Gilles de Rais, companheiro de Joana D´Arc, seria classificado aqui no Imperatriz Sissi como um sexy bad boy, não fosse a sua reputação - duvidosa, salientemos - mais digna de um filme de terror. O Marechal de França, e herói nacional, foi a inspiração para o famoso conto de Perrault, O Barba Azul. Juntamente com Erzbeth Bathory, a alegada Condessa Sanguinária, o nobre francês é considerado um precursor do serial killer moderno. Controverso, complexo, sensual, a sua história é um misto de bravura, descida aos Infernos e redenção: ingredientes obrigatórios para lendas.
Membro da Casa de Montmorency-Laval Gilles, Barão de Rais, nasceu em 1404. Embora aparentemente tivesse tudo para ser feliz - era rico, poderoso, belo e inteligente, com uma sensibilidade aguçada - a morte dos pais terá sido decisiva para a sua personalidade futura, e para a consequente queda em desgraça. Aos 11 anos, ele e o irmão, René, de quem era muito amigo, ficaram à guarda do avô paterno, um homem excêntrico e orgulhoso, que se dedicou a fazer de Gilles um monstro. Transmitiu-lhe os valores da soberba e do poder e aos 14 anos,
armou -o cavaleiro. Nos primeiros tempos porém, o avô concentrou as suas atenções em René, o que permitiu a Gilles passar o tempo escondido na enorme biblioteca da casa, devorando sem supervisão todos os livros que lhe apeteciam: as histórias trágicas da Roma Antiga eram as suas preferidas. Mergulhado em tal ambiente, não tardou em mostrar tendências violentas - aos 15 anos matou um amigo num duelo, mas dada a sua condição elevada o crime ficou sem castigo. Pensou então em aproveitar os seus impulsos naturais para uma bem sucedida carreira militar: dizia-se que em batalha era transfigurado por uma fúria guerreira tal que nem os companheiros o reconheciam. Entretanto o avô manobrava nas sombras para lhe arranjar um casamento vantajoso. Após várias negociações falhadas a escolha recaiu sobre uma fidalga e herdeira bretã, Catherine de Thouars. O casamento seria um fracasso: Gilles nunca escondeu não amar a mulher e apenas teve com ela uma filha, Marie. A guerra era o seu único amor: foi comandante do Exército Real e os seus feitos durante a Guerra dos 100 anos foram incontáveis. Lutou ao lado de Joana d´Arc, a quem idolatrava. Ela tinha o poder de dirigir os seus impulsos para o bem, de o inspirar ao caminho da rectidão. Rezam os mexericos do tempo que Gilles estava profundamente enamorado da Donzela: esteve ao seu lado quando foi posto fim ao Cerco de Orleães, e na coroação de Carlos VII. Nesse dia, foi elevado a Marechal de França, com direito a juntar a flor-de-lis às suas armas. O trágico fim de Joana d´Arc, no entanto, deitou por terra os seus bons propósitos. Gilles terá dito que com Joana morrera a sua razão de viver. A partir daí lançou-se numa vida de dissipação febril, de desequilíbrio emocional e de conflito religioso. Um ano após a morte da Donzela, o seu avô, horrorizado com a fera que criara, deixou a sua armadura e espada ao neto René, num acto de desprezo público pelo comportamento de Gilles.


