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Friday, October 20, 2017

Palavra (ou insulto) da semana: Rebimbombalho



Certa vez, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, andávamos a brincar com a televisão ligada como pano de fundo. Não me recordo qual era a nossa brincadeira, mas estava a dar um daqueles programas (Top qualquer coisa, creio) que passava toda a música popular portuguesa que andasse para aí na boca do Zé Povinho a ganhar discos de platina e que fazia as delícias de todo o emigrante que vinha a Portugal comprar cassetes à beira da estrada- ou seja, tudo quanto era pimbalhada, com letras que eram um autêntico fartote de rir. 

De repente, estacámos e desatámos os dois à gargalhada. É que tocaram uma cantiga tão cómica que conseguia a proeza de se destacar das outras. 




Não me recordo de quase nada (e com imensa pena minha, não consigo encontrar a música para vos mostrar, prova provada de que, contrariamente à crença,  nem tudo anda no Youtube) mas era de um desses grupos muito pitorescos com organistas e bailarinas que vão actuar às aldeias remotas (Renovando qualquer coisa ou Novo não sei quê) e contava a história de uma rapariga muito serigaita que escandalizava toda a gente lá na terrinha porque "ia à discoteca sozinha de perna ao léu" e que fazia o povo dizer " mas cá para mim ela vai/ela vai de rebimbombalho//ela vai de rebimbombalho/ela vai de rebimbombalho".  Assim como quem diz "cá para mim, esta vai acabar mal". 



Foi o descalabro porque o senhor mano sempre conheceu o meu ponto fraco, que é ter um ouvido de tísica e uma memória auditiva de tremer, que ainda hoje me faz decorar refrões e estribilhos mesmo contra a minha vontade. Podem imaginar as vezes que ele me fez cantarolar todas as cantilenas parvas ou ridículas que ouvíamos, por mais que eu tentasse esquivar-me dizendo que já não me lembrava.


- Mas anda lá....canta lá aquela...como é que era? - insistia o mafarrico até me vencer pelo cansaço. 


E  pronto, a cantiga da moçoila que ia de rebimbombalho ficaria definitivamente a fazer parte dessa lista negra de Sissi, a jukebox andante.

No entanto, continuávamos intrigados com o que vinha a ser "ir de rebimbombalho". Tirávamos pela pinta que não devia ser nada de bom, mas nunca tínhamos ouvido tal palavra (e de facto, se a googlarem só aparece como o nome de uma banda folk portuguesa. Existe uma expressão transmontana semelhante, rebimbómalho, mas essa significa algo (sic) "de arrasar").



A avó, que entretanto nos ouvira a trautear aquilo, lá nos explicou o que vinha a ser um rebimbombalho... pelo menos lá na vila dos nossos antepassados, onde o termo era usado como adjectivo pouco lisonjeiro. Ir de rebimbombalho ela nunca tinha ouvido, mas era costume dizer-se, perante uma coisa ou pessoa desarranjada, desleixada ou de maus costumes, enfim, face a uma relaxaria qualquer: "olhem para aquilo...parece um rebimbombalho que para ali anda!". 




Também podemos ser criativos e tentar fazer uma análise etimológica da palavra, vá: "balho" é um termo rural/arcaico para "baile" e "rebimbombar" pode ser alguma corruptela de "ribombar" sugerindo alguma coisa inquieta e barulhenta, desorganizada, levada aos trancos e barrancos. Em suma, uma estúrdia pegada.

Seja como acção ou como adjectivo para classificar alguém ou alguma coisa, ir de rebimbombalho, ou ser/parecer um rebimbombalho não é decerto uma coisa bonita. 




Portanto, seguindo essa ordem de ideias uma mãe ou professora poderá ralhar às crianças dizendo: "olhem que eu não admito cá rebimbombalhos!" ou "esta casa/sala de aula não é um rebimbombalho!". Ou uma jovem poderá dizer a um D. Juan com intenções pouco sérias: vá bater a outra porta, que comigo não há relacionamentos casuais nem rebimbombalhos desse género (ou seja, como quem emprega o termo "farfalho", outra palavra exótica de que já falámos aqui).

Mas também é útil usar a palavra para nos referirmos a uma pessoa mal comportada ou mal apresentada. Portanto, sintam-se livres para, caso tenham necessidade de insultar um desafecto ou de avisar uma pessoa doidivanas, para sacar de um " você é uma desgraça, um rebimbombalho completo!" ou "se continuas por esse caminho, vais de rebimbombalho que é um gosto".


Saturday, September 19, 2015

Canções que me intrigam # 3: o carrapito da Dona Aurora



Acreditam que desde que publiquei este post , a cantiga d´O Carrapito da Dona Aurora não me sai da cabeça? Vou a fazer qualquer coisa e zás, lá me sai "o Carrapito da Dona Aurora/é tão bonito /fica-lhe bem". 



Sempre achei muita graça à canção, mas está a começar a entrar-me nos nervos: não só porque é aborrecido ter uma cantilena a passar-nos na mente non stop (estilo playlist irritante de rádio com os sucessos mais descartáveis do momento) mas porque O Carrapito da Dona Aurora é uma daquelas músicas que desde pequena me levanta montes de perguntas.

 Tal como a Moda das Tranças Pretas, o Lá em cima está o Tiro-liro-liro/ cá em baixo está o tiro liro ló (que nunca percebi quem ou o que eram), o Badun-badun -badero,  o Baile da Dona Ester ou o Malhão-malhão (estou para descobrir até hoje quem seria o bon vivant cuja vida era comer, beber e passear na rua) e outras. 

Na infância a Zumba na Caneca também me intrigava imenso mas enfim, mais tarde lá percebi que era alguém a beber para esquecer um amor que queria tanto e o angustiante dilema ficou resolvido.

What the hell? A nossa música parece especialista em letras estilo charada. 

Voltando ao  Carrapito da Dona Aurora, sempre me perguntei se este ode ao penteado da senhora seria o relato de uma peripécia local que aconteceu mesmo. E se é o caso, a letra é a fazer troça ou a lamentar o ocorrido? Os postiços estavam terrivelmente na moda no sec. XIX (semelhantes às extensões clip in que agora se usam) e o próprio Eça de Queiroz lamentava o seu excesso, que não só estragava a elegância como fazia pesar a cabeça e as ideias às mulheres; por isso, talvez a rima seja uma espécie de crítica social com origem nesse tempo.  

E de qualquer forma, como é que algo tão privado como as extensões de cabelo de uma mulher anda na boca do povo?

       "Ai dona Aurora/soube-se agora/que era postiço/e ninguém sabia"


 Mas a parte pior é que o episódio deu nas vistas porque o culpado do desaparecimento do precioso carrapito, que era tão bonito e tinha tanta graça, foi o próprio marido da D. Aurora


"O carrapito da Dona Aurora/quando dormia foi-lhe tirado/
foi o marido da Dona Aurora/ que o deitou fora incomodado." 


Porquê, homem, porquê uma maldade dessas? 

 É sabido que maridos e namorados, quando feridos no seu brio, no seu orgulho ou, mais comum, no seu mimo, podem ser umas criancinhas e vingar-se das maneiras mais infantis. Talvez quisesse retaliar por alguma afronta que a esposa lhe tivesse feito. Ficasse ciumento da atenção que a bela cabeleira da Aurorita provocava junto dos outros. Pensasse, como Eça, que os postiços eram ridículos. Ou andasse fartinho de que a mulher não tirasse o toutiço nem para dormir! Também não podemos pôr de parte a hipótese de a D. Aurora ter casado com um brincalhão, desses que adoram pregar partidas e não levam nada a sério. O certo é que se sentiu incomodado e nem teve hombridade de lho tirar na cara. Esperou que ela adormecesse e sorrateiramente, surripiou-lho.

 De todo o modo, fosse hoje e a D. Aurora podia fazer queixa da cara metade por violência doméstica: estragar objectos pessoais do outro conta como forma de intimidação. Havia de ter graça inventar-se outra estrofe com o marido a ser interrogado pelas autoridades na esquadra e o caso a acabar nas páginas do Correio da Manhã...


Wednesday, September 17, 2014

Coisas práticas que se encontram nos contos de fadas #1: a "it bag" da Pele-de-Burro


Em algumas versões mais obscuras da história A Princesa Pele de Burro de Perrault (que é, por sua vez, uma versão condensada de contos mais antigos, como é costume nestas coisas) aparecia um bruxedo espectacular. Claro que as Fadas Madrinhas, génios e companhia são sempre cheios de truques que nos davam muito jeito a todos, mas quando li este em pequena fiquei mesmo encantada: para quem está esquecido dos seus contos de fadas (o que é um erro, porque não se deve deixar morrer a imaginação e as histórias de encantar são cheias de lições valiosas) eu refresco a memória.

 A Princesa Pele de Burro é, de todas as princesas com pouca sorte, a mais infeliz, com problemas familiares daqueles que nos chocam quando aparecem nas manchetes do Correio da Manhã. Aflita para fugir à desgraça do "amor violento [que] pouco liga à prata e ao ouro desde que possa satisfazer-se" a desventurada infanta pede ajuda à Fada Madrinha.



 Graças ao engenho desta, a nossa heroína consegue três vestidos magníficos e impossíveis (um da cor do Tempo, outro da cor da Lua e um terceiro mais brilhante que o Sol) mais uma pele de burro. Vendo-se obrigada a fugir e a usar a pele do animal como disfarce, não se julgue que vai sem bagagem. A boa e esperta Fada arranja-lhe a it bag mais fabulosa de todos os tempos: um baú que segue a dona por baixo do chão enquanto ela viaja, e aparece quando é preciso com um toque de varinha mágica!


"«Eis», prosseguiu ela», uma arca onde vamos meter todos os vossos vestidos, o vosso espelho e produtos de beleza, assim como os vossos diamantes e rubis.  Dou-vos ainda a minha varinha; se a levardes na mão, a arca seguirá o vosso caminho escondida sob a terra.
 E se a quiserdes abrir, mal a varinha tenha tocado a terra, a arca abrir-se-á perante os vossos olhos".


 Já imaginaram viajar de mãozinhas a abanar, só com uma varinha, e ter uma mala mágica que transportasse o nécessaire com o secador e toda a tralha, os sapatos, os porta fatos, o computador e tudo o que quiséssemos meter lá dentro? Sem canseiras nem risco de roubo nem nada? Para não falar que sendo mágica devia adaptar-se a toda a tralha que nos lembrássemos. Isto resolvia-me uma data de problemas. Não sei onde anda essa Fada, mas a Louis Vuitton ou outra casa especializada precisa de a contratar urgentemente. Podia ser Samsonite para quem prefere uma versão prática, não interessa: quero essa arca!








Monday, July 8, 2013

Ainda uma grande verdade do filme de ontem***

                
 
"A wolf may be more than
he seems. He may come in many disguises.The wolf that ate your sister was hairy on the outside.
But when she died she went straight to Heaven. The worst kind of wolves are hairy on the
inside and when they bite you, they drag you with them to Hell. "
 
 
 
 
*** (Que ganhei coragem para ver aqui, e é brilhante).


O homem dos vinte sorrisos

 
Sabem aqueles filmes que vemos na infância e nos assombram para o resto da vida? Esta semana, quando procurava outra coisa, deparei-me com um deles, cujo nome já nem recordava. E quando li a sinopse, fez-se luz e fui resgatar ao fundo da memória detalhes esquecidos - precisamente aqueles que me marcaram. Tratava-se de The Company of Wolves, que afinal não era um filme de terror como eu julguei estes anos todos e sim de um conjunto de fábulas algo freudianas sobre o simbolismo escondido no folclore dos contos de fadas - tema que adoro - um pouco na linha de uma das minhas séries preferidas de todos os tempos, The Storyteller. O que não o torna menos sinistro e por isso mesmo, menos interessante. Mas divago - vamos ao que nos trouxe aqui.
 Eu e a avó fazíamos serão, como era nosso costume às vezes, e como ela nunca foi mulher de se assustar com nada (ela própria era uma grande contadora de histórias e influenciou muito a minha paixão pelas ditas) deixou-me estar, toda empolgada porque o filme já andava a ser anunciado há alguns dias. Mas quando a mãe chegou e me viu toda entretida na cena mais horrorosa - nem mais nem menos do que uma transformação em lobisomem que me ficou na cabeça até hoje - achou que era demais e apesar dos meus protestos, mandou-me para a cama. De modo que só vi metade do enredo (estou a ganhar coragem para o rever, com medo não do lobisomem mas de que a memória não corresponda à realidade).
  Mas aquilo a que assisti ficou, precisamente porque toda a estória girava à volta de uma avó que relatava contos populares à neta. E o conselho que ela lhe dava, também as minhas avós me davam: "nunca confies num homem com sobrancelhas espessas e unidas". E se tiverem olhos fascinadores, pior um pouco. Está claro que as minhas avós e tias, apesar de contarem casos de lobisomens que corriam sete aldeias a arrastar correntes, não acreditavam propriamente neles. Mas é folclore, percebem? Tudo é alegórico nestas coisas. O Capuchinho não é mais do que todas as mulheres, uma data de conselhos desmancha prazeres para que não se confie em cavalheiros misteriosos, de beleza algo obscura e sorriso lupino. Para a avó, um homem de sobrancelhas espessas tinha algo de selvagem e incontrolável; sobrancelhas dessas prenunciavam sempre um carácter tempestuoso e ciumento. Péssimo material para namoros ou coisa mais séria, portanto. E eu achava graça a isso. Confesso que sobrancelhas expressivas, independentemente do seu formato, sem constituírem uma preferência são algo que me chama a atenção no rosto das pessoas, e nunca dei importância especial ao aviso, nem para um lado nem para o outro. E com a minha imaginação, um visual algo misterioso tem sempre o seu apelo. Mas as avós têm sempre razão. Não disponho de dados estatísticos mas a julgar pela amostra, atrevo-me a repetir o aviso. A vida ensinou-me a prestar atenção a essa característica particular. A isso, e a senhores que tenham vários sorrisos. Todos temos mais do que um (o sorriso tímido, o sardónico, o aberto e o neutro, por exemplo) mas ter cerca de vinte (um puro e inocente, outro malvado, outro sarcástico, outro triste, outro assustador e por aí fora) por mais intrigante que seja, por mais curiosidade que desperte, é muito mau sinal. Não digo que indique um lobisomem em potência, porque se ainda existissem já tínhamos dado por eles nesta era da informação em que tudo se sabe. Mas lá está, tudo é metafórico nestas coisas. E em algumas pessoas, a natureza selvagem, o lobo que vive dentro delas, está muitíssimo presente. Valha-me que gosto de usar capuchinhos: são excelentes acessórios de moda, caem bem com tudo, e dão um jeito enorme para esconder o rosto quando passa um lobo em potência, que não convém olhar nos olhos.

Thursday, June 13, 2013

Santo António, I love you


"Santo Antônio Pequenino, 
Amansador de burro brabo
Quem mexer com Sto Antônio, 
Ta mexendo com o diabo!"

(Popular brasileiro)


A minha ligação a Santo António é quase umbilical. Afinal, nasci na Paróquia de Santo António, fui baptizada na mesma Igreja da comunidade onde ele se tornou Franciscano, e o nome António (ou Antónia) repete-se a minha família há gerações. Uma das minhas birras é não me terem chamado Antónia, na melhor tradição romana ("filha de António"). É um nome lindíssimo e soa bem em português, inglês e numa data de outras línguas, embora me veja obrigada a reconhecer que Sissi Antónia ia parecer no mínimo estranho. Outra razão para eu gostar dele é que, como a maior parte dos Santos da minha devoção, não é propriamente um Santo "santinho". Não me perguntem porquê, mas tenho inclinação para os Santos guerreiros ou aguerridos: S. Miguel Arcanjo, S. Jorge, S. Sebastião, Santo Expedito, Santa Marta, Santo António. Talvez porque eu própria possuo, assumidamente que graças aos Céus de hipócrita não tenho nada, um lado bom e um...menos amoroso. Gosto das figuras ambíguas, como eu.


Santo António é único não só pela sua rápida Canonização (uma das mais céleres de sempre) que ocorreu menos de um ano após a sua morte, motivada pelos muitos milagres que lhe sucederam, mas sobretudo pelos feitos extraordinários que realizou em vida - alguns com sabor a lenda, outros confirmados pela Santa Madre Igreja. E não há nada a fazer, os Santos místicos têm inevitavelmente o meu apreço.


A sua grande bondade e a sua cultura só são superadas pelos prodígios que deixavam abismados os que tiveram a felicidade de privar com ele...ou a audácia de o desafiar. Reza a tradição que possuía o dom da ubiquidade, sendo capaz de continuar tranquilamente o seu sermão em Pádua, ao mesmo tempo que corria a Lisboa para livrar o pai de morrer injustamente na forca; que duvidando um marido ciumento de ser o pai de um recém nascido, Santo António fez o bebé falar, atestando a honestidade da mãe; que falando às autoridades da Igreja, cada um dos presentes o ouviu na sua própria língua, espantando o Papa.


Quando um jovem veio confessar-lhe, arrependido, ter dado um pontapé na mãe, Santo António terá desabafado "o pé que fez tão feia acção devia ser cortado!". O jovem ouviu aquilo e impressionado, ao chegar a casa decepou o próprio pé. A mãe aflita correu a chamar o Santo, que logo tratou de lho pôr no lugar, como novo. Menos sorte teve um fanfarrão que para testar Santo António, se fingiu de cego: colocou uma venda sobre os olhos e pediu-lhe que o curasse. Zangado, o Bom Frade retirou-lhe a venda...e os olhos vieram atrás, perante o horror da assistência - não me recordo se lhe voltou a colocar os olhos no sítio, mas o episódio retrata o carácter (humano, afinal) de Santo António, capaz de se encolerizar e de castigar, como todos nós. Por essas razões, a sua figura cercou-se de um riquíssimo folclore e caiu no carinho popular. Muitos milagres relatados já depois da sua Canonização são espantosos, mas dão-se perante as angústias dos fracos e os dramas do quotidiano. Conta a lenda que um pai arruinado tinha uma filha muito linda, e que o seu maior credor desejava, em troca o perdão da dívida, os favores da jovem; desesperada, a moça lançou-se aos pés da imagem de Santo António. Comovido, o Santo atirou-lhe uma das suas sandálias...quando lhe pegou, esta era de ouro e pedrarias. Assim saldou a dívida da família, livrando-se da desonra.


O fervor popular de portugueses, italianos e espanhóis espalhou-se para as colónias, e a devoção a Santo António propagou-se nas tradições mágico-religosas da diáspora Africana e não só. No contexto da Umbanda, Hoodoo, Santeria e outras é sincretizado com Ellegua, Exu (a divindade que abre caminhos, viaja entre mundos e pode simultaneamente, ser benévola ou cruel) ou Ogum, o Deus da Guerra. 


E como seria de esperar, ganha contornos menos ortodoxos...

A imagem do Santo, tão familiar, tão camarada, é mesmo alvo de brincadeiras, no intuito de o "obrigar" a fazer milagres: são muitas as "simpatias" que incluem virar o santo ao contrário, pô-lo de castigo ou fechá-lo num lugar desagradável, como o frigorífico, até obter o resultado desejado. Neste cenário livre e pagão, o seu nome é invocado para os mesmos favores que nos habituámos a associar-lhe (recuperar objectos, empregos ou amores perdidos, questões de saúde, fazer casamentos) mas também para mudar a sorte, abrir caminhos, trazer oportunidades, amarrar maridos ingratos e castigar inimigos. Um Santo com muitas faces, mas sempre poderoso e próximo de nós. Como não gostar dele?

Friday, January 18, 2013

Pasmem! A nova novela da TVI...

                             
                                              
... é sobre duas gémeas, uma rica, outra pobre, que não sabem que são gémeas e trocam de identidade. A ideia para o esquema é, como não podia deixar de ser, da gémea rica e malvada que precisa de se esconder por causa de uma tramóia; nem pensar que fosse a gémea humilde a lembrar-se de tal, pois essa, comme il faut, é muito boazinha e na altura da troca perdeu convenientemente a memória num acidente que veio mesmo a calhar. Os ricos são glamourosos e quase todos mauzinhos que se fartam, os pobrezinhos são praticamente todos fofos, fora um que é bruto e um ou outro que é ambicioso, porque tem de haver desses em todas as novelas. Já se sabe que a gémea boazinha, porque é tão amorosa e santinha, vai conquistar, usurpando com autorização a identidade alheia, o marido e toda a família da gémea má, acomodando-se a uma vida de luxo e lazer. E que a outra, algures lá para o meio da estória, vai achar que  a troca foi péssima ideia e reclamar a sua vida de volta, fazendo a vida negra à irmã gémea usurpadora que não sabe que é irmã; mais tarde descobre mas isso não importa nada, a maldade vai-a tornando cada vez mais maluca até que acaba espatifada num desastre aparatoso ou numa camisa de forças, deixando o caminho livre para a mana- burlona - involuntária ser feliz para sempre. Revolucionário! Do outro mundo! Se já não tivesse visto isso em qualquer parte eu, que não sou grande espectadora de novelas, ia ficar coladinha ao écrã com um argumento tão inovador e espantoso, e saltar da cadeira a cada reviravolta do enredo.
 Já se sabe que as isto das novelas é um pouco como os Contos de Fadas, que são classificados por categorias e números, de tal modo os argumentos, elementos e alegorias se parecem entre si e se repetem em histórias diferentes. Apenas, nos contos podemos imaginar as princesas, as bruxas e todas as outras personagens com a cara que quisermos (ou que o ilustrador se tenha lembrado de fazer) enquanto que numa novela da TVI, temos o mesmo elenco e as mesmas caras produção sim, produção sim...É como se a Rita Pereira interpretasse sucessivamente a Bela, a Bela Adormecida, a Polegarzinha, a Branca de Neve, a Pequena Sereia e mais uma data de heroínas anónimas com destinos horripilantes que não me ocorrem agora (havia de ser giro, queria ver como a TVI descalçava a bota com as versões originais dos contos de fadas, que metem mesmo medo e não são para horário nobre).
 Nada contra, é assim que funciona e os actores precisam de trabalho. Só estou a avisar, senhoras que gostam do formato, para não ficarem à espera de uma coisa muito surpreendente e depois apanharem uma desilusão. É que até os títulos destas produções são quase impossíveis de distinguir uns dos outros - talvez tenham mesmo de as numerar. Destinos Cruzados, acho que é assim que se chama esta - e a única coisa inesperada que tem é a Maria João Bastos, que normalmente é um exemplo de elegância e comportamento modesto, a fazer de cantora pimba ... desta nova "leva" de intérpretes do género que cantam como a  Ruth Marlene mas vestem como a Rihanna se vestia antes de ganhar juízo e mudar de visual. Ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias...

My fine friends, o Imperatriz está muito perto de chegar à 2ª fase da eleição Blogs do Ano 2012 e precisa MESMO dos vossos votos até dia 19! Por isso, se acham que merece o  incentivo dos leitores mais fofos e respeitáveis de toda  ablogosfera, continuem a votar até Domingo nas categorias "Moda" e "Generalista"aqui e a passar a palavra. Much gratitude!


Thursday, June 21, 2012

Midsummer




Hoje temos o dia mais longo e a noite mais curta.  O Midsummer marca cerca de três dias (de 21 a 23 de Junho) em que os Deuses, as fadas e os príncipes élficos passeiam livremente por aí. Em que tudo pode acontecer. As ervas da sorte apanhadas nesta altura têm o seu poder multiplicado. O Midsummer, ou Litha, era assinalado pelos celtas com festas e fogueiras – um pouco como hoje, embora as celebrações tenham sido cristianizadas e transformadas na noite de S.João. Nesses tempos, as jovens faziam sortilégios para adivinhar o rosto do futuro marido; alguns desses “truques” chegaram até nós. Contava a avó Celeste que uma alcachofra deitada ao fogo de S.João devia ser guardada. Se voltasse a florir, era sinal que o amor de um pretendente era verdadeiro. Com ela funcionou, digo-vos isto…Quanto a mim, vou celebrar o solstício da forma mais adequada: uma alegre mistura entre a pura tradição Pagã e a devoção Católica Romana, com uma missa familiar em honra dos antepassados seguida de uma festa do solstício cheia de música folk e danças, junto a parentes e amigos. Ou seja, uma festa talhada à minha medida e à semelhança da evolução do próprio Sabbath, que nasceu da Velha Religião e se adaptou à nova sem perder os seus traços distintivos…

Sunday, June 10, 2012

Frase do Dia: Dizes que gostas de mim...


                                                            
                                                                   Hans Matheson e Gemma Arterton, Tess of the d'Urbervilles
 
 Dizes que gostas de mim,
    O teu gosto é só um engano
Tu cortas na minha vida, 
Como a tesoura no pano!
Para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim!

Ontem tive a oportunidade de ouvir uma versão fantástica da "Chula", tema tradicional que quando interpretado com balanço e expressividade reflecte o que há de melhor na música folk portuguesa. E como vox populi, vox Dei, ou seja, o povo sereno e observador quase sempre tem razão (tinha, quando era valente) esta estrofe perdida no tempo mantém-se absolutamente actual. Haverá melhor e mais lúcida conclusão a tirar de certos relacionamentos? Poucas vezes vi metáfora tão sensata - há quem seja como lâminas na vida de quem supostamente ama, ou usando outra expressão velha, pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira. "Amores" desses raramente se resolvem, dali não sai nada de bom. Na melhor das hipóteses comparam-se ao Povo de Montemor, nos versos do Conde de Monsaraz: se está mau, se é desgraçado, pode bem ficar pior...


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