunhada, a bela e escandalosa Henrietta de Inglaterra. Ao longo de cinco anos, Louise terá sido mais uma amante secreta do que uma maîtresse en titre: não era extravagante, nem exigente. Por escrúpulo, recusou mesmo um casamento de fachada, prática comum para dissimular este tipo de ligações.


File:LouiseDeLaValliere01.jpg
Madame de La Vallière




 Mas a sua piedade religiosa - que lhe causava terríveis remorsos - e discrição (recusou-se a revelar ao Rei as relações da sua cunhada com o atraente Conde de Guiche) acabariam por ditar a sua queda em desgraça. Inimigos na corte levaram o romance aos ouvidos da Rainha, que passou a tratar Louise duramente. O escândalo público levou-a a ser temporariamente afastada. Porém, o pior estava para vir: por esta altura, Luís começava a interessar-se pela perturbante Madame De Montespan, que tanto Louise como a Rainha tinham considerado até então uma verdadeira amiga, e que era em tudo diferente de La Vallière. Louise reagiu inicialmente com lágrimas; mas perante o inevitável, quis afastar-se;  procurou por várias vezes refugiar-se num convento. Debalde: possessivo, controlador, o Rei não queria abrir mão dela e impediu-lhe os movimentos uma e outra vez. Podia já não lhe ser fiel, mas desejava mantê-la por perto. Para evitar mexericos - e as queixas do Marquês de Montespan, que queria a mulher de volta - o Rei exigiu inclusive que as duas rivais ocupassem os mesmos apartamentos. Quando viajava, obrigava as três mulheres da sua vida- A Rainha Maria Teresa, Mme. De Montespan e Mme. de La Vallière - a seguir na mesma carruagem. Podemos imaginar o ambiente prazenteiro destas jornadas...



Madame de Montespan

 Extravagante e caprichosa, Montespan chegou a pedir que a pobre Louise lhe servisse de aia. Mortificada, mas obediente ao ainda amante, Madame de La Vallière aniu com graciosidade. Incessantemente, fazia penitências e implorava a Luís XIV para que lhe permitisse deixar o palácio. Mas o monarca, se a cobria de presentes de consolação (concedeu-lhe o título de Duquesa e legitimou a filha de ambos perante o parlamento) parecia determinado a fazê-la sofrer todas as afrontas e humilhações. Quando foi obrigada a ser madrinha da primeira filha do ex amante com Athenais de Montespan, a sua saúde começava a dar sinais preocupantes. Foi a gota de água que fez transbordar o copo: em 1671, tentou fugir para o convento de Ste Marie de Chaillot, mas obrigaram-na, por ordem régia, a regressar mais uma vez. Só três anos depois lhe foi dada permissão para ingressar num convento Carmelita de Paris, com o nome Irmã Luísa da Misericórdia. Quando Madame de Maintenon (que viria a ser a mais querida companheira de Luís XIV) lhe perguntou se não receava os rigores da clausura, Louise respondeu, com mágoa, "quando estiver a sofrer no convento só terei de me lembrar do que me fizeram penar aqui para o sofrimento parecer leve". Antes de partir, ajoelhou-se aos pés da Rainha, pedindo "perdão público pelos seus públicos crimes". O trauma e os remorsos assombra-la-iam pelo resto da vida. Quando o seu  filho morreu, disse "choro mais pelo seu nascimento do que pela sua morte".   
 Anos mais tarde, quando já tomara os votos finais, a rival que lhe amargurara a existência, Madame de Montespan, viu os papéis inverterem-se, ao ser atormentada pela atrevida Madame de Fontanges. Athenais sentia agora na pele o que fizera sofrer Louise e Maria Teresa. O desespero leva-la-ia ao escândalo do "Caso das Envenenadoras" e ditaria o seu afastamento do Rei. Arrependida e infeliz, foi visitar a antiga inimiga - que lhe perdoou as afrontas e a aconselhou sobre os meios de procurar a Graça Divina.
 Louise nunca se arrependeu de uma mudança de vida tão radical. Segundo a própria, a sua fraqueza "não lhe trouxera alegrias algumas, mas apenas grandes desgostos". 
 A história não nos diz o que ia no coração de Luís XIV - mas sabe-se que as contendas que fomentava entre tantas mulheres lhe perturbavam a paz de espírito. Chegou a pedir a Mme. de Maintenon que o ajudasse a acalmar os ânimos exaltados das favoritas. A única que não lhe causou dissabores foi a legítima esposa, de quem disse " o único desgosto que me deu foi este" no dia da sua morte. 
 Mesmo vendo os factos à luz do seu tempo, interrogo-me se uma prisão dourada valeria sofrer tais torturas. Há coisas que não podem ser compensadas pelo prestígio, pelo luxo, nem pelas riquezas deste mundo...







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